Precisamos voltar mais vezes

(Para ler ouvindo Attraversiamo – Dario Marianelli)

Hoje eu voltei àquela casa à qual minha alma pertencia. Eu queria saber se eu ainda estava em casa. Queria ver aquela casa, talvez sentir o que senti naquele dia do espelho. Há tanto tempo não voltava lá… já não era mais a mesma pessoa. Ou era? Precisava descobrir. Entrei com cuidado, não era minha. Era um lugar onde eu morava. Continuava linda. Uma casa grande, no meio de uma floresta no outono. Havia folhas dentro, havia muito tempo que ninguém entrava. E lá estava o espelho. E ela dormia dentro dele, a menina. Deitada no chão. Sentei diante dela, que acordou suavemente. Nos olhamos, nós duas – e só nós duas – sabíamos de tudo. Tanta coisa tinha acontecido, ela acompanhou de lá, de longe. Eu tinha ido lá pra convidá-la a voltar, a sair do espelho. Precisava muito dela. Precisava ser um pouco do que eu era antes. Ela precisava continuar a viver, e viver outras histórias. Começou mais uma vez a chover, mas desta vez uma chuva mais forte. Escura. Fui à janela e ela já estava ao meu lado. Amamos a chuva. E o cheiro da chuva, aquele cheiro que pertencia àquele lugar maravilhoso. Foi diminuindo, diminuindo e virou uma chuvinha fina, que a luz do sol mais uma vez transformou em ouro. Nos fundimos novamente. Agora voltaríamos a ser uma só. E precisaríamos descobrir como seríamos a partir dali. Ela me deixaria mais suave. Eu a faria forte. Éramos eu e ela a mesma pessoa, mas eu precisava busca-la. Antes de descer olhei mais uma vez no espelho. Lá estava uma mulher que era também a mesma menina. E a casa já estava limpa.

“Precisamos voltar mais vezes”.

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Para as novas mães, com carinho.

Há um ano eu vivia meu primeiro dia das mães, como mãe. Acordei, olhei pra minha filha no berço, e sorri. Ela tinha quatro meses de nascida e as dores da cesárea já tinham ficado pra trás. Eu me preparava pra voltar ao trabalho depois da licença maternidade e das férias, que juntei. Eu era, enfim, mãe.

Mas naquele meu primeiro dia das mães nem tudo era maravilhoso. Eu estava morta de cansada, ela acordava muitas vezes à noite. Quando alguém me dizia, ou eu lia, “meu bebê de quatro meses dorme a noite inteira sem acordar”, eu achava que só podia ser mentira. A noite inteira? Àquela altura eu comemorava um soninho esticado de quatro horas seguidas, que em determinado momento virou coisa muito rara. Ela acordava a cada hora, ou duas horas, ou hora e meia. Às vezes dormia mais, outras menos. Não havia um padrão, e eu tinha virado um zumbi. É claro que eu não estava sozinha, meu marido revezava comigo. Mas muitas vezes era o peito que ela queria. Acordava muitas vezes, mas normalmente voltava a dormir relativamente rápido, 20, 30 minutos, desde que mamasse no peito. No dia seguinte eu ficava no quarto pra dormir um pouco mais, enquanto ela ia pra sala com o papai.

Foram meses difíceis nesse aspecto, embora todo o resto compensasse com larga margem essa dificuldade. Sempre foi maravilhoso ser mãe, desde o primeiro momento. Apesar de difícil, maravilhoso.

Chorei muito nas primeiras semanas. Nos primeiros meses. Nunca de tristeza, mas muitas vezes de medo, de susto, de angústia, de solidão. Só quem se torna mãe sabe o quanto sua rotina muda enquanto a de seus amigos continua sendo caranguejinho – cervejinha – praia – cinema. Chega uma hora em que a gente só pensa em fazer a doida e sair sem rumo, rebelde, deitar na areia da praia, deitar no cinema, deitar, deitar, deitar. Porque eu sentia falta da diversão, da cervejinha, mas meu sonho mesmo era dormir. Dormir 18 horas seguidas, sem acordar nenhuma vez, feito pedra.

