Archive for Agosto, 2012

Sejamos lindos e estúpidos

Tá importando pouco se você é inteligente, se consegue levar uma conversa, se ouve música boa, se é flexível em suas opiniões, se gosta de cinema, se fica triste de vez em quando, se questiona a vida, se gosta de dar risada, se apoia uma causa qualquer. Tá em alta ser lindo. Lindo, por fora mesmo, visualmente lindo. Aliás, lindo não, tá em alta ser sexy. Se o Facebook fosse um álbum de fotos da realidade, todas as pessoas, ou quase todas, exalariam sensualidade até pelo ouvido. Digo fosse, porque naturalmente sei que o Facebook tá longe de retratar a realidade. Primeiro, não somos todos tão lindos e seguros de nós mesmos; segundo, não somos tão indignados assim com as questões sociais; terceiro, não lemos Clarice Lispector nem Caio Fernando Abreu; quarto, não vivemos sorrindo felizes o tempo inteiro, como nas fotos. Não somos os eus do Facebook, graças a Deus.

Quase todo mundo é igual no Facebook. Quase toda adolescente (na faixa etária ou tardia) tem fotos de si mesmas diante de um espelho, com a barriga de fora, ou fazendo uma cara de tarada. Porque se a pessoa não for sexy não tem lugar na sociedade de consumo de coisas e de pessoas em que a gente vive hoje. Ora, tem quem compre a ideia. Eu particularmente fiquei com pena essa semana quando vi uma foto de duas garotas, cada uma vestindo uma camisa de time (Vitória e Bahia), amarrada na cintura pra mostrar a barriga, dando um selinho na boca da outra e posicionando um celular diante do espelho pra tirar a foto. O celular sai na foto. A cara de quem tá fazendo malabarismo pra conseguir se posicionar, beijar a colega, e tirar a foto minimamente enquadrada, entregou o tamanho do sacrifício. Mas deve ter valido bem a pena. Porque instantaneamente as meninas receberam comentários do tipo “queria estar nesse meio”. Não eram bonitas, semi gordinhas, num cenário miserável, fazendo qualquer negócio pra serem desejadas por alguém, se sujeitando a tudo pra ter um lugar ao sol nesse mundo em que só os sexies sobreviverão.

Toda pessoa tem que reverenciar a própria imagem, porque é assim que se passa a existir no mundo dos que tem Facebook. Tem gente demais pedindo pra ser admirado pela aparência. Tem gente demais mostrando que tem coisas, aparelhos tecnológicos, carros novos, bebendo muito, comemorando essa vida tão maravilhosa em que todo dia parece ser fim de semana, e em que a grande sacada é tomar todas e ser gato. Tem gente de menos encantando pelo que é na verdade. Podia ser mais entediante?

Aí eu me pergunto porque ainda estou no Facebook. Eu sei lá, sabe? Talvez seja um jeito de ter contato com amigos que não vejo, que estão longe, ou talvez eu esteja fazendo algo que não gosto, que é substituir meus amigos pelas fotos e mensagens postadas por eles. Mas é bom trocar umas palavras com os outros por ali de vez em quando. Tem esses 5% que salvam minha permanência lá, por enquanto. Não é amargura não, é um certo tédio mesmo. Tem gente demais significando de menos, e observar isso é desanimador. Chegou a hora dessa gente bronzeada e sexy começar a mostrar que tem valor.

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