Archive for Abril, 2016

Deus me livre de ser Deus

Em um desses momentos em que a gente se pega pensando coisas aleatórias e aparentemente sem utilidade, eu descobri que estou aliviadíssima porque eu não sou Deus. Explico.

Somos ao todo sete bilhões de pessoas no mundo. Não sei se esses dados são dos organizadores ou da Polícia Militar, mas ainda que haja uma margem de erro, de dois bilhões para mais ou para menos. Alguém sabe o que significa um bilhão? É muito mais do que poderíamos imaginar, então de um bilhão pra cima é tudo basicamente a mesma coisa, muita gente. Então: você que me lê deve ter uma vida bastante complexa. Relações pessoais, profissionais, afetivas, problemas financeiros, anseios, desejos reprimidos, horários a cumprir. Você não é você sozinho. É você e todas as pessoas e coisas que construíram o que você é hoje. Acompanhando até aqui? Agora imagine toda essa complexidade da sua vida, que certamente daria um filme, multiplicada por sete bilhões! É muita coisa pra Deus dar conta.

Eu rezo toda noite. Antes de minha filha nascer eu negligenciava às vezes, mas depois que ela nasceu, bato ponto numa prosa com Deus toda noite, todinha. Eu tenho muitos agradecimentos a fazer, mas também tenho cá minhas demandas. Fico imaginando cada pessoa que vejo na rua. Não são bonecos, figurantes sem alma que estão lá pra compor o cenário. Eles também tem vidas complexas, amigos, questões profissionais, filosóficas, dilemas.

Deus deve receber muitos, muitos pedidos. Mas será que a gente, que ocupa tanto Deus, dá uma ajudinha a Ele? Isso veio no trilho dessa minha reflexão filosófico-religiosa de dia desses. Ele deve precisar de ajuda. Tudo bem que Ele é o Todo Poderoso, uma folha não cai da árvore sem o consentimento Dele, dizem, mas nem Deus pode ser tão autossuficiente que não aceite uma mãozinha. O problema é que, proporcionalmente, poucas pessoas devem fazer isso. “Deus, deixa eu cuidar disso aqui pro Senhor”, e alimentar alguém que não tem o que comer, alfabetizar pessoas que não tem acesso a educação, compartilhar tempo e conhecimento, resolver uma questão burocrática pra uma pessoa idosa, salvar alguém do afogamento, sei lá. Fazer sem compromisso, só pra dar uma desafogada nas tarefas de Deus. E deixaríamos pra Ele apenas as coisas mais difíceis, como consolar quem perdeu alguém que amasse muito, transformar homens desonestos em honestos, amansar o povo do Estado Islâmico, acabar a corrupção, instaurar a paz mundial, essas coisas um pouco mais complicadas.

Mas nem o que a gente poderia fazer, a gente faz. Digo a maioria de nós. Eu não faço. Eu sempre fico pensando que preciso devolver algo ao mundo por merecer tanta coisa boa em minha vida, como minha filha, mas acabo me limitando a fazer muito pouco. “Vou fazer, vou fazer”.

É duro ser tão abnegado como Ele. Atender nossas demandas inquietas e entender que não vamos retribuir porque somos assim mesmo, individuais e individualistas.

Deus que me livre de ser Deus.

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Somos todos santos ocos

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Nelson Rodrigues dizia: “se cada um soubesse o que o outro faz entre quatro paredes, ninguem se cumprimentaria”. Se quem diz é Nelson Rodrigues, quem seria eu pra discordar. E eu concordo absolutamente. E vou além, na mais absoluta ousadia de ir além de Rodrigues: se cada um soubesse o que o outro pensa, não haveria nem mais um aperto de mãos. Se ele fosse vivo hoje, certamente seria um marginalizado da sociedade. A nossa sociedade atual não teria a menor capacidade de conviver com Nelson Rodrigues, com toda sua verdade escancarada, sem o menor pudor de constranger quem quer que seja. Hoje ninguém pode ouvir um palavrão sequer. Santos, que somos. Todos.

Eu não vou entrar no mérito político da questão (nem tratados e monografias cautelosíssimos tem dado conta de segurar a raiva que paira no ar nesses tempos estranhos), mas vou me ater a algo que venho observando ultimamente. Ao serem divulgadas conversas telefônicas de Lula, descobrimos que ele fala “grelo duro”. E que ele sugeriu que sua assessora consideraria um “presente de Deus” se cinco policiais federais entrassem em sua casa da manhã cedo. O Brasil, beato que só ele, entrou em choque.

Antes de mais nada, vamos lembrar que essas falas foram ditas em conversas telefônicas com quem ele tinha um relacionamento de intimidade. Mas como assim, ele fala dessa forma de nós, “mulheres empoderadas”? Mal sabendo elas que a frase “cadê as mulheres de grelo duro do nosso que partido?” se refere exatamente – do meu ponto de vista – a mulheres corajosas, que não abaixam a cabeça. É assim que eu entendo.

Depois ele diz algo como “Fulana de Tal viu cinco homens entrando em sua casa às 6 horas da manhã e pensou que fosse um presente de Deus, mas eram policiais federais”. Aí teve gente que interpretou como se ele estivesse sugerindo que ser estuprada coletivamente fosse um sonho de toda mulher. Só posso concluir que tem muito pouco espaço pra piada nesse mundo. Que todo mundo é muito mal humorado – ou muito hipócrita. Pode xingar a mãe no trânsito, mas não pode dizer grelo duro no telefone com um amigo. Pode chamar de viado, mas não pode fazer piada entre cinco homens e uma mulher solteira – no telefone com um amigo. Pode mandar tomar naquele lugar, mas não pode dizer palavrão no telefone se sua conversa for grampeada. Pode desejar a morte de quem vota em A, B ou C em redes sociais, mas dizer grelo duro, isso aí já é demais.

Ora, é muito fingimento. Hipocrisia pouca é bobagem. Ou então tem muita gente no Brasil com nível de santidade muito maior até do que o Papa Francisco, que, aliás, eu poderia jurar que daria uma risadinha dessa história toda.