Sobre a covardia que nos salva da loucura

Eu sou covarde. Diante de notícias muito ruins, eu só penso em fugir. Eu não quero mais falar nem ouvir falar. Não quero não. Não quero terceirização, previdência, CLT, temer, maia, financiador de campanha, bandido, ladrão, não quero, chega disso! Ao inferno com suas intenções! Há a hora de gritar e lutar, agora eu quero fingir que vocês não existem, malditos.

Fiquei com vontade, isso sim, de falar da chuva. Tem chovido tão bonito na minha janela. Pra mim, né, que estou de férias, e meu deslocamento mais distante tem sido levar e buscar minha filha na escola e passar no mercado, no caminho, pra comprar uma fruta, um arroz, um açúcar. Na maior parte do tempo estou escutando o estalo da chuva na esquadria da janela. O ruidinho surdo que faz quando o aguaceiro cai na grama da pracinha. Delicioso. Me lembra muito a minha infância. Acordar com a chuva na janela, e especialmente o barulhinho de um cano que tinha no alto do meu prédio, que escorria a água que acumulava na laje. Eu não sabia na época, mas eu adorava aquele barulho, era sinal de que chovia muito, do jeito que eu gosto. Aqui não tem um desse. Sinto falta.

Tem ficado escuro mais cedo. Março, te amo.

Vou ficar aqui, escondida das notícias por hoje. Escondida na terra encharcada, no cheiro hipnotizante da chuva, no barulho dela. No verde que ela trouxe pra praça. Na erva daninha que cresce entre as pedras portuguesas da praça. Concentrada em fechar a janela antes de deitar. Vai chover, que bom.

Isso nunca muda, vai chover sempre. Vai ter barulhinho, vai ter lembrança, vai ter essa paz que a chuva me dá. Deixa o noticiário pra amanhã. Vai chover.

200 milhões de cavalos

O brasileiro precisa amadurecer. Passar dessa adolescência política que divide o país em coxinhas e mortadelas, pelo amor de Deus. Observem lá na frente. Está para ser aprovada a tal Reforma da Previdência, prevendo que cada um de nós tenha que trabalhar durante 49 anos – e contribuir com a Previdência por todo esse período. Não é simplesmente se aposentar só com 65 anos. É com 65 anos no mínimo. Isso se você tiver contribuído com a previdência por 49 anos. Tem que começar a trabalhar com 16, com carteira assinada, e continuar até 65. Sem ficar desempregado, sem deixar de contribuir nem um único mês. Se ficar desempregado, vai somando o tempo sem trabalho aos 65, e sua aposentadoria vai indo pra frente. 67, 70, 75. Aposentar não pra curtir um pouco a vida, não para viajar, fazer um curso. Aposentar pra pagar plano de saúde, absurdamente caro. Num país onde o desemprego é uma realidade. Onde uma pessoa acima de 45 anos é considerada velha pra assumir qualquer vaga de emprego. Onde em muitos lugares a expectativa de vida é menor do que 65 anos. E tem mais. Um país onde a mulher ainda assume quase que totalmente os cuidados com a casa, por ser um país machista e mal criado, quer igualar a idade mínima e tempo de contribuição para homens e mulheres.

Enquanto isso, quem vai aprovar a reforma não está incluído nas mesmas regras que nós. 

Enquanto isso, Temer está aposentado desde os 55 anos. Recebendo 30 mil por mês. 

Aliás, enquanto isso, a gente come carne estragada.

Enquanto isso, pra provar que a carne brasileira é boa, Temer leva embaixadores a churrascaria que só vende carne importada. A um custo de quase 14 mil reais num jantar, pago pela Presidência. Rodízios. Bebida. Sobremesa. Cafezinho.

Enquanto isso, grandes importadores de carne brasileira suspendem a compra da nossa carne. 

Enquanto isso, a economia brasileira vai cada vez mais de mal a pior. 

Enquanto isso a economia cai, o desemprego aumenta.

Enquanto há mais desemprego, o brasileiro vai precisar contribuir com a previdência por 49 anos. Não irá se aposentar.

Parem, apenas parem. Estamos discutindo o sexo de um anjo enquanto um bando de mal intencionados acaba com o nosso país. Eu não admito. Eu não aceito.

Somos mais de 200 milhões. É como a história do cavalo, sendo chicoteado por um menino. Nenhum dos dois percebe a diferença de força que os separa. Se o menino soubesse, não chicoteava o cavalo. Se o cavalo soubesse, não seria jamais chicoteado pelo menino.

Estamos sendo o cavalo. 200 milhões de cavalos.