É claro que fiquei com a roupa que acordei muitas vezes até a noite, que tomei banho correndo enquanto ela chorava lá fora, mesmo no colo do pai, ou de outra pessoa (tem uma fase, loooonga, em que o apego é enorme), claro que tive que escolher muitas vezes entre comer ou dormir, e quase sempre eu dormi. Mas entre esses e outros apertos, ela me fazia rir muito, brincamos os três até faltar ar, os olhinhos dela me fizeram chorar de tanto amor com que me olhavam. E amamentar… a coisa mais mágica e maravilhosa que já fiz na vida. Ter um parto natural teria sido um sonho, que infelizmente não realizei. Mas amamentar foi a melhor coisa que já fiz. E fiz por mais de um ano, que sorte a minha. Indescritível. Sublime. É ainda mais do que isso.

Às mães que estão passando por todo esse turbilhão dos primeiros meses, eu tenho uma coisa carinhosa a dizer: vai passar. Vai passar! Vai melhorar! Esqueça o que te disserem se for diferente disso. Ignore o “é daí pra pior”. Vai passar sim, e fica cada vez melhor. Seu filho vai dormir. Você vai dormir. Ele vai ficando mais independente e vai brincar com você, e também sem você. Você vai poder cuidar de você, aos poucos, mas vai. Da casa, da sua vida profissional, do seu amor. É devagar, respeite o tempo do seu bebê. Mas um dia você vai perceber que noites sem dormir são comuns na vida de mãe e filho, e que um belo dia vocês estarão dormindo tranquilos.

Ouça música com ele, cante pra ele, dance. O melhor brinquedo de um bebê é pai e mãe. Folheie livros, ensine a fazer carinho.

O começo pode ser difícil, mas vai ficando mais fácil. Acredite nisso e continue firme! Ou desabe de vez em quando, se tiver alguém pra te segurar, melhor. Lembre que super heróis não existem, mas as mães chegam perto.

Parabéns a nós, que descobrimos a cada dia que somos muito maiores do que jamais poderíamos supor. Que damos conta de tantas coisas, que às vezes só a gente, intimamente, sabe, mais ninguém. Ninguém. Mas lá dentro, a gente se ama mais porque pode amar tanto. E não pede nada em troca. Eu não peço. Mas minha filha me dá muito mais do que eu poderia sonhar em querer.

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Deus me livre de ser Deus

Em um desses momentos em que a gente se pega pensando coisas aleatórias e aparentemente sem utilidade, eu descobri que estou aliviadíssima porque eu não sou Deus. Explico.

Somos ao todo sete bilhões de pessoas no mundo. Não sei se esses dados são dos organizadores ou da Polícia Militar, mas ainda que haja uma margem de erro, de dois bilhões para mais ou para menos. Alguém sabe o que significa um bilhão? É muito mais do que poderíamos imaginar, então de um bilhão pra cima é tudo basicamente a mesma coisa, muita gente. Então: você que me lê deve ter uma vida bastante complexa. Relações pessoais, profissionais, afetivas, problemas financeiros, anseios, desejos reprimidos, horários a cumprir. Você não é você sozinho. É você e todas as pessoas e coisas que construíram o que você é hoje. Acompanhando até aqui? Agora imagine toda essa complexidade da sua vida, que certamente daria um filme, multiplicada por sete bilhões! É muita coisa pra Deus dar conta.

Eu rezo toda noite. Antes de minha filha nascer eu negligenciava às vezes, mas depois que ela nasceu, bato ponto numa prosa com Deus toda noite, todinha. Eu tenho muitos agradecimentos a fazer, mas também tenho cá minhas demandas. Fico imaginando cada pessoa que vejo na rua. Não são bonecos, figurantes sem alma que estão lá pra compor o cenário. Eles também tem vidas complexas, amigos, questões profissionais, filosóficas, dilemas.

Deus deve receber muitos, muitos pedidos. Mas será que a gente, que ocupa tanto Deus, dá uma ajudinha a Ele? Isso veio no trilho dessa minha reflexão filosófico-religiosa de dia desses. Ele deve precisar de ajuda. Tudo bem que Ele é o Todo Poderoso, uma folha não cai da árvore sem o consentimento Dele, dizem, mas nem Deus pode ser tão autossuficiente que não aceite uma mãozinha. O problema é que, proporcionalmente, poucas pessoas devem fazer isso. “Deus, deixa eu cuidar disso aqui pro Senhor”, e alimentar alguém que não tem o que comer, alfabetizar pessoas que não tem acesso a educação, compartilhar tempo e conhecimento, resolver uma questão burocrática pra uma pessoa idosa, salvar alguém do afogamento, sei lá. Fazer sem compromisso, só pra dar uma desafogada nas tarefas de Deus. E deixaríamos pra Ele apenas as coisas mais difíceis, como consolar quem perdeu alguém que amasse muito, transformar homens desonestos em honestos, amansar o povo do Estado Islâmico, acabar a corrupção, instaurar a paz mundial, essas coisas um pouco mais complicadas.

