Archive for the ‘Sem categoria’ Category

Não somos atletas da sobrevivência

Assisti hoje o capítulo final de “13 Reasons Why”. Eu estou tão impactada, que aí vão dois alertas. O óbvio spoiler sobre o final dessa história (ainda que todo mundo já saiba), e um inevitável alto teor de tristeza nas minhas palavras. Desculpem.

Eu não fui capaz de manter os olhos totalmente abertos na cena em que aquela menina corta os pulsos. Mas ouvi seu desespero ao ver que o sangue estava jorrando pra fora de seu braço esquerdo, embora fosse esse o plano. Ver é diferente. E vi que ela, ainda que chorando e muito nervosa, ainda cortou o outro. E esperou que toda a vida saísse de dentro dela, porque era melhor isso do que continuar dormindo e acordando todos os dias. Do que continuar vivendo. Do que encarar suas próprias escolhas e sua fraqueza, e a indiferença, e o medo, a angústia, a rejeição, a sua própria inabilidade. Que tristeza ainda maior foi ver sua mãe entrar no banheiro e ver a banheira cheia de sangue e sua menina inerte. E quando o pai dela chegou, achei que ia desmaiar quando ouvi sua mãe dizer “ela está bem”, só porque não dava pra conceber a morte de sua filha. Eu avisei. Há tristeza demais nesse texto. Publico porque foi o que eu senti, e eu registro aqui o que eu sinto, mas muito provavelmente ninguém nem deveria ler. É só um monte de tristeza traduzida.

Mas em algum momento nós vamos ter que falar sobre bullying. Seriamente. Bullying não é apenas ser chamado de quatro olhos, vara pau, rolha de poço, vagabunda, bizarro. Não é apenas isolar alguém, rir de alguém, maltratar alguém. Não é apenas ter um bode expiatório de estimação. É tudo isso. É mais do que isso. “Todo mundo passou por isso na infância e sobreviveu”. Não, nem todo mundo sobreviveu. Alguns não.

A minha primeira pergunta – e aí vão muitas – é: quando é que vamos amadurecer? Quando vamos acreditar que é preciso viver, e não sobreviver? Quando iremos sair do raso e dar um passo à frente em direção ao ser humano melhor que precisamos ser? Há outros no mundo, ninguém está só. Não estamos competindo uns com os outros o tempo inteiro. Não somos atletas da sobrevivência. Não há medalhas para os melhores seres humanos do mundo, mas também não há para os que conseguem provar que os outros são piores. Não há estudos provando que diminuir os outros nos faz sentir melhores.

Quando vamos aprender? E principalmente, quando vamos começar a ensinar isso ao outro? Aos nossos filhos? Aos nossos amigos, quando o vimos rebaixar alguém, ou humilhar, na presença ou na ausência? Quando vamos discordar, sob pena de parecermos sem graça, ou desmancha prazeres? Quando vamos aceitar a diferença? Melhor ainda, quando vamos entender que não temos que aceitar as diferenças, porque elas não existem para serem aceitas ou rejeitadas por ninguém? E sim para nos tornar humanos, porque humanos são diferentes? Quando vamos parar de assustar as pessoas com a maldade que está sim, dentro de nós? Quando vamos assumir essa maldade?

Desculpem. Trago muita angústia, muitas perguntas, nenhuma resposta e uma visão meio sombria de tudo isso. Eu avisei. Tem muita melancolia aqui. Estou impactada pelo que acabei de ver, achei mesmo que fosse vomitar, ou desmaiar. Confesso que a série toda é até um pouco arrastada. Mas o final foi muito doloroso de ver, assim como foi doloroso perceber, em cada cena, a indiferença construindo uma tristeza tão irreversível naquela menina, que a levou à terrível decisão final. É duro assistir a morte. Ainda mais quando alguém decide se matar. Jamais compreenderei. Nunca cheguei a uma conclusão sobre o suicídio, se seria muita covardia ou muita coragem, acho que os dois. Na medida errada de cada uma dessas duas coisas. Mas precisamos tentar enxergar nossa culpa diante do suicídio de alguém. Acho que o mundo inteiro tem culpa quando alguém resolve se matar. Não cada um de nós como indivíduos, mas nós como sociedade. Falhamos com aquela pessoa. Sei lá. Mas vamos ter que rever a forma como educamos os nossos filhos. Como interagimos uns com os outros. Não estou sonhando com o mundo ideal. Talvez eu seja sonhadora, mas não sou a única. Eu tenho uma grande oportunidade de fazer algo, minha filha. Estou acumulando clichês nesse fim de texto, já percebi também. Mas tudo bem, a essa altura só eu mesma estou acompanhando minhas próprias palavras carregadas de melancolia.

