Archive for the ‘Observatório mal-humorado’ Category

INEPtos

Francamente. Essa história do ENEM é revoltante além da conta. 4 milhões e seiscentas mil pessoas prejudicadas com a suspensão do exame feito neste fim de semana. A suspensão, apesar de arrasadora pra quem passou o fim de semana sentado numa cadeira respondendo uma prova cansativa com 180 questões, acaba sendo a decisão mais justa, frente aos inúmeros erros ocorridos no decorrer do processo. Folhas de respostas com erro de impressão, fiscais mal preparados para orientar os candidatos, cadernos de prova trocados ou faltando questões, e outros problemas que, obviamente – desde que se queira enxergar – prejudicam a credibilidade dos resultados.

Pronto. Milhares de candidatos que se sentiram prejudicados reclamaram, o Ministério Público Federal pediu e a Justiça do Ceará decidiu: o ENEM foi suspenso no Brasil inteiro. A decisão cabe recurso, e o Ministro da Educação já afirmou categoricamente que irá recorrer, e que nem cogita cancelar o exame. Ora, meu querido ministro, com todo respeito, mas decisão judicial é decisão judicial, e não importa se você é bonito ou feio, tem que obedecer. Agora eles querem reaplicar as provas apenas para uns poucos milhares (?) de candidatos que receberam os cadernos com defeito de impressão. Injustiça maior não há. Então submete-se esses estudantes a um novo estresse, uma nova provação, ainda mais ansiosos. E a igualdade de condições, e a isonomia? Tudo na lata do lixo. O MEC e o INEP – orgão do MEC (ir)responsável pela realização do ENEM – não admitem refazer a prova para todos, embora admitam falhas, que pelos depoimentos deles foram mínimas, quase irrelevantes.

Atribui-se a culpa à gráfica que imprimiu os cadernos de provas. Ah, ok, então foi isso. Vamos esquecer que gastamos mais de R$ 70 milhões pra fazer o exame desta vez. Precisamos de quantos milhões mais? Pronto. Aqui está. Vamos esquecer tudo isso, passar uma borracha. Aliás, aqui pode passar borracha, porque no ENEM lápis e borracha foram proibidos. Virem-se pra fazer seus cálculos e sua redação com caneta preta.

Quanto aos fiscais que em cada escola deram uma orientação diferente aos candidatos, o MEC afirma que o treinamento coube às unidades escolares que aplicaram as provas. Para o Procurador da República que solicitou a suspensão do exame esse treinamento deveria ficar a cargo das universidades federais. Mas as responsabilidades são todas repassadas. Os erros nas provas são da gráfica. Os fiscais mal treinados não foram treinados por nós. Não aceitamos cancelar o ENEM. Nada disso é nossa culpa.

Enquanto isso, alguém aí se lembra que 4 milhões e seiscentas mil pessoas se inscreveram pra fazer essas provinhas? Que essas pessoas tem família e que isso triplica ou quadruplica o número de prejudicados? E aí, vai ficar por isso mesmo? Já disse e repito: seria muito bom o Ministério da Educação começar o dia amanhã com uma multidão de estudantes exigindo respostas, explicações e principalmente uma solução justa para esta palhaçada. Porque em algum momento a gente tem que reclamar de alguma coisa. Em algum momento as pessoas vão ter que sair da passividade pra exigir que a competência esteja no currículo de quem manda neste país.

Agora só em 2014

Pelo tempo que não posto nada, eu deveria caprichar agora que resolvi escrever. Mas na verdade o post é “rápido e caceteiro”, como se diz aqui na Bahia. Uma amiga me perguntou no twitter: “Cadê o patriotismo da Copa, não vai ver o desfile?” Ah é, hoje é 7 de setembro. Dia da independência. Não vou me dedicar a discutir “independência de quê?”, porque, né, não dá em nada que se aproveite. Mas queria só dizer uma coisinha.