Pensando em você

É difícil escrever um livro. Agora que eu resolvi sentar pra escrever um, percebi que não vai ser tão simples quanto pensei. Que droga. Achei que em um mês de férias ia conseguir avançar um bocado. Aqui estou eu, sentada na sala de minha casa, numa tarde até fresquinha. Tem feito muito calor, mas hoje está agradável. Eu tenho uma grande responsabilidade que é contar pra minha filha todas as coisas que ela tem me ensinado. Todas as mudanças que o mundo sofreu desde que ela chegou, principalmente no meu mundo. Meu Deus, mudou tudo. Eu vou ter muito trabalho. Mas eu não consegui escrever nada digno dessa tarefa ainda, então vai ficar pra depois.

Mas tem tantas coisas em meu coração que eu gostaria de dizer… Quantas vezes eu chorei. Todas as vezes que eu chorei de medo! Medo do absurdo que é virar mãe. Eu não estava preparada! Acho que ninguém está. Não está. Ninguém sabe como vai ser, até que é. Quando ela chegou, eu achei estranho. Era tão maravilhoso o futuro estando diante dela. Ela me fez sentir protegida. Nada poderia me acontecer de ruim, eu tinha uma menininha pra cuidar. Todas as promessas estavam sendo cumpridas, eu tinha uma menininha. Mas eu enlouqueci no dia seguinte. Eu acordei e não entendi absolutamente nada. Durou algumas horas, mas eu voltei. É tudo verdade. Depois de encarar esse portal pra loucura, eu voltei. E nasci também. Eu nasci de novo naquele dia. E como todo recém nascido, eu não sabia de absolutamente nada ainda. Eu aprendi muita coisa em muito pouco tempo, eu chorei, eu tive medo, eu me encantei pelo mundo novamente. Não é exagero. É a transformação mais devastadora e ao mesmo tempo sutil que pode haver. Você só percebe com o tempo que aquilo que você foi você não é mais. Deus, como é complicado de entender. Eu não poderia jamais conseguir explicar.

Mas é tão maravilhoso. Minha filha me mostrou o mundo de novo. Não era como eu pensava. Eu não enxergava as coisas direito. Eu não entendia muito bem sobre os sentimentos. Agora eles vem crus, com uma força quase rude. Mesmo os bons, chegam tão intensos que a gente precisa respirar fundo pra não engasgar. Ela coloca as coisas em seus lugares em minha cabeça. Ela me dá a mãozinha e olha pra mim com uma confiança tão grande. Ela sabe que eu estou ali por ela. Ela não sabe, mas quando ela deita em meu colo aquele é o melhor colo que eu posso ter. E eu estou em casa, e eu estou de folga, quando estou no colo dela. Vontade de viver pra sempre, para estar com ela.

Te contar tudo isso vai ser difícil, meu bem. Mas mamãe já está se acostumando com as tarefas difíceis. Se não der, eu espero você crescer, e a gente vai conversando. Obrigada por me trazer para o mundo de novo.

Açúcar, lactose, glúten e outros elementos procurados pela polícia

Um fenômeno estranho tem acontecido ultimamente: eu ando com vergonha de gostar de comer. Pra ser honesta, com vergonha de comer sem vergonha. Com glúten, lactose, açúcar, farinha branca, sal, manteiga e todas essas maravilhas que existem no meu mundo, e que foram banidas das mesas de quase todo mundo que eu conheço. Essas maravilhas que fazem pães, doces, tortas, guloseimas de todo tipo e que me fazem feliz e satisfeita.

Eu tenho a impressão que antigamente as pessoas eram mais felizes e menos “policiais de si mesmas”. Depois que o glúten deixou de ser pesadelo exclusivo dos celíacos (pessoas que não digerem glúten), e que a lactose também virou assunto tabu nas mesas, eu fiquei meio sem assunto. Virou tudo “lacfree” (porque não basta não ter lactose, tem que ser em inglês), glútenfree, frutose também virou ‘persona non grata’, carne não convém, e eu não sei de que esse povo vive. É só frango, ovo, batata doce. Tenho uma amiga que eu adoro que come cinco ovos todo dia de manhã (“mas só uma gema”), e lancha frango puro desfiado à tarde. Academia sexta, sábado E domingo. Tem um corpo maravilhoso, barriga zero, magra e linda. Mas não é caro esse preço?

Sei lá, eu decidi que vou ser assim como eu sou. Tenho a sorte de ser magra mesmo comendo consideravelmente. Mas tem um monte de coisa sobrando e faltando aqui e ali em mim. Mas e daí? Quem foi que disse que todo mundo tem que ser desse ou daquele jeito?  Por que eu preciso me sacrificar pra me aceitar, pra gostar de mim? Tem tantas coisas em mim que eu adoro. E tantas que eu detesto, e que preciso mudar muito mais urgentemente do que minha barriga. Por que as pessoas deixam de ser barrigudas mas não deixam de ser, sei lá, mentirosas primeiro? Por que deixam de ser flácidas e não deixam de ser chatas? Minha amiga malhadora que faz muita dieta não é mentirosa nem flácida, pelo contrário. Eu diria que ela é um abuso, porque é linda, engraçada, inteligente e adorável. Mas ela podia ser mais feliz e não morrer de inveja dos meus pães matinais. 