Mas nem o que a gente poderia fazer, a gente faz. Digo a maioria de nós. Eu não faço. Eu sempre fico pensando que preciso devolver algo ao mundo por merecer tanta coisa boa em minha vida, como minha filha, mas acabo me limitando a fazer muito pouco. “Vou fazer, vou fazer”.

É duro ser tão abnegado como Ele. Atender nossas demandas inquietas e entender que não vamos retribuir porque somos assim mesmo, individuais e individualistas.

Deus que me livre de ser Deus.

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Somos todos santos ocos

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Nelson Rodrigues dizia: “se cada um soubesse o que o outro faz entre quatro paredes, ninguem se cumprimentaria”. Se quem diz é Nelson Rodrigues, quem seria eu pra discordar. E eu concordo absolutamente. E vou além, na mais absoluta ousadia de ir além de Rodrigues: se cada um soubesse o que o outro pensa, não haveria nem mais um aperto de mãos. Se ele fosse vivo hoje, certamente seria um marginalizado da sociedade. A nossa sociedade atual não teria a menor capacidade de conviver com Nelson Rodrigues, com toda sua verdade escancarada, sem o menor pudor de constranger quem quer que seja. Hoje ninguém pode ouvir um palavrão sequer. Santos, que somos. Todos.

Eu não vou entrar no mérito político da questão (nem tratados e monografias cautelosíssimos tem dado conta de segurar a raiva que paira no ar nesses tempos estranhos), mas vou me ater a algo que venho observando ultimamente. Ao serem divulgadas conversas telefônicas de Lula, descobrimos que ele fala “grelo duro”. E que ele sugeriu que sua assessora consideraria um “presente de Deus” se cinco policiais federais entrassem em sua casa da manhã cedo. O Brasil, beato que só ele, entrou em choque.

Antes de mais nada, vamos lembrar que essas falas foram ditas em conversas telefônicas com quem ele tinha um relacionamento de intimidade. Mas como assim, ele fala dessa forma de nós, “mulheres empoderadas”? Mal sabendo elas que a frase “cadê as mulheres de grelo duro do nosso que partido?” se refere exatamente – do meu ponto de vista – a mulheres corajosas, que não abaixam a cabeça. É assim que eu entendo.

Depois ele diz algo como “Fulana de Tal viu cinco homens entrando em sua casa às 6 horas da manhã e pensou que fosse um presente de Deus, mas eram policiais federais”. Aí teve gente que interpretou como se ele estivesse sugerindo que ser estuprada coletivamente fosse um sonho de toda mulher. Só posso concluir que tem muito pouco espaço pra piada nesse mundo. Que todo mundo é muito mal humorado – ou muito hipócrita. Pode xingar a mãe no trânsito, mas não pode dizer grelo duro no telefone com um amigo. Pode chamar de viado, mas não pode fazer piada entre cinco homens e uma mulher solteira – no telefone com um amigo. Pode mandar tomar naquele lugar, mas não pode dizer palavrão no telefone se sua conversa for grampeada. Pode desejar a morte de quem vota em A, B ou C em redes sociais, mas dizer grelo duro, isso aí já é demais.

Ora, é muito fingimento. Hipocrisia pouca é bobagem. Ou então tem muita gente no Brasil com nível de santidade muito maior até do que o Papa Francisco, que, aliás, eu poderia jurar que daria uma risadinha dessa história toda.

Um café meio amargo

Esse será um texto sobre coragem. Especialmente sobre a minha em escrevê-lo. Passei muito tempo pensando em dizer essas coisas, mas só agora veio a determinação. Essas coisas a gente não pode ignorar. Vamos lá.

Por motivos óbvios, não dá pra falar sobre todas as mudanças que acontecem na vida de uma mulher que engravida. Nem vocês dispõem do tempo suficiente pra ler, nem eu pra escrever. Mas hoje eu preciso falar de mudanças que não aconteceram no meu corpo, hormônios, diâmetro da cintura, humor. O assunto hoje são os meus amigos. E este é assunto delicado, e eu preciso pedir licença àqueles que eu não conheço, pra tratar de um assunto pessoal, e que sei que não gera interesse em todos. Desculpem.