Eu sei que essa amiga não estava me desafiando a explicar “não, eu amo meu país, entenda, é que… bem… na Copa… e hoje é um dia tão importante…”. Não. Ela perguntou e riu. Mas é que tem muita gente que pergunta mesmo, como se dissesse “ah, agora eu quero ver. Te peguei.”.

Minha posição? Tenho o famoso patriotismo de Copa, e não tenho nenhum de 7 de setembro. Pronto, falei. Principalmente em ano de eleições. O futebol brasileiro é vencedor, dá orgulho. Mesmo se perder de vez em quando, que não se vive só e sempre de vitórias. Mas o Desfile não me dá orgulho nenhum. É interessante, as crianças gostam de ir, ver o movimento, eu já desfilei quando pequena um milhão de vezes, e foi importante, ter participado, interagido, tido orgulho, tal. Mas não dá pra alimentar isso a vida toda. É meio como Papai Noel. Depois que a gente cresce deixa de acreditar. Não é que eu não acredite no meu país, e eu acredito, tenho orgulho (na medida do que é possível), só que essas manifestações forçadas, desfile chato, um monte de gente apinhada, não dá pra acreditar que isso seja uma manifestação de orgulho pelo país. E o pior de tudo: políticos querendo votos. Mostrando como são adoráveis e amam seu povo. Ah, tenha paciência. Isso não dá pra mim não. Como eu vou mostrar o orgulho que sinto pelo meu país nessa bagunça? Eles vão e sorriem da hora que chegam até a hora de irem embora. Até quando recebem uma vaia em uníssono, eles fingem que não é com eles. E jogam toneladas de “santinhos” no chão, e fica tudo sujo, e nenhum deles providencia mandar uma equipe pra limpar depois. Pode deixar, eu sinto o orgulho que for em casa mesmo.

E já que estamos falando em políticos, mais uma da série “Observatório Mal Humorado”: eles todos acham que somos idiotas. A campanha de um diz: Eles estão enganando vocês. Nada do que ele diz é verdade. Aí vem o outro e diz: Ele não sabe o que está dizendo. Mente deslavadamente. E quer enganar vocês. Ora, que eles queiram enganar tudo bem, é justo, são políticos, e a maioria é assim e a gente já sabe, mas daí a achar que somos meninos amarelos que não sabem distinguir quem fala a verdade de quem não fala, como se a gente se deixasse enganar a cada nova mentira, feito bobos, é demais. Obrigada candidatos, pela preocupação comigo. Mas não subestimem minha inteligência, s’il vous plâit. Eu já sou bem crescidinha e meu alarme tá ligado na direção de vocês.

Então que ninguém me pergunte cadê meu patriotismo de Copa. Ele volta em 2014.

Observando…

Desde criança eu aprendi com meus pais que caridade não é quando você tem dois e dá um. Caridade é quando você só tem um e dá a metade.

Há dias venho ouvindo pessoas dizendo por aí, por ali, que (e sempre começa assim): “Tudo bem que o Haiti está passando por problemas, mas peraí, todo mundo manda dinheiro pro Haiti, fala do Haiti, se preocupa com o Haiti, mas e eu? Meu salário está atrasado”, ou então (e bem mais aceitável) “tem criança órfã no Haiti, tudo bem, mas aqui também tem. Por que a gente tem que ajudar as de lá se aqui também tem?”, e outras manifestações do tipo.

Pode parecer impopular o que vou dizer, mas embora revestidas de indignação, essas manifestações – mesmo as que reivindicam ajuda para nossos pobres em detrimento dos pobres dos outros – me cheiram a egoísmo. A essas alturas, eu já acho até desnecessário descrever o que aconteceu com o Haiti, e tentar descrever o quão infeliz e desgraçado já era aquele povo, mesmo antes do terremoto. A gente acha que imagina como é, mas de repente somos bombardeados com imagens que deixam até o menos sentimental dos seres humanos abalado. E fazem pensar: Meu Deus, tamanha tristeza existe? É possível?

