Archive for Fevereiro, 2012

É preciso ficar triste.

Há algum tempo venho ensaiando escrever algo no blog sobre a necessidade que as pessoas têm de aparentar felicidade. Uma felicidade constante, forçada, plástica, irreal e incorruptível. Como se fosse natural uma pessoa dormir a acordar sorrindo todos os dias da sua vida. Como se não fosse dado o direito à reflexão, à serenidade, à instrospecção. Vou mais longe, como se não fosse dado o direito à tristeza. Como é possível valorizar um dia radiante se todos forem iguais? Como saborear uma vitória que eu tenho ou finjo que tenho todos os dias? Se engana quem pensa assim, se engana quem se obriga a ser feliz. Porque ser feliz não é obrigação. E pior ainda, quem obriga os outros. Há alguns dias um amigo estava triste, sozinho e em silêncio. Chegou uma amiga em comum e disse: “desfaça essa cara, que ninguém merece ficar olhando pra cara amarrada e mau humorada. Pare com essa tristeza, detesto cara feia. Ôxe, onde já se viu isso? Me poupe”. Alguém pode citar uma falta de sensibilidade maior do que essa? Sabe lá que problema tinha esse meu amigo? O que fez com que sua cara se amarrasse a ponto de fazê-lo ficar só e em silêncio? E que direito tem uma outra pessoa de pedir que alguém se desfaça de sua dor instantaneamente porque ela detesta cara feia? Essa própria pessoa, nunca teve um motivo na vida pra ficar triste? E o que fez com ele, guardou até não aguentar mais e entrar em depressão? Ficar triste é saudável. Chorar, ter mau humor de vez em quando é saudável. É maduro parar e pensar na vida. Tentar corrigir erros. Refletir sobre si mesmo. Questionar a própria felicidade. É natural. Nem sempre se ganha.

Eis que ontem Carlinhos Brown perdeu o Oscar de melhor canção original. Ah, que droga. Torci por ele, pelo Brasil, é lógico. Mas aí ele perdeu. E daí que todo mundo resolveu dizer que o Oscar é uma grande bobagem que não vale nada, e que ele está bem acima disso. Esses mesmos que ficaram acordados até assistir a parte em que ele perde. E começar a jogar pedra no Oscar que tanto queriam ganhar. Por quê isso? Simples. Porque perder é proibido. Ganhar é “obrigação”, como “é obrigação ser feliz”. Como se a vida fosse feita apenas de vitórias.

Para os que pensam assim, notícia de última hora: perder faz parte da vida. Perder nos impulsiona a tentar de novo, e melhor. Perder alguma coisa não faz com que essa coisa seja ruim. Apenas alguém esteve melhor dessa vez. O Oscar é questionável? É, mas não é sobre isso aqui. É sobre a imaturidade dessa ideia que “a gente” gosta de regar e alimentar, de que só a vitória engrandece. Como se perder ou ficar triste fosse para os fracos. Quando fraco mesmo, em minha opinião, é quem esconde sua dor embaixo do tapete pra não dar o braço a torcer de que é feito de carne, osso, alegria e um pouco de tristeza também.

“Olha lá, quem acha que perder é ser menor na vida.
Olha lá, quem sempre quer vitória e perde a glória de chorar.”

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A respeito do que se quer

Para ler ouvindo Rise, Eddie Vedder.

Você conhece os seus limites? Sabe o ponto exato da razão, do domínio do seu corpo, dos seus instintos, da sua moral, dos seus princípios? De até onde cada ato seu é simples satisfação momentânea e a partir de que ponto um passo em falso pode colocar em risco toda a construção que te sustenta? Quando algo que você escolhe fazer vai contra o que sente? O que isso pode causar naqueles que você ama? Até onde vai a sua força? A sua vontade? Você sabe a hora de mudar de rumo? Sabe dar o próximo passo? Sabe que é preciso fazer escolhas e responder por elas?

Você sabe o que quer?

Sou Pessoa.

“Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta traições de alma a um caráter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenha.
Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.”

(Fernando Pessoa)

Não vim pra explicar. Vim confundir.