Graças a Deus pelo morango – e pela farinha

Hoje eu agradeci a Deus porque eu tinha morango em casa. E imediatamente depois pedi desculpas a Ele porque eu tinha dito tal bobagem. Vou explicar a confissão pública.

Minha filha adora morango, que ela chama de “mangos”. Nem sempre eu acho, nem sempre dá tempo de procurar, nem sempre tem. Ela adora iogurte, que pra ela é “none”. Sempre compro, mas um dia a plaquinha acaba, e é justamente naquele dia que a gente esquece de passar no mercadinho na volta pra casa. Ela adora suco e água de coco. Tem, mas acaba. Sabem como é. 

Ocorre que hoje, antes de ir pra casa, eu lembrei de tudo isso e achei morangos maravilhosos, maracujá maduro, iogurte natural. Cheguei em casa, a casa estava arrumada e limpa, e minha família tranquila. Entre uma brincadeira e outra, ela disse “qué mangos”, como faz quase todo dia, e hoje tinha. Senti aquela paz que a gente sente quando está para fazer o filho feliz e pensei: “Deus, obrigada por poder dar morangos a minha filha”. Mas logo depois senti um aperto no coração. Sei que não dá pra carregar nos ombros as dores do mundo, mas minha cabeça, juíza dura de mim mesma, imaginou que havia alguém, em algum lugar, agradecendo a Deus por ter farinha pra dar ao filho. Sei lá. Parece muito piegas. Hipócrita. Demagógico. Não é. Me envergonhei por agradecer pelo morango. Fiquei constrangida diante do meu pensamento e de Deus.

Acho que depois compreendi que cada pessoa vive dentro de uma dimensão, e cada dimensão comporta dores e satisfações próprias, proporcionais. Tentei suavizar minha pena. 

Dei “mangos” a ela, que devorou feliz. E tranquilizei um pouco meu coração de mãe.

Alguém por aí deve estar agradecendo a Deus por poder colocar o filho na melhor escola de Londres, por comer caviar quando dá vontade, por poder presentear alguém que ama com uma casa. Tudo que não está na ‘minha dimensão’. Sei lá o que andam dizendo a Deus. 

No fim, refiz o agradecimento pelo meu morango. E pela farinha de alguém. Ele vai entender.

Uma carta para Mark

​Há alguns dias postei uma foto de minha filha no Instagram e escrevi algumas palavras pra ela. Eu faço muito isso. Nessa foto, uma amiga comentou que eu deveria imprimir todas as fotos que posto e o que escrevo, porque um dia essas plataformas virtuais poderiam não existir, e assim ela jamais saberia todas as coisas que escrevi sobre / para ela, em que fotos, vídeos, essas coisas. Desde então, essa possibilidade, ainda que remota, não me sai da cabeça. “Não, isso jamais aconteceria”, eu me digo, sempre com uma cara desconfiada de “mas e se?”

Então pensei em escrever uma carta aberta para o Instagram, o que me leva a escrever uma carta para Mark, o nerd que tomou um pé na bunda, criou o Facebook, ficou bilionário e resolveu sair por aí comprando todas as boas ideias que dão (muito) dinheiro.

Mark, precisamos que você assuma um compromisso. Acontece que você tem aí em seus servidores, em suas nuvens, esquemas, ou sei lá onde, todas as nossas memórias virtuais – porque nos desacostumamos a ter memórias físicas. Pouquíssimas pessoas imprimem fotos hoje em dia, e a partir de agora as novas gerações vão fazer isso cada vez menos, até que um dia crianças não vão saber que houve um tempo em que tínhamos 36 poses num filme, economizávamos cliques, e se alguém piscasse na hora H, “problema seu, não vou tirar outra”. 

Já virou vintage ter álbuns com fotos em envelopes de plástico, uma em cada cenário daquela viagem inesquecível, ou daquela turma de amigos. Depois que tivemos a chance de ver como a foto ficaria, tirar várias e apagar as ruins, acabamos tendo várias fotos com a mesma pose e não imprimimos nenhuma. Quem nunca abraçou amigos diante da câmara e disse “tira várias, pra garantir?” Pro Instagram vão as melhores, as escolhidas, devidamente “filtradas” e legendadas. É o nosso álbum. Então, Mark, tirar e ver fotos pra nós virou essa experiência diferente, não física, que nos permite ‘folhear’ álbuns de amigos distantes, comentar, trocar lembranças, fazer selfies, cometer exageros. Mas são nossas memórias. E o que sentíamos diante delas. O que eu disse quando postei a primeira foto do apartamento onde fui morar sozinha quando saí da casa dos meus pais? A imagem da primeira ultrassonografia? As fotos das viagens inesquecíveis, ou os vídeos corriqueiros e ainda assim encantadores de cada passo de minha filha? Como poderia perder todos os comentários que recebi e fiz em registros especiais? Não poderia. Mark, você tem um compromisso com a gente.