Mas se a desgraça lá é inimaginável, a nossa aqui é conhecida. E será que esses que reclamam da solidariedade de quem se mexeu para ajudar quem precisa também se mexem pra ajudar quem precisa e está por perto? É porque eu sofro que não posso ajudar quem sofre? É porque tem uma criança chorando aqui que não posso tentar ajudar também a que chora lá? É porque meu salário está atrasado que o Haiti não merece uma mão estendida pra tentar levantar?

Hoje eu li na internet que John Travolta, um ano depois de perder seu filho de 16 anos para uma doença rara, voou em seu avião particular para o Haiti, levando 50 médicos e também mantimentos para aquele país. Na volta ajudou haitianos-americanos a voltar pra casa, trazendo-os em seu avião. Países e pessoas doam dinheiro, levam médicos, levam esperança. O Brasil é um dos mais ativos nessa ajuda. Todos esses países tem problemas, certamente. Mesmo os mais ricos, em maior ou menor escala. E se todos resolvessem cuidar de seus problemas primeiro, o Haiti estaria fadado a permanecer sob as ruínas. Os sobreviventes morreriam de inanição, e de doenças, e de horror.

Lembro de uma frase atribuída a Gandhi, não lembro exatamente as palavras. Mas era mais ou menos assim: “Quando um homem se levanta para fazer o bem, toda a humanidade se torna mais digna junto com ele”. Acho que precisamos de mais desses homens para ajudar a levantar a nossa “humanidade”.

Postinho rápido!

Eu juro que não é implicância! Nem perseguição! Mas vocês já viram a propaganda nova da Activa?

– Oi! Como você está bonita!! E o intestino?
– Tudo bem! Funcionando direitinho!

Meu Deus! SOCORRO!!!

Observatório Mau Humorado e Dostoiévsky se revirando

Eis que depois de uma semana super-duper-mega puxada, eu cheguei viva ao sábado. Segunda-feira ouçam a Metrópole, tem matéria especial minha sobre os 20 anos da queda do Muro de Berlim. Adoro a sensação de viver o dia seguinte a um trabalho muito difícil, sinto que consegui, terminei, foi bom, e eu estou pronta pro próximo. Mas não há nada como um fim de semana entre os dois.

Tem uns comentários que eu preciso fazer sobre o que tenho visto na televisão. É, lá vem mais um Observatório Mal-Humorado!

O QUE É aquela promoção do Extra? Você compra não-sei-quanto no supermercado e, se a sorte olhar pra você no meio de milhões, você terá o imenso privilégio de assistir a um TREI-NO da seleção??? Quem quer??

Outra coisa que eu acho muito irritante é o clichê das propagandas. Essa mania de fazer propaganda futurista, com gente teclando coisas no ar, e arrastando imagens com a mão me dá uma aflição misturada com ginge, misturada com irgh, misturada com raiva! Só sei que é ruim! Tenho raiva de gente preguiçosa que não cria uma coisa mais legal, isso já está muito batido! Por falar nisso, assim chego ao último comentário mal-humorado de hoje.

Matérias jornalísticas que tem como título: CRIME E CASTIGO.

Será que alguém ainda não fez isso (quem não fez diga EU! EU)? Porque eu já vi esse título em todos os jornais locais, em todas as revistas nacionais, e até em artigo internacional eu já vi. Pronto. Agora que todo mundo já usou já chega, né? O pobre do Dostoiévsky deve se revirar com tanta falta de originalidade…

Promessa é dívida!

Eu acho uma graça essa propaganda da Activia. Mulheres sem barriga nenhuma querendo que a gente acredite que elas são assim porque “os intestinos funcionam” direitinho (ficou mais legal assim do que dizer o verbo em si, né). E pra quem tem intestino preguiçoso (leia-se “prisão de ventre”) a moça loira diz: Use Activia por 14 dias. Se não resolver receba seu dinheiro de volta.