Sobre o espelho que quero ser

Eu faço qualquer coisa pra que o sorriso dela não se desfaça. Ou se transforme em tristeza, ou pior, e muito por, em medo. Frustração às vezes tem, faz parte da vida, que não nos dá tudo. Mas tristeza não. Medo, por favor, não. 

Às vezes eu finjo. Às vezes eu só quero chorar e ficar sentada num canto, sozinha, a testa nos joelhos, chorando. Às vezes eu quero tomar banho pra chorar lá dentro, porque chorar na chuva ou no chuveiro é uma boa estratégia. Ninguém precisa saber se a gente não quiser que ninguém saiba. Porque às vezes somos tomadas por tristezas também. O mundo é duro. Há tristeza no mundo suficiente pra cada um dos sete bilhões de seres humanos. A tarefa é árdua. A responsabilidade é grande. E eu sou só uma menina. Às vezes covarde, medrosa, triste e cansada. Então às vezes eu finjo que não estou triste, pra que ela não veja. Às vezes eu olho pra ela e ela me olha, e eu sei que ela está buscando em mim algo pra ela ser. Eu sei que é do ser humano ficar triste de vez em quando, mas ela ainda é tão miudinha. O máximo de tristeza que por enquanto eu suporto ver nela é quando está na hora do banho e ela ainda quer brincar “só um pouquinho”. Ou quando ela me pede o “bubu” e eu não dou. 

Ela me ama e me acha bonita. Ela mexe nos meus cabelos, ela mexe nos meus dentes e ri. Ela vê o aparelho em meus dentes e quer mexer. E eu não tenho nenhuma vergonha de mostrar pra ela meus dentes tortos, e os espaços deixados pelos dentes que precisei tirar. Ela acha tudo bonito, e sorri com aquele olhar. E eu sei que ela quer se espelhar em mim. E sei o quanto preciso melhorar pra servir de espelho pra ela. E tenho tentado superar meus medos, e ser boa, e ser forte, e ser altiva. Ensinar não é fácil. Mas é o que eu faço. Não que eu faça bem, mas eu faço. Eu faço isso todos os dias. Eu tenho certeza que podia fazer muito melhor. E isso às vezes me deixa triste. Mas é o que tem pra hoje, meu amor. Não haverá mãe perfeita pra você. 

Mas haverá uma mãe que quer, todo santo dia, ser melhor. Sossegar. Te ensinar a calma. A ver a vida de uma forma positiva. A pensar que tudo bem se algo não saiu como o planejado, porque o mundo não nos deve nada e a gente sempre pode tentar de novo. A gente tem aquilo pelo que a gente batalha. E se a gente já tem saúde, família, amigos, amor, nossa casa, a gente já tem tudo. O que vem além disso é merecimento, é espelho do que nós somos pro mundo. E eu quero que você tenha serenidade e equilíbrio em seu coração pra ver o que tem que ser visto e oferecer somente o que você tiver de melhor. Eu quero que você seja boa, pra que o mundo seja bom com você. Essa é a minha tarefa. 

Sobre a covardia que nos salva da loucura

Eu sou covarde. Diante de notícias muito ruins, eu só penso em fugir. Eu não quero mais falar nem ouvir falar. Não quero não. Não quero terceirização, previdência, CLT, temer, maia, financiador de campanha, bandido, ladrão, não quero, chega disso! Ao inferno com suas intenções! Há a hora de gritar e lutar, agora eu quero fingir que vocês não existem, malditos.

Fiquei com vontade, isso sim, de falar da chuva. Tem chovido tão bonito na minha janela. Pra mim, né, que estou de férias, e meu deslocamento mais distante tem sido levar e buscar minha filha na escola e passar no mercado, no caminho, pra comprar uma fruta, um arroz, um açúcar. Na maior parte do tempo estou escutando o estalo da chuva na esquadria da janela. O ruidinho surdo que faz quando o aguaceiro cai na grama da pracinha. Delicioso. Me lembra muito a minha infância. Acordar com a chuva na janela, e especialmente o barulhinho de um cano que tinha no alto do meu prédio, que escorria a água que acumulava na laje. Eu não sabia na época, mas eu adorava aquele barulho, era sinal de que chovia muito, do jeito que eu gosto. Aqui não tem um desse. Sinto falta.