Acalme essa agonia gerada por minha amiga, que, coitada, tinha a melhor das intenções. É aquela história do príncipe e da raposa. O Instagram nos cativou e agora é eternamente responsável por nós.

Super heroína? Não, obrigada

Não que isso realmente interesse a quem quer que seja além de mim, e dos que tomam banho em minha casa, mas a resistência do chuveiro foi trocada. E como falei disso aqui há alguns dias, achei que seria justo fazer a atualização. Chego assim ao fim de uma crise, que me fazia respirar fundo a cada banho, triste que ficava ao ter que encarar a água gelada. “Justo nesses dias frios de Salvador”, “como se frio houvesse por aqui”, “era o meu frio, meu corpo, minhas regras”.

Mas numa dessas noites, exausta do dia cansativo no trabalho, e da tarde de brincadeiras e corre corre atrás de minha filha de menos de dois anos, encarei o chuveiro jorrando água gelada e disse: “Vá! Você não é ‘retada’? Poderosona? Super heroína?” E então parei e respondi que não. Não quero ser ‘retada’, poderosona, nem super heroína. Pra falar a verdade, às vezes eu gostaria mesmo é de um pouquinho de mamata, pra variar. Eu já tenho jornada tripla, trabalho fora, trabalho em casa e sou mãe de uma menininha super saudável (leia-se “terremoto”). Seria demais pedir um banho quentinho antes de dormir? Mas como não havia jeito, acabei dando meus pulos, literalmente, debaixo d’água.

Outro dia entrei num supermercado, enchi um carrinho, e fui embora de mãos vazias porque esqueci a carteira em casa. Controlei a irritação, fui em casa, peguei a carteira, fui a outro supermercado mais próximo, e enchi novo carrinho. Uma das tarefas mais chatas da vida de uma dona de casa foi feita duas vezes por mim numa tarde. No fim de um dia assim, gosto de me condecorar com uma medalha mental de super heroína. Uma espécie de compensação pelo tamanho da batalha diária. 

Batalhas temos todos. Algumas maiores, outras menores. Na verdade, na verdade, se a gente for enumerar, tomar um banho frio é a menor das nossas questões existenciais. Mas é que naquele dia essa foi pra mim, justamente, a gota d’água. Fria.

PS: lembrar da resistência

A campanha política começou anteontem e eu já a odeio com a força de Hércules. Não porque não gosto de política (ruim com ela, pior sem ela), não porque são mentiras muito pouco sinceras, não porque entram em cadeia de rádio e TV (viva as TVs por assinatura e Netflix). Mas porque os carros de som podem acordar minha filha na soneca do fim da manhã. E eu amo/preciso/aguardo ansiosamente a soneca dela do fim da manhã. É quando eu faço uma pausinha no meio do dia pra descansar do Discovery Kids, do cavalinho upa upa, do corre corre pra lá e pra cá, do descasca fruta, faz suco, bate palma, tudo que eu amo fazer só pra ver o sorrisinho dela, mas que durante 12 horas seguidas exaurem qualquer ser humano. E assim que a ponho no berço e saio do quarto, um pagode quebradeira passanarua e grita que ninguém “vai fazer o que ele fez”. Paro de respirar por alguns segundos: ela não acordou. Pulei essa fogueira.

Deito na cama e começo a pensar em todas as coisas chatas de adulto que não tenho tempo de pensar enquanto vejo Peppa e começo a listar na cabeça coisas que preciso fazer durante a semana. Ver o que preciso comprar no mercado para a semana. Não esquecer da resistência do chuveiro, que queimou e tenho tomado banho gelado – ge-la-do – toda noite antes de dormir. Mas não consigo lembrar qual o modelo porque a essa altura passa o carro de som da mais nova Santa Francisca de Assis, defensora de animais. Volumes altíssimos. Músicas medonhas. Números, números repetidos e gritos. O que eles pensam? “Quanto mais a gente escandalizar a vizinhança mais pareceremos confiáveis”? Malditos sejam todos. Já passaram uns cinco. Paro de respirar toda vez que um treme minha janela. Vontade de jogar um ovo em cima, ou um tomate, mas tá tudo muito caro. E pensar que isso ainda leva uns 40 dias.

Volto à minha lista, que tem dois itens. Deixo pra lá, porque o tempo irreversivelmente foge, e eu quero mesmo é tirar uma soneca. Manhã de domingo foi feita pra isso, e pra uma mãe de bebê, soneca no meio do dia é luxo. Quando me desligo de tudo, relaxo e fecho os olhos, mais um filho-de-belzebu passa na rua. Adivinhem o resultado.

Vem ni mim, 2 de outubro.