É claro que uma vida saudável pede alguns sacrifícios. Todo exagero é ruim. Mas a vida já tem suas amarguras. É preciso um chocolate de vez em quando. Um brownie. Um pão quentinho. Um queijo derretido. Uma pizza marguerita. Uma panqueca, um sorvete, uma paçoca. De vez em quando. Não precisa ser todo dia. Todo dia só eu, que já estou a caminho da marginalidade e um caso perdido. Mas realmente defendo que as pessoas sejam juízas menos severas de seus corpos. Felicidade também é saúde.

Duas palavrinhas sobre o fracasso dos outros

Você, alguém sem filhos, que sabe tudo sobre ser uma boa mãe, a mãe que educa e impõe limites carinhosamente, tá lá sentada numa praça de shopping. Aí chega uma mãe com uma criança birrenta no colo. A mãe, visivelmente sem paciência e mal humorada, coloca a chupeta no boca da criança. Ela silencia e a mãe respira fundo. “Grande mãe. É por isso que a criança é birrenta. Basta ensaiar um choro que a mãe dá chupeta. Tsc.”

Cena mais do que comum, julgamento imediato. Mas deixa eu contar pra vocês essa mesma cena de outro ponto de vista: o da mãe.

Ela não tem babá. Divide os cuidados da filha com o pai, que trabalha pela manhã enquanto ela trabalha à tarde. Naquele dia ela precisou sair pela manhã pra resolver um problema burocrático urgente, e precisou levar a filha, bem na hora em que ela tiraria sua soneca, tranquila, em seu quarto com ar condicionado. Mas não naquele dia de calor. Naquele dia sua mãe chegou em seu quarto, a chamou pra passear, toda sorridente e carinhosa. Sabia que a tarefa seria difícil, e quis que sua filha não se chateasse tanto por ter que trocar a soneca pela rua calorenta e cheia de gente desconhecida.

A mãe a trocou, ela não gostou. A mãe escolheu dois brinquedos que a filha gostava e colocou na mochila, junto com suco, e o biscoito preferido. A filha só chorava. A mãe compreendeu. Era chato mesmo. Teve que pegar no colo, a burocracia na rua precisava ser resolvida. Colocou a filha no carro e lá foram elas. 

A mãe ouviu no caminho, pela milionésima vez, as músicas que sua filha gostava. Ouviu e cantou, e bateu palmas. O trânsito era ruim. O horário estava apertado, ainda ia trabalhar naquele dia. Sua filha, quietinha, parecia se entregar ao sono. Bem quando elas chegaram ao shopping. A mãe tirou da cadeirinha com todo cuidado, talvez ela continuasse dormindo em seu colo. Não deu certo. Sua filha acordou, e compreensivelmente, chorou, chateada. A mãe tentou coloca-la no chão, mas a menina estava sonolenta e irritada. Pegou no colo, pegou a mochila e ainda uma pasta de documentos, equilibrou tudo em dois braços. Foi à agência bancária. Enfrentou alguma fila, mesmo de prioridade. O caixa a disse que faltava um documento. Não resolveria o problema naquele dia. Naquele dia difícil. Não.

A mãe, cansada, frustrada, pensou que poderia estar em casa, enquanto sua filha dormia tranquila em seu quarto, com ar condicionado, e teve uma vontade enorme de chorar. Não era a primeira vez que se via sozinha numa situação complicada, tendo que resolver muitos problemas com sua filha no colo. Estava quase atrasada, mas morta de cansada. Achou um banco vazio no shopping e se sentou um pouco. Sua filha, também cansada, com sono e muito chateada, chorava. Sua mãe, como um último recurso, resolveu ignorar o “bubu é só pra mimir”, e deu a chupeta à filha, pra ter dois minutos de silêncio.

Havia uma mulher ao lado dela. Sem filhos, sabia tudo sobre ser uma boa mãe. “Grande mãe”, ela pensou.

Graças a Deus pelo morango – e pela farinha

Hoje eu agradeci a Deus porque eu tinha morango em casa. E imediatamente depois pedi desculpas a Ele porque eu tinha dito tal bobagem. Vou explicar a confissão pública.