Tem ficado escuro mais cedo. Março, te amo.

Vou ficar aqui, escondida das notícias por hoje. Escondida na terra encharcada, no cheiro hipnotizante da chuva, no barulho dela. No verde que ela trouxe pra praça. Na erva daninha que cresce entre as pedras portuguesas da praça. Concentrada em fechar a janela antes de deitar. Vai chover, que bom.

Isso nunca muda, vai chover sempre. Vai ter barulhinho, vai ter lembrança, vai ter essa paz que a chuva me dá. Deixa o noticiário pra amanhã. Vai chover.

200 milhões de cavalos

O brasileiro precisa amadurecer. Passar dessa adolescência política que divide o país em coxinhas e mortadelas, pelo amor de Deus. Observem lá na frente. Está para ser aprovada a tal Reforma da Previdência, prevendo que cada um de nós tenha que trabalhar durante 49 anos – e contribuir com a Previdência por todo esse período. Não é simplesmente se aposentar só com 65 anos. É com 65 anos no mínimo. Isso se você tiver contribuído com a previdência por 49 anos. Tem que começar a trabalhar com 16, com carteira assinada, e continuar até 65. Sem ficar desempregado, sem deixar de contribuir nem um único mês. Se ficar desempregado, vai somando o tempo sem trabalho aos 65, e sua aposentadoria vai indo pra frente. 67, 70, 75. Aposentar não pra curtir um pouco a vida, não para viajar, fazer um curso. Aposentar pra pagar plano de saúde, absurdamente caro. Num país onde o desemprego é uma realidade. Onde uma pessoa acima de 45 anos é considerada velha pra assumir qualquer vaga de emprego. Onde em muitos lugares a expectativa de vida é menor do que 65 anos. E tem mais. Um país onde a mulher ainda assume quase que totalmente os cuidados com a casa, por ser um país machista e mal criado, quer igualar a idade mínima e tempo de contribuição para homens e mulheres.

Enquanto isso, quem vai aprovar a reforma não está incluído nas mesmas regras que nós. 

Enquanto isso, Temer está aposentado desde os 55 anos. Recebendo 30 mil por mês. 

Aliás, enquanto isso, a gente come carne estragada.

Enquanto isso, pra provar que a carne brasileira é boa, Temer leva embaixadores a churrascaria que só vende carne importada. A um custo de quase 14 mil reais num jantar, pago pela Presidência. Rodízios. Bebida. Sobremesa. Cafezinho.

Enquanto isso, grandes importadores de carne brasileira suspendem a compra da nossa carne. 

Enquanto isso, a economia brasileira vai cada vez mais de mal a pior. 

Enquanto isso a economia cai, o desemprego aumenta.

Enquanto há mais desemprego, o brasileiro vai precisar contribuir com a previdência por 49 anos. Não irá se aposentar.

Parem, apenas parem. Estamos discutindo o sexo de um anjo enquanto um bando de mal intencionados acaba com o nosso país. Eu não admito. Eu não aceito.

Somos mais de 200 milhões. É como a história do cavalo, sendo chicoteado por um menino. Nenhum dos dois percebe a diferença de força que os separa. Se o menino soubesse, não chicoteava o cavalo. Se o cavalo soubesse, não seria jamais chicoteado pelo menino.

Estamos sendo o cavalo. 200 milhões de cavalos.

Pensando em você

É difícil escrever um livro. Agora que eu resolvi sentar pra escrever um, percebi que não vai ser tão simples quanto pensei. Que droga. Achei que em um mês de férias ia conseguir avançar um bocado. Aqui estou eu, sentada na sala de minha casa, numa tarde até fresquinha. Tem feito muito calor, mas hoje está agradável. Eu tenho uma grande responsabilidade que é contar pra minha filha todas as coisas que ela tem me ensinado. Todas as mudanças que o mundo sofreu desde que ela chegou, principalmente no meu mundo. Meu Deus, mudou tudo. Eu vou ter muito trabalho. Mas eu não consegui escrever nada digno dessa tarefa ainda, então vai ficar pra depois.

