Uma carta para Mark

​Há alguns dias postei uma foto de minha filha no Instagram e escrevi algumas palavras pra ela. Eu faço muito isso. Nessa foto, uma amiga comentou que eu deveria imprimir todas as fotos que posto e o que escrevo, porque um dia essas plataformas virtuais poderiam não existir, e assim ela jamais saberia todas as coisas que escrevi sobre / para ela, em que fotos, vídeos, essas coisas. Desde então, essa possibilidade, ainda que remota, não me sai da cabeça. “Não, isso jamais aconteceria”, eu me digo, sempre com uma cara desconfiada de “mas e se?”

Então pensei em escrever uma carta aberta para o Instagram, o que me leva a escrever uma carta para Mark, o nerd que tomou um pé na bunda, criou o Facebook, ficou bilionário e resolveu sair por aí comprando todas as boas ideias que dão (muito) dinheiro.

Mark, precisamos que você assuma um compromisso. Acontece que você tem aí em seus servidores, em suas nuvens, esquemas, ou sei lá onde, todas as nossas memórias virtuais – porque nos desacostumamos a ter memórias físicas. Pouquíssimas pessoas imprimem fotos hoje em dia, e a partir de agora as novas gerações vão fazer isso cada vez menos, até que um dia crianças não vão saber que houve um tempo em que tínhamos 36 poses num filme, economizávamos cliques, e se alguém piscasse na hora H, “problema seu, não vou tirar outra”. 

Já virou vintage ter álbuns com fotos em envelopes de plástico, uma em cada cenário daquela viagem inesquecível, ou daquela turma de amigos. Depois que tivemos a chance de ver como a foto ficaria, tirar várias e apagar as ruins, acabamos tendo várias fotos com a mesma pose e não imprimimos nenhuma. Quem nunca abraçou amigos diante da câmara e disse “tira várias, pra garantir?” Pro Instagram vão as melhores, as escolhidas, devidamente “filtradas” e legendadas. É o nosso álbum. Então, Mark, tirar e ver fotos pra nós virou essa experiência diferente, não física, que nos permite ‘folhear’ álbuns de amigos distantes, comentar, trocar lembranças, fazer selfies, cometer exageros. Mas são nossas memórias. E o que sentíamos diante delas. O que eu disse quando postei a primeira foto do apartamento onde fui morar sozinha quando saí da casa dos meus pais? A imagem da primeira ultrassonografia? As fotos das viagens inesquecíveis, ou os vídeos corriqueiros e ainda assim encantadores de cada passo de minha filha? Como poderia perder todos os comentários que recebi e fiz em registros especiais? Não poderia. Mark, você tem um compromisso com a gente.

Acalme essa agonia gerada por minha amiga, que, coitada, tinha a melhor das intenções. É aquela história do príncipe e da raposa. O Instagram nos cativou e agora é eternamente responsável por nós.

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