Archive for Janeiro, 2017

Açúcar, lactose, glúten e outros elementos procurados pela polícia

Um fenômeno estranho tem acontecido ultimamente: eu ando com vergonha de gostar de comer. Pra ser honesta, com vergonha de comer sem vergonha. Com glúten, lactose, açúcar, farinha branca, sal, manteiga e todas essas maravilhas que existem no meu mundo, e que foram banidas das mesas de quase todo mundo que eu conheço. Essas maravilhas que fazem pães, doces, tortas, guloseimas de todo tipo e que me fazem feliz e satisfeita.

Eu tenho a impressão que antigamente as pessoas eram mais felizes e menos “policiais de si mesmas”. Depois que o glúten deixou de ser pesadelo exclusivo dos celíacos (pessoas que não digerem glúten), e que a lactose também virou assunto tabu nas mesas, eu fiquei meio sem assunto. Virou tudo “lacfree” (porque não basta não ter lactose, tem que ser em inglês), glútenfree, frutose também virou ‘persona non grata’, carne não convém, e eu não sei de que esse povo vive. É só frango, ovo, batata doce. Tenho uma amiga que eu adoro que come cinco ovos todo dia de manhã (“mas só uma gema”), e lancha frango puro desfiado à tarde. Academia sexta, sábado E domingo. Tem um corpo maravilhoso, barriga zero, magra e linda. Mas não é caro esse preço?

Sei lá, eu decidi que vou ser assim como eu sou. Tenho a sorte de ser magra mesmo comendo consideravelmente. Mas tem um monte de coisa sobrando e faltando aqui e ali em mim. Mas e daí? Quem foi que disse que todo mundo tem que ser desse ou daquele jeito?  Por que eu preciso me sacrificar pra me aceitar, pra gostar de mim? Tem tantas coisas em mim que eu adoro. E tantas que eu detesto, e que preciso mudar muito mais urgentemente do que minha barriga. Por que as pessoas deixam de ser barrigudas mas não deixam de ser, sei lá, mentirosas primeiro? Por que deixam de ser flácidas e não deixam de ser chatas? Minha amiga malhadora que faz muita dieta não é mentirosa nem flácida, pelo contrário. Eu diria que ela é um abuso, porque é linda, engraçada, inteligente e adorável. Mas ela podia ser mais feliz e não morrer de inveja dos meus pães matinais. 

É claro que uma vida saudável pede alguns sacrifícios. Todo exagero é ruim. Mas a vida já tem suas amarguras. É preciso um chocolate de vez em quando. Um brownie. Um pão quentinho. Um queijo derretido. Uma pizza marguerita. Uma panqueca, um sorvete, uma paçoca. De vez em quando. Não precisa ser todo dia. Todo dia só eu, que já estou a caminho da marginalidade e um caso perdido. Mas realmente defendo que as pessoas sejam juízas menos severas de seus corpos. Felicidade também é saúde.

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Duas palavrinhas sobre o fracasso dos outros

Você, alguém sem filhos, que sabe tudo sobre ser uma boa mãe, a mãe que educa e impõe limites carinhosamente, tá lá sentada numa praça de shopping. Aí chega uma mãe com uma criança birrenta no colo. A mãe, visivelmente sem paciência e mal humorada, coloca a chupeta no boca da criança. Ela silencia e a mãe respira fundo. “Grande mãe. É por isso que a criança é birrenta. Basta ensaiar um choro que a mãe dá chupeta. Tsc.”

Cena mais do que comum, julgamento imediato. Mas deixa eu contar pra vocês essa mesma cena de outro ponto de vista: o da mãe.

Ela não tem babá. Divide os cuidados da filha com o pai, que trabalha pela manhã enquanto ela trabalha à tarde. Naquele dia ela precisou sair pela manhã pra resolver um problema burocrático urgente, e precisou levar a filha, bem na hora em que ela tiraria sua soneca, tranquila, em seu quarto com ar condicionado. Mas não naquele dia de calor. Naquele dia sua mãe chegou em seu quarto, a chamou pra passear, toda sorridente e carinhosa. Sabia que a tarefa seria difícil, e quis que sua filha não se chateasse tanto por ter que trocar a soneca pela rua calorenta e cheia de gente desconhecida.

A mãe a trocou, ela não gostou. A mãe escolheu dois brinquedos que a filha gostava e colocou na mochila, junto com suco, e o biscoito preferido. A filha só chorava. A mãe compreendeu. Era chato mesmo. Teve que pegar no colo, a burocracia na rua precisava ser resolvida. Colocou a filha no carro e lá foram elas. 

A mãe ouviu no caminho, pela milionésima vez, as músicas que sua filha gostava. Ouviu e cantou, e bateu palmas. O trânsito era ruim. O horário estava apertado, ainda ia trabalhar naquele dia. Sua filha, quietinha, parecia se entregar ao sono. Bem quando elas chegaram ao shopping. A mãe tirou da cadeirinha com todo cuidado, talvez ela continuasse dormindo em seu colo. Não deu certo. Sua filha acordou, e compreensivelmente, chorou, chateada. A mãe tentou coloca-la no chão, mas a menina estava sonolenta e irritada. Pegou no colo, pegou a mochila e ainda uma pasta de documentos, equilibrou tudo em dois braços. Foi à agência bancária. Enfrentou alguma fila, mesmo de prioridade. O caixa a disse que faltava um documento. Não resolveria o problema naquele dia. Naquele dia difícil. Não.

A mãe, cansada, frustrada, pensou que poderia estar em casa, enquanto sua filha dormia tranquila em seu quarto, com ar condicionado, e teve uma vontade enorme de chorar. Não era a primeira vez que se via sozinha numa situação complicada, tendo que resolver muitos problemas com sua filha no colo. Estava quase atrasada, mas morta de cansada. Achou um banco vazio no shopping e se sentou um pouco. Sua filha, também cansada, com sono e muito chateada, chorava. Sua mãe, como um último recurso, resolveu ignorar o “bubu é só pra mimir”, e deu a chupeta à filha, pra ter dois minutos de silêncio.

Havia uma mulher ao lado dela. Sem filhos, sabia tudo sobre ser uma boa mãe. “Grande mãe”, ela pensou.