Precisamos voltar mais vezes

(Para ler ouvindo Attraversiamo – Dario Marianelli)

Hoje eu voltei àquela casa à qual minha alma pertencia. Eu queria saber se eu ainda estava em casa. Queria ver aquela casa, talvez sentir o que senti naquele dia do espelho. Há tanto tempo não voltava lá… já não era mais a mesma pessoa. Ou era? Precisava descobrir. Entrei com cuidado, não era minha. Era um lugar onde eu morava. Continuava linda. Uma casa grande, no meio de uma floresta no outono. Havia folhas dentro, havia muito tempo que ninguém entrava. E lá estava o espelho. E ela dormia dentro dele, a menina. Deitada no chão. Sentei diante dela, que acordou suavemente. Nos olhamos, nós duas – e só nós duas – sabíamos de tudo. Tanta coisa tinha acontecido, ela acompanhou de lá, de longe. Eu tinha ido lá pra convidá-la a voltar, a sair do espelho. Precisava muito dela. Precisava ser um pouco do que eu era antes. Ela precisava continuar a viver, e viver outras histórias. Começou mais uma vez a chover, mas desta vez uma chuva mais forte. Escura. Fui à janela e ela já estava ao meu lado. Amamos a chuva. E o cheiro da chuva, aquele cheiro que pertencia àquele lugar maravilhoso. Foi diminuindo, diminuindo e virou uma chuvinha fina, que a luz do sol mais uma vez transformou em ouro. Nos fundimos novamente. Agora voltaríamos a ser uma só. E precisaríamos descobrir como seríamos a partir dali. Ela me deixaria mais suave. Eu a faria forte. Éramos eu e ela a mesma pessoa, mas eu precisava busca-la. Antes de descer olhei mais uma vez no espelho. Lá estava uma mulher que era também a mesma menina. E a casa já estava limpa.

“Precisamos voltar mais vezes”.

chuvadeouro

Para as novas mães, com carinho.

Há um ano eu vivia meu primeiro dia das mães, como mãe. Acordei, olhei pra minha filha no berço, e sorri. Ela tinha quatro meses de nascida e as dores da cesárea já tinham ficado pra trás. Eu me preparava pra voltar ao trabalho depois da licença maternidade e das férias, que juntei. Eu era, enfim, mãe.

Mas naquele meu primeiro dia das mães nem tudo era maravilhoso. Eu estava morta de cansada, ela acordava muitas vezes à noite. Quando alguém me dizia, ou eu lia, “meu bebê de quatro meses dorme a noite inteira sem acordar”, eu achava que só podia ser mentira. A noite inteira? Àquela altura eu comemorava um soninho esticado de quatro horas seguidas, que em determinado momento virou coisa muito rara. Ela acordava a cada hora, ou duas horas, ou hora e meia. Às vezes dormia mais, outras menos. Não havia um padrão, e eu tinha virado um zumbi. É claro que eu não estava sozinha, meu marido revezava comigo. Mas muitas vezes era o peito que ela queria. Acordava muitas vezes, mas normalmente voltava a dormir relativamente rápido, 20, 30 minutos, desde que mamasse no peito. No dia seguinte eu ficava no quarto pra dormir um pouco mais, enquanto ela ia pra sala com o papai.

Foram meses difíceis nesse aspecto, embora todo o resto compensasse com larga margem essa dificuldade. Sempre foi maravilhoso ser mãe, desde o primeiro momento. Apesar de difícil, maravilhoso.

Chorei muito nas primeiras semanas. Nos primeiros meses. Nunca de tristeza, mas muitas vezes de medo, de susto, de angústia, de solidão. Só quem se torna mãe sabe o quanto sua rotina muda enquanto a de seus amigos continua sendo caranguejinho – cervejinha – praia – cinema. Chega uma hora em que a gente só pensa em fazer a doida e sair sem rumo, rebelde, deitar na areia da praia, deitar no cinema, deitar, deitar, deitar. Porque eu sentia falta da diversão, da cervejinha, mas meu sonho mesmo era dormir. Dormir 18 horas seguidas, sem acordar nenhuma vez, feito pedra.

É claro que fiquei com a roupa que acordei muitas vezes até a noite, que tomei banho correndo enquanto ela chorava lá fora, mesmo no colo do pai, ou de outra pessoa (tem uma fase, loooonga, em que o apego é enorme), claro que tive que escolher muitas vezes entre comer ou dormir, e quase sempre eu dormi. Mas entre esses e outros apertos, ela me fazia rir muito, brincamos os três até faltar ar, os olhinhos dela me fizeram chorar de tanto amor com que me olhavam. E amamentar… a coisa mais mágica e maravilhosa que já fiz na vida. Ter um parto natural teria sido um sonho, que infelizmente não realizei. Mas amamentar foi a melhor coisa que já fiz. E fiz por mais de um ano, que sorte a minha. Indescritível. Sublime. É ainda mais do que isso.