Mas tem tantas coisas em meu coração que eu gostaria de dizer… Quantas vezes eu chorei. Todas as vezes que eu chorei de medo! Medo do absurdo que é virar mãe. Eu não estava preparada! Acho que ninguém está. Não está. Ninguém sabe como vai ser, até que é. Quando ela chegou, eu achei estranho. Era tão maravilhoso o futuro estando diante dela. Ela me fez sentir protegida. Nada poderia me acontecer de ruim, eu tinha uma menininha pra cuidar. Todas as promessas estavam sendo cumpridas, eu tinha uma menininha. Mas eu enlouqueci no dia seguinte. Eu acordei e não entendi absolutamente nada. Durou algumas horas, mas eu voltei. É tudo verdade. Depois de encarar esse portal pra loucura, eu voltei. E nasci também. Eu nasci de novo naquele dia. E como todo recém nascido, eu não sabia de absolutamente nada ainda. Eu aprendi muita coisa em muito pouco tempo, eu chorei, eu tive medo, eu me encantei pelo mundo novamente. Não é exagero. É a transformação mais devastadora e ao mesmo tempo sutil que pode haver. Você só percebe com o tempo que aquilo que você foi você não é mais. Deus, como é complicado de entender. Eu não poderia jamais conseguir explicar.

Mas é tão maravilhoso. Minha filha me mostrou o mundo de novo. Não era como eu pensava. Eu não enxergava as coisas direito. Eu não entendia muito bem sobre os sentimentos. Agora eles vem crus, com uma força quase rude. Mesmo os bons, chegam tão intensos que a gente precisa respirar fundo pra não engasgar. Ela coloca as coisas em seus lugares em minha cabeça. Ela me dá a mãozinha e olha pra mim com uma confiança tão grande. Ela sabe que eu estou ali por ela. Ela não sabe, mas quando ela deita em meu colo aquele é o melhor colo que eu posso ter. E eu estou em casa, e eu estou de folga, quando estou no colo dela. Vontade de viver pra sempre, para estar com ela.

Te contar tudo isso vai ser difícil, meu bem. Mas mamãe já está se acostumando com as tarefas difíceis. Se não der, eu espero você crescer, e a gente vai conversando. Obrigada por me trazer para o mundo de novo.

Açúcar, lactose, glúten e outros elementos procurados pela polícia

Um fenômeno estranho tem acontecido ultimamente: eu ando com vergonha de gostar de comer. Pra ser honesta, com vergonha de comer sem vergonha. Com glúten, lactose, açúcar, farinha branca, sal, manteiga e todas essas maravilhas que existem no meu mundo, e que foram banidas das mesas de quase todo mundo que eu conheço. Essas maravilhas que fazem pães, doces, tortas, guloseimas de todo tipo e que me fazem feliz e satisfeita.

Eu tenho a impressão que antigamente as pessoas eram mais felizes e menos “policiais de si mesmas”. Depois que o glúten deixou de ser pesadelo exclusivo dos celíacos (pessoas que não digerem glúten), e que a lactose também virou assunto tabu nas mesas, eu fiquei meio sem assunto. Virou tudo “lacfree” (porque não basta não ter lactose, tem que ser em inglês), glútenfree, frutose também virou ‘persona non grata’, carne não convém, e eu não sei de que esse povo vive. É só frango, ovo, batata doce. Tenho uma amiga que eu adoro que come cinco ovos todo dia de manhã (“mas só uma gema”), e lancha frango puro desfiado à tarde. Academia sexta, sábado E domingo. Tem um corpo maravilhoso, barriga zero, magra e linda. Mas não é caro esse preço?

Sei lá, eu decidi que vou ser assim como eu sou. Tenho a sorte de ser magra mesmo comendo consideravelmente. Mas tem um monte de coisa sobrando e faltando aqui e ali em mim. Mas e daí? Quem foi que disse que todo mundo tem que ser desse ou daquele jeito?  Por que eu preciso me sacrificar pra me aceitar, pra gostar de mim? Tem tantas coisas em mim que eu adoro. E tantas que eu detesto, e que preciso mudar muito mais urgentemente do que minha barriga. Por que as pessoas deixam de ser barrigudas mas não deixam de ser, sei lá, mentirosas primeiro? Por que deixam de ser flácidas e não deixam de ser chatas? Minha amiga malhadora que faz muita dieta não é mentirosa nem flácida, pelo contrário. Eu diria que ela é um abuso, porque é linda, engraçada, inteligente e adorável. Mas ela podia ser mais feliz e não morrer de inveja dos meus pães matinais. 