Amigos, onde vocês andam se reunindo ultimamente? Olhem que loucura, eu engravidei! Lembram de todas as vezes que sonhávamos em quando tivéssemos filhos? Quem seria o padrinho do filho de quem, quem ensinaria o que a quem? Eu engravidei. E passei os nove meses mais loucos e mágicos da minha vida sem muitos de vocês. Quem diria, eu consegui. Claro que eu não consegui sozinha. Havia muita gente ao meu lado, o que seria de mim sem todos eles (eles sabem quem são!). Mas vocês não estavam. Não me viram enjoar com cheiro de hidratante, nem com o balanço do carro uma da tarde. Não ouviram meu mau humor quando minhas costelas pareciam ter quebrado todas no sexto mês, uma a uma, e eu não conseguia entrar no carro, ficar sentada, deitada ou em pé e não dormi duas noites seguidas de tanto chorar de dor. Não furaram filas comigo – descobri que as pessoas são gentis com grávidas (e porque temos prioridades mil durante a gravidez). Não souberam como eu superei toda a minha vida de medo do parto (e se eu desmaiar?) e fui a mulher mais corajosa do mundo enquanto passavam uma faca em sete camadas da minha pele. E meu bebê saiu de lá de dentro. Meu estômago queimava horrores. Lembro de cada segundo…

Vejam, isto não é uma briga, embora pareça. Eu apenas estava reorganizando umas coisas na minha cabeça que anda carente de organização (falta tempo) e decidi que precisava falar sobre isso, pra guardar o que precisa ser guardado e abrir espaço.

Quando minha filha nasceu, eu recebi algumas visitas. Eu me preparei pra muitas visitas sem noção, que viriam em horas erradas, que ficariam mais tempo do que o desejado. Não lembro de ter tido nenhuma dessas, ainda bem. Aliás, “esperava mais de você, Batman”. Aproveito pra deixar uma dica: quando forem visitar bebê e pais recém-nascidos, lavem os pratos deles. Se a pia estiver limpa, ofereça ajuda com a casa. Mas chegue de mangas arregaçadas. Eles vão precisar mais disso do que de bibelôs.

Eu nunca fui a amiga mais presente. Aquela que liga toda semana pra bater papo, rir das mesmas piadas. Confesso até que conversar ao telefone é algo que eu evito. Não gosto. Também não sou a que mais aparece nas festas. Mas tento estar à disposição dos amigos quando precisam. Dou minhas mancadas de vez em quando, quem não. Mas eu engravidei. Eu pari. Vocês se chocariam se soubessem como é minha rotina. Se soubessem as coisas que aprendi a fazer. Como eu chorei nos primeiros meses de minha filha. Rios.

Hoje eu peguei uma chave de fenda e abaixei o estrado do berço dela. Sozinha. Não é muito, mas pra mim foi a liberação de um alvará. “Eu posso fazer tudo”. E eu continuo fazendo coisas que só Deus sabe, porque só pode ser intervenção Dele o tanto de coisa que uma mãe consegue fazer. Toda a preguiça que sempre tomou conta de meu corpo e pensamento precisou arrumar outro endereço, porque (hoje eu te entendo, mãe) eu simplesmente aproveito o tempo de uma forma quase ninja.

Enquanto isso, eu acompanho de longe as vidas de vocês. De longe mesmo, parecem estar em outro planeta. São tão distantes as nossas realidades… Poderiam ser mais próximas, ainda que bem diferentes. Eu sinto falta. Senti mais, acho que me adaptei, como acontece com tudo.

No fim das contas, acho que romanceamos demais a vida. E quando ela, a vida, acontece, receba. O que parece um texto amargurado, não é. Na verdade estou sentindo uma coisa boa, um alívio. Não é raiva, muito menos rancor – Deus me livre, nunca sofri desse mal. É alívio. Hoje eu vivo um milagre a cada dia (tinha que ter pieguice nessa história). Minha filha me expandiu de uma forma absurda. Eu não sabia de nada. Hoje eu sou maior do que jamais imaginei, e tenho a impressão de que sou mãe de todo mundo.

Essa é uma conversa longa… Mas parece que esse café ficou pra depois. Quem sabe um dia. Vamos marcar.