Às mães que estão passando por todo esse turbilhão dos primeiros meses, eu tenho uma coisa carinhosa a dizer: vai passar. Vai passar! Vai melhorar! Esqueça o que te disserem se for diferente disso. Ignore o “é daí pra pior”. Vai passar sim, e fica cada vez melhor. Seu filho vai dormir. Você vai dormir. Ele vai ficando mais independente e vai brincar com você, e também sem você. Você vai poder cuidar de você, aos poucos, mas vai. Da casa, da sua vida profissional, do seu amor. É devagar, respeite o tempo do seu bebê. Mas um dia você vai perceber que noites sem dormir são comuns na vida de mãe e filho, e que um belo dia vocês estarão dormindo tranquilos.

Ouça música com ele, cante pra ele, dance. O melhor brinquedo de um bebê é pai e mãe. Folheie livros, ensine a fazer carinho.

O começo pode ser difícil, mas vai ficando mais fácil. Acredite nisso e continue firme! Ou desabe de vez em quando, se tiver alguém pra te segurar, melhor. Lembre que super heróis não existem, mas as mães chegam perto.

Parabéns a nós, que descobrimos a cada dia que somos muito maiores do que jamais poderíamos supor. Que damos conta de tantas coisas, que às vezes só a gente, intimamente, sabe, mais ninguém. Ninguém. Mas lá dentro, a gente se ama mais porque pode amar tanto. E não pede nada em troca. Eu não peço. Mas minha filha me dá muito mais do que eu poderia sonhar em querer.

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Deus me livre de ser Deus

Em um desses momentos em que a gente se pega pensando coisas aleatórias e aparentemente sem utilidade, eu descobri que estou aliviadíssima porque eu não sou Deus. Explico.

Somos ao todo sete bilhões de pessoas no mundo. Não sei se esses dados são dos organizadores ou da Polícia Militar, mas ainda que haja uma margem de erro, de dois bilhões para mais ou para menos. Alguém sabe o que significa um bilhão? É muito mais do que poderíamos imaginar, então de um bilhão pra cima é tudo basicamente a mesma coisa, muita gente. Então: você que me lê deve ter uma vida bastante complexa. Relações pessoais, profissionais, afetivas, problemas financeiros, anseios, desejos reprimidos, horários a cumprir. Você não é você sozinho. É você e todas as pessoas e coisas que construíram o que você é hoje. Acompanhando até aqui? Agora imagine toda essa complexidade da sua vida, que certamente daria um filme, multiplicada por sete bilhões! É muita coisa pra Deus dar conta.

Eu rezo toda noite. Antes de minha filha nascer eu negligenciava às vezes, mas depois que ela nasceu, bato ponto numa prosa com Deus toda noite, todinha. Eu tenho muitos agradecimentos a fazer, mas também tenho cá minhas demandas. Fico imaginando cada pessoa que vejo na rua. Não são bonecos, figurantes sem alma que estão lá pra compor o cenário. Eles também tem vidas complexas, amigos, questões profissionais, filosóficas, dilemas.

Deus deve receber muitos, muitos pedidos. Mas será que a gente, que ocupa tanto Deus, dá uma ajudinha a Ele? Isso veio no trilho dessa minha reflexão filosófico-religiosa de dia desses. Ele deve precisar de ajuda. Tudo bem que Ele é o Todo Poderoso, uma folha não cai da árvore sem o consentimento Dele, dizem, mas nem Deus pode ser tão autossuficiente que não aceite uma mãozinha. O problema é que, proporcionalmente, poucas pessoas devem fazer isso. “Deus, deixa eu cuidar disso aqui pro Senhor”, e alimentar alguém que não tem o que comer, alfabetizar pessoas que não tem acesso a educação, compartilhar tempo e conhecimento, resolver uma questão burocrática pra uma pessoa idosa, salvar alguém do afogamento, sei lá. Fazer sem compromisso, só pra dar uma desafogada nas tarefas de Deus. E deixaríamos pra Ele apenas as coisas mais difíceis, como consolar quem perdeu alguém que amasse muito, transformar homens desonestos em honestos, amansar o povo do Estado Islâmico, acabar a corrupção, instaurar a paz mundial, essas coisas um pouco mais complicadas.

Mas nem o que a gente poderia fazer, a gente faz. Digo a maioria de nós. Eu não faço. Eu sempre fico pensando que preciso devolver algo ao mundo por merecer tanta coisa boa em minha vida, como minha filha, mas acabo me limitando a fazer muito pouco. “Vou fazer, vou fazer”.

É duro ser tão abnegado como Ele. Atender nossas demandas inquietas e entender que não vamos retribuir porque somos assim mesmo, individuais e individualistas.

Deus que me livre de ser Deus.

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