É claro que uma vida saudável pede alguns sacrifícios. Todo exagero é ruim. Mas a vida já tem suas amarguras. É preciso um chocolate de vez em quando. Um brownie. Um pão quentinho. Um queijo derretido. Uma pizza marguerita. Uma panqueca, um sorvete, uma paçoca. De vez em quando. Não precisa ser todo dia. Todo dia só eu, que já estou a caminho da marginalidade e um caso perdido. Mas realmente defendo que as pessoas sejam juízas menos severas de seus corpos. Felicidade também é saúde.

Duas palavrinhas sobre o fracasso dos outros

Você, alguém sem filhos, que sabe tudo sobre ser uma boa mãe, a mãe que educa e impõe limites carinhosamente, tá lá sentada numa praça de shopping. Aí chega uma mãe com uma criança birrenta no colo. A mãe, visivelmente sem paciência e mal humorada, coloca a chupeta no boca da criança. Ela silencia e a mãe respira fundo. “Grande mãe. É por isso que a criança é birrenta. Basta ensaiar um choro que a mãe dá chupeta. Tsc.”

Cena mais do que comum, julgamento imediato. Mas deixa eu contar pra vocês essa mesma cena de outro ponto de vista: o da mãe.

Ela não tem babá. Divide os cuidados da filha com o pai, que trabalha pela manhã enquanto ela trabalha à tarde. Naquele dia ela precisou sair pela manhã pra resolver um problema burocrático urgente, e precisou levar a filha, bem na hora em que ela tiraria sua soneca, tranquila, em seu quarto com ar condicionado. Mas não naquele dia de calor. Naquele dia sua mãe chegou em seu quarto, a chamou pra passear, toda sorridente e carinhosa. Sabia que a tarefa seria difícil, e quis que sua filha não se chateasse tanto por ter que trocar a soneca pela rua calorenta e cheia de gente desconhecida.

A mãe a trocou, ela não gostou. A mãe escolheu dois brinquedos que a filha gostava e colocou na mochila, junto com suco, e o biscoito preferido. A filha só chorava. A mãe compreendeu. Era chato mesmo. Teve que pegar no colo, a burocracia na rua precisava ser resolvida. Colocou a filha no carro e lá foram elas. 

A mãe ouviu no caminho, pela milionésima vez, as músicas que sua filha gostava. Ouviu e cantou, e bateu palmas. O trânsito era ruim. O horário estava apertado, ainda ia trabalhar naquele dia. Sua filha, quietinha, parecia se entregar ao sono. Bem quando elas chegaram ao shopping. A mãe tirou da cadeirinha com todo cuidado, talvez ela continuasse dormindo em seu colo. Não deu certo. Sua filha acordou, e compreensivelmente, chorou, chateada. A mãe tentou coloca-la no chão, mas a menina estava sonolenta e irritada. Pegou no colo, pegou a mochila e ainda uma pasta de documentos, equilibrou tudo em dois braços. Foi à agência bancária. Enfrentou alguma fila, mesmo de prioridade. O caixa a disse que faltava um documento. Não resolveria o problema naquele dia. Naquele dia difícil. Não.

A mãe, cansada, frustrada, pensou que poderia estar em casa, enquanto sua filha dormia tranquila em seu quarto, com ar condicionado, e teve uma vontade enorme de chorar. Não era a primeira vez que se via sozinha numa situação complicada, tendo que resolver muitos problemas com sua filha no colo. Estava quase atrasada, mas morta de cansada. Achou um banco vazio no shopping e se sentou um pouco. Sua filha, também cansada, com sono e muito chateada, chorava. Sua mãe, como um último recurso, resolveu ignorar o “bubu é só pra mimir”, e deu a chupeta à filha, pra ter dois minutos de silêncio.

Havia uma mulher ao lado dela. Sem filhos, sabia tudo sobre ser uma boa mãe. “Grande mãe”, ela pensou.