Sobre ler e pertencer a grupos

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Na Rádio Metrópole, onde trabalho há dez anos (Deus, o tempo voa) eu faço semanalmente um quadro sobre literatura chamado Entre Páginas. Basicamente o que eu faço é indicar livros. Lançamentos, clássicos, infantis, best sellers, não importa. Se houver algo interessante sobre um livro, ele pode aparecer no Entre Páginas. E eu tenho observado um fenômeno interessante nas minhas últimas pesquisas. Me parece que os jovens têm lido mais. E eu digo isso porque existe um número enorme de blogs e principalmente vlogs (não sabe o que é? Google!) onde adolescentes fazem resenhas de livros. E isso não é só aqui no Brasil. Com alguma desenvoltura – ou pouca, ou nenhuma – eles resolveram simplesmente falar de literatura. À sua maneira, meninas e meninos atualizam suas páginas com livros que vão do infanto-juvenil aos clássicos adultos. O que eles falam? Sabem fazer crítica? Suas resenhas são interessantes / inteligentes? Importa muito pouco pro que eu quero dizer. Eles estão lendo. E isso, em si, já é uma boa notícia.

Faço apenas uma observação: todos me parecem iguais, e isso é outro fenômeno. Se vestem da mesma forma, tem os mesmos trejeitos, seguem um modelo muito rígido de comportamento que dá pouco espaço pra espontaneidade, embora seja justamente a aparência “espontânea” que pareça tão obrigatória. Mas assim são os adolescentes. Sempre querem parecer tão diferentes, descolados, genuínos, que acabam ficando todos iguais. No final acho que isso tem até sua graça. E fico feliz de ver que ler – que bom – também está na moda.

Para o alto e avante

“Quem sempre quer vitória perde a glória de chorar”.

Então o Brasil não foi hexacampeão, e agora nosso futebol não vale mais de nada. Seleções campeãs nem passaram para as oitavas. Outras mostraram força inédita e deram testa a grandes equipes. O futebol muda, se mexe, é vivo. Nós fomos às semifinais, junto com outros três grandes grupos. Mas se não formos campeões, não prestamos pra nada.

Por que tanto ressentimento, Brasil? Por que não reconhecer o esforço de quem chegou até aqui? Foi um vexame, uma humilhação, verdade. Mas já “humilhamos” também. Somos os únicos penta campeões. Ninguém é nem tetra. (Atualizando: A Itália é tetra. Quem mandou? Hunf) Por que temos que ganhar sempre?

Curioso, lembrei muito da entrevista que fiz com o escritor e filósofo Luiz Felipe Pondé, na antevéspera desse jogo. Ele falava sobre seu novo livro, “A Era do Ressentimento”. Em uma passagem ele fala: “Todo mundo acha que tem direito a tudo, que o universo deve conspirar a nosso favor, que se você não consegue alguma coisa a culpa é sempre dos outros. Isso gera desde uma dificuldade em você assumir responsabilidades pelo que faz, até uma coisa que eu acho pior, que é uma espécie de ingratidão geral, porque quando te dão alguma coisa, você não realiza aquilo que recebeu, porque você considera que tudo é direito seu , é obrigação de todo mundo te dar tudo.”

E assim vamos sendo uma civilização de mimados, gente que não cresceu, que nunca perdeu nada, que não sabe conviver com o bom e o ruim da vida. Acho que é uma boa oportunidade de trabalhar isso dentro da gente. No esporte, como na vida, se ganha, mas também se perde. E às vezes é surra mesmo.

Aí hoje eu vi jogadores alemães aparecerem na internet pra pedir mais respeito à camisa amarela da seleção brasileira, e que o Brasil é e sempre será o país do futebol. Os ídolos deles são brasileiros, e eles venceram porque trabalharam por isso vendo o Brasil jogar desde pequenos. Podolski escreveu isso em português em seu Instagram. Não é o máximo? Özil disse em seu Facebook que temos um país maravilhoso, um povo fantástico e que esse jogo não pode destruir nosso orgulho. Fizeram sete gols e comemoraram de forma alegre, porém contida. O esporte emociona. É bonito de ver. É doloroso demais perder, e daquele jeito pior ainda. Mas tem sombra e luz no mundo. Alegria e tristeza, vitória e derrota. A expectativa que depositamos nesta Copa não foi superada. E aí? C’est La vie.

Bola pra fr… ops, esqueçamos a metáfora futebolística por enquanto.

Para o alto e avante!

 

bolaprafrente

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