Archive for Dezembro, 2012

Fim de tarde, liberdade e Abraçaço

Para ler ouvindo “Estou triste”, Caetano Veloso

Daqui da minha varanda dá pra ver muitos prédios. Com suas janelas abertas, luzes acesas, televisões ligadas, decorações e cortinas. Árvores de natal piscando em salas vazias. Dá pra ver as casas que assistem o mesmo canal de tv. Suas luzes ensaiadas, mudando de cor ao mesmo tempo tantos quartos. Queria ter um binóculo pra passear em silêncio pelas vidas dos outros. Saber como eles interagem em casa. Como os filhos guardam suas canetas de estudo nos armários e pegam roupas e vão tomar banho. Como as pessoas fazem jantar e sentam pra comer. Quanto tempo passam lendo na poltrona. E quando apagam as luzes e vão dormir. Desde pequena tenho curiosidade pelas casas dos outros. Esse é só um dos aspectos do meu lado observador. Acho que vem daí um desejinho profundo e guardado de ser arquiteta. Queria fazer as casas e povoá-las com vidas e famílias inventadas por mim.

Depois sentei no computador pra viver uma experiência praticamente transformadora. Hoje ouvi Abraçaço pela primeira vez. É o disco novo de Caetano Veloso. Ele tem 70 anos e nos deve explicações sobre ter uma cabeça como a dele, uma mente e uma inteligência, e um texto e uma música, e uma capacidade de encantar neste nível. Enquanto ouvia “Estou triste”, cliquei num link do amigo Vitor Andrade no Facebook. Um fotógrafo fez imagens da “realidade secreta de uma comunidade nômade com leis baseadas no amor”. E enquanto Caetano dizia “por que será que existe o que quer que seja? (…) Eu me sinto vazio, e ainda assim, farto. O lugar mais frio do Rio é o meu quarto” eu via os olhares dessas pessoas. Elas me intrigaram. São hippies, da forma deles. São livres. Livres, totalmente. Possuem poucas coisas, mas possuem a si mesmos. E olhei pras janelas dos prédios à minha frente, com árvores piscando pra ninguém, pros quadros e sofás e tvs ligadas. Iluminações cênicas. Quem estaria nessas casas? Eu sei que muitos de nós possuem muitas coisas. Mas muitos de nós não possuem a si mesmos. E sofrem de angústia todos os dias. Pensam demais, sentem medo.

Certamente os nômades também tem seus medos. O ser humano é angustiado. É a palavra dos nossos tempos. Imagino que os deuses olham pra nós lá de onde estão, e riem. Sorriem, quase com um pouco de pena. Acho que parecemos crianças de dois anos que se frustram por não conseguir montar um quebra cabeças de quatro peças. Devemos ser assim também. Mas acho que os deuses são complacentes.

“Eles vão aprender”.

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