Tal promessa desencadeou em mim e na minha amiga Elen a seguinte elocubração:

Entra no supermercado uma pessoa. Mal dá pra ver que é uma mulher, uma vez que usa sobretudo, chapéu e óculos escuros. Só os sapatos entregam o gênero. Ela se aproxima da funcionária “Posso ajudar?” e pergunta onde é a gerência. “Posso ajudar?” responde que o gerente fica zanzando na loja (ela não disse zanzando, disse observando o funcionamento da loja). A criatura disfarçada chega até ele, que está cercado de pessoas que futucam frutas e verduras, procurando as melhores. Disfarçada fala com ele. Tão baixo que mal se ouve um ruído:

– Quero meu dinheiro de volta – e mostra um saquinho com uma série de rótulos de Activia, junto com as notas fiscais, que provam que ela comprou tudo ali.

Mas Gerente obviamente não consegue ouvir. Acostumado com o ruído da loja, e todo mundo que trabalha com ruído acaba ficando meio surdo, pergunta bem alto:

– Como é que é, minha senhora? – ele estranha toda aquela roupa, e faz uma cara de quem tá um pouco desconfiado.

– O dinheiro, eu quero de volta… – um pouco mais alto desta vez.

– Que dinheiro, minha senhora? – Gerente, meio bruto, já de braços cruzados, começa a não gostar. Falou em devolver dinheiro…

– Não seria mais adequado conversar em uma sala reservada? – pergunta nossa querida-pobre-coitada.

Gerente foi logo adiantando o papo e pedindo pra ela desembuchar de uma vez.

Disfarçada, já estressada pelos 14 dias difíceis que teve que passar no banheiro e assustada com toda a situação, quase chora… É aí que tudo piora. É que Gerente, infelizmente, entendeu a situação toda.

– Ahhhh!! A senhora quer seu dinheiro de volta! Aquele lance do iogurte pra quem não caga bem!

Disfarçada derrete, vira uma poça de água no chão, e a moça da limpeza, para evitar acidentes, traz a plaquinha: Cuidado, piso molhado…

Mas a situação pode ser pior, se a mulher enganada for do tipo barraqueira. Aí ela chegaria já perguntando a “Posso ajudar?” onde é que ela pega o reembolso do Activia que prometeu que ela ia cagar direito e não cumpriu.

Tsc, tsc, tsc. Quem criou esta campanha constrangedora fez de propósito. Eles sabem que nenhum ser que se respeite vai cobrar esse reembolso, ora, faça-me o favor!

Observatório mal-humorado de TV

Eu não sei vocês, mas eu tenho um iiirrrghhhh de Denise Fraga. Ter irgh é quando você vê a cara da pessoa, faz uma expressão de “eca” e diz: IRRGGHHHH!!! Não é nojo, não chega a tanto, mas é um irghhh… Ah, eu não aguento aquela cara de boazinha-tadinha-lesa, porque cara de boazinha, tudo bem, vá lá, é a Sandy, cara de tadinha quem tem é aquela atriz que faz Mia na novela das oito, a virgem (virgem na novela das oito? Tá) e cara de lesa sei lá quem é que tem, lembram de alguma? Mas tudo isso junto aí já vira Denise Fraga, e não tem quem aguente. Eu não vi “Norma” e não pretendo ver, porque 1. é domingo; 2. é tarde e 3. é com Denise Fraga. Irghhhh!

Não sei, acho que o problema não é ela, o problema é que a criatura resolveu virar uma caricatura, em algum momento da carreira Denise Fraga respirou fundo e disse “pronto, agora serei para sempre a personagem abestalhadinha da Globo”. Já viu, que irgh?

Denirgh Fraga

Denirgh Fraga

O segundo ponto do meu observatório mal-humorado de TV é a propaganda da sandália de Gisele Bundchen. Co-mo  é  que  Gi-se-le  Bund-chen (como é que se separa isso) co-lo-ca  o  no-me  na-que-la  san-dá-lia  hor-ro-ro-sa? Só mesmo sendo Gisele Bundchen pra não afundar a carreira depois desse escorregão. Deus me livre!

Pronto, falei!

Não uso nem a pau.

Não uso nem a pau.