Minha filha adora morango, que ela chama de “mangos”. Nem sempre eu acho, nem sempre dá tempo de procurar, nem sempre tem. Ela adora iogurte, que pra ela é “none”. Sempre compro, mas um dia a plaquinha acaba, e é justamente naquele dia que a gente esquece de passar no mercadinho na volta pra casa. Ela adora suco e água de coco. Tem, mas acaba. Sabem como é. 

Ocorre que hoje, antes de ir pra casa, eu lembrei de tudo isso e achei morangos maravilhosos, maracujá maduro, iogurte natural. Cheguei em casa, a casa estava arrumada e limpa, e minha família tranquila. Entre uma brincadeira e outra, ela disse “qué mangos”, como faz quase todo dia, e hoje tinha. Senti aquela paz que a gente sente quando está para fazer o filho feliz e pensei: “Deus, obrigada por poder dar morangos a minha filha”. Mas logo depois senti um aperto no coração. Sei que não dá pra carregar nos ombros as dores do mundo, mas minha cabeça, juíza dura de mim mesma, imaginou que havia alguém, em algum lugar, agradecendo a Deus por ter farinha pra dar ao filho. Sei lá. Parece muito piegas. Hipócrita. Demagógico. Não é. Me envergonhei por agradecer pelo morango. Fiquei constrangida diante do meu pensamento e de Deus.

Acho que depois compreendi que cada pessoa vive dentro de uma dimensão, e cada dimensão comporta dores e satisfações próprias, proporcionais. Tentei suavizar minha pena. 

Dei “mangos” a ela, que devorou feliz. E tranquilizei um pouco meu coração de mãe.

Alguém por aí deve estar agradecendo a Deus por poder colocar o filho na melhor escola de Londres, por comer caviar quando dá vontade, por poder presentear alguém que ama com uma casa. Tudo que não está na ‘minha dimensão’. Sei lá o que andam dizendo a Deus. 

No fim, refiz o agradecimento pelo meu morango. E pela farinha de alguém. Ele vai entender.

Uma carta para Mark

​Há alguns dias postei uma foto de minha filha no Instagram e escrevi algumas palavras pra ela. Eu faço muito isso. Nessa foto, uma amiga comentou que eu deveria imprimir todas as fotos que posto e o que escrevo, porque um dia essas plataformas virtuais poderiam não existir, e assim ela jamais saberia todas as coisas que escrevi sobre / para ela, em que fotos, vídeos, essas coisas. Desde então, essa possibilidade, ainda que remota, não me sai da cabeça. “Não, isso jamais aconteceria”, eu me digo, sempre com uma cara desconfiada de “mas e se?”

Então pensei em escrever uma carta aberta para o Instagram, o que me leva a escrever uma carta para Mark, o nerd que tomou um pé na bunda, criou o Facebook, ficou bilionário e resolveu sair por aí comprando todas as boas ideias que dão (muito) dinheiro.

Mark, precisamos que você assuma um compromisso. Acontece que você tem aí em seus servidores, em suas nuvens, esquemas, ou sei lá onde, todas as nossas memórias virtuais – porque nos desacostumamos a ter memórias físicas. Pouquíssimas pessoas imprimem fotos hoje em dia, e a partir de agora as novas gerações vão fazer isso cada vez menos, até que um dia crianças não vão saber que houve um tempo em que tínhamos 36 poses num filme, economizávamos cliques, e se alguém piscasse na hora H, “problema seu, não vou tirar outra”. 

Já virou vintage ter álbuns com fotos em envelopes de plástico, uma em cada cenário daquela viagem inesquecível, ou daquela turma de amigos. Depois que tivemos a chance de ver como a foto ficaria, tirar várias e apagar as ruins, acabamos tendo várias fotos com a mesma pose e não imprimimos nenhuma. Quem nunca abraçou amigos diante da câmara e disse “tira várias, pra garantir?” Pro Instagram vão as melhores, as escolhidas, devidamente “filtradas” e legendadas. É o nosso álbum. Então, Mark, tirar e ver fotos pra nós virou essa experiência diferente, não física, que nos permite ‘folhear’ álbuns de amigos distantes, comentar, trocar lembranças, fazer selfies, cometer exageros. Mas são nossas memórias. E o que sentíamos diante delas. O que eu disse quando postei a primeira foto do apartamento onde fui morar sozinha quando saí da casa dos meus pais? A imagem da primeira ultrassonografia? As fotos das viagens inesquecíveis, ou os vídeos corriqueiros e ainda assim encantadores de cada passo de minha filha? Como poderia perder todos os comentários que recebi e fiz em registros especiais? Não poderia. Mark, você tem um compromisso com a gente.

Acalme essa agonia gerada por minha amiga, que, coitada, tinha a melhor das intenções. É aquela história do príncipe e da raposa. O Instagram nos cativou e agora é eternamente responsável por nós.