Archive for Agosto, 2016

Super heroína? Não, obrigada

Não que isso realmente interesse a quem quer que seja além de mim, e dos que tomam banho em minha casa, mas a resistência do chuveiro foi trocada. E como falei disso aqui há alguns dias, achei que seria justo fazer a atualização. Chego assim ao fim de uma crise, que me fazia respirar fundo a cada banho, triste que ficava ao ter que encarar a água gelada. “Justo nesses dias frios de Salvador”, “como se frio houvesse por aqui”, “era o meu frio, meu corpo, minhas regras”.

Mas numa dessas noites, exausta do dia cansativo no trabalho, e da tarde de brincadeiras e corre corre atrás de minha filha de menos de dois anos, encarei o chuveiro jorrando água gelada e disse: “Vá! Você não é ‘retada’? Poderosona? Super heroína?” E então parei e respondi que não. Não quero ser ‘retada’, poderosona, nem super heroína. Pra falar a verdade, às vezes eu gostaria mesmo é de um pouquinho de mamata, pra variar. Eu já tenho jornada tripla, trabalho fora, trabalho em casa e sou mãe de uma menininha super saudável (leia-se “terremoto”). Seria demais pedir um banho quentinho antes de dormir? Mas como não havia jeito, acabei dando meus pulos, literalmente, debaixo d’água.

Outro dia entrei num supermercado, enchi um carrinho, e fui embora de mãos vazias porque esqueci a carteira em casa. Controlei a irritação, fui em casa, peguei a carteira, fui a outro supermercado mais próximo, e enchi novo carrinho. Uma das tarefas mais chatas da vida de uma dona de casa foi feita duas vezes por mim numa tarde. No fim de um dia assim, gosto de me condecorar com uma medalha mental de super heroína. Uma espécie de compensação pelo tamanho da batalha diária. 

Batalhas temos todos. Algumas maiores, outras menores. Na verdade, na verdade, se a gente for enumerar, tomar um banho frio é a menor das nossas questões existenciais. Mas é que naquele dia essa foi pra mim, justamente, a gota d’água. Fria.

PS: lembrar da resistência

A campanha política começou anteontem e eu já a odeio com a força de Hércules. Não porque não gosto de política (ruim com ela, pior sem ela), não porque são mentiras muito pouco sinceras, não porque entram em cadeia de rádio e TV (viva as TVs por assinatura e Netflix). Mas porque os carros de som podem acordar minha filha na soneca do fim da manhã. E eu amo/preciso/aguardo ansiosamente a soneca dela do fim da manhã. É quando eu faço uma pausinha no meio do dia pra descansar do Discovery Kids, do cavalinho upa upa, do corre corre pra lá e pra cá, do descasca fruta, faz suco, bate palma, tudo que eu amo fazer só pra ver o sorrisinho dela, mas que durante 12 horas seguidas exaurem qualquer ser humano. E assim que a ponho no berço e saio do quarto, um pagode quebradeira passanarua e grita que ninguém “vai fazer o que ele fez”. Paro de respirar por alguns segundos: ela não acordou. Pulei essa fogueira.

Deito na cama e começo a pensar em todas as coisas chatas de adulto que não tenho tempo de pensar enquanto vejo Peppa e começo a listar na cabeça coisas que preciso fazer durante a semana. Ver o que preciso comprar no mercado para a semana. Não esquecer da resistência do chuveiro, que queimou e tenho tomado banho gelado – ge-la-do – toda noite antes de dormir. Mas não consigo lembrar qual o modelo porque a essa altura passa o carro de som da mais nova Santa Francisca de Assis, defensora de animais. Volumes altíssimos. Músicas medonhas. Números, números repetidos e gritos. O que eles pensam? “Quanto mais a gente escandalizar a vizinhança mais pareceremos confiáveis”? Malditos sejam todos. Já passaram uns cinco. Paro de respirar toda vez que um treme minha janela. Vontade de jogar um ovo em cima, ou um tomate, mas tá tudo muito caro. E pensar que isso ainda leva uns 40 dias.

Volto à minha lista, que tem dois itens. Deixo pra lá, porque o tempo irreversivelmente foge, e eu quero mesmo é tirar uma soneca. Manhã de domingo foi feita pra isso, e pra uma mãe de bebê, soneca no meio do dia é luxo. Quando me desligo de tudo, relaxo e fecho os olhos, mais um filho-de-belzebu passa na rua. Adivinhem o resultado.

Vem ni mim, 2 de outubro.