Archive for Janeiro, 2011

Atitudes gentis

Depois da repercussão tão linda de todos que comentaram o post abaixo, senti um pouco mais de fé no ser humano. Porque, honestamente, eu acredito que a atitude positiva é muito fértil, é contagiosa, ela pode se multiplicar. Todo mundo sabe, isso não é novidade nenhuma (e aqui eu lembro de um professor da faculdade de Jornalismo que dizia “se for pra dizer o óbvio, é melhor que fique calada”… mas algumas obviedades saudáveis podem e devem ser repetidas), o fato é que quando alguém tem uma atitude gentil ela pode fazer toda a diferença no dia de outro alguém. A gente tende a ser amável e compreensivo com alguém que é gentil conosco. Costumo acreditar que somos espelhos das reações dos outros. Se alguém grita comigo, eu tendo a responder no mesmo tom. Se alguém é seco e objetivo demais, eu irei simplesmente agradecer e sair. Se sou bem atendida, de maneira rápida, eficaz e simpática por alguém, eu irei responder da mesma maneira. E acho que é esse comportamento que eu vou querer reproduzir.

Há não muito tempo eu resolvi instituir comigo mesma o “dia da gentileza”. Neste dia, eu estabeleço que vou dar passagem a algum motorista que tenha mais pressa. Que vou sorrir quando precisar falar com pessoas que não conheço. Que vou parar o carro, quando der, pra que alguém atravesse a rua. Que vou usar todas as regras de “bom dia”, “como vai”, “muito obrigada”, “fique à vontade”, que às vezes, na correria ou na introspecção, a gente esquece. E sempre que eu estabeleço o “dia da gentileza”, quem mais ganha sou eu! É uma coisa muito agradável ver uma pessoa sorrindo e agradecendo por finalmente alguém ter parado o carro para que ela atravessasse a rua. É muito bom quando, mesmo no ritmo frenético de um dia cheio de trabalho, você atende o telefonema de um desconhecido que sabe que está te pedindo um favor, talvez um dos grandes, mas que não tem mais a quem pedir e você faz isso por ele, porque isso não vai inviabilizar o seu dia, e no final das contas vai ajudar muito alguém. Aí você ouve “poxa, muito obrigado mesmo”, e fica tudo bem, bem melhor que antes. É tão raro ouvir um “obrigado” honesto, verdadeiro esses dias, que quando isso acontece, faz muita diferença. Então decidi busca-lo, sendo gentil, tentando ajudar se eu puder. Acho que aprendi algo com meu “anjo da enchente”!

Vejam bem, não é sempre que eu consigo instituir o “dia da gentileza”, tem vezes em que estou estressada, desanimada, chata, impaciente, eu sou só humana, “ridícula e limitada”, como diria Raul Seixas. Mas como tudo na vida é exercício, é preciso exercitar, inclusive, a capacidade de melhorar, de passar adiante algo que recebi de bom, de contar casos como esse, quem sabe se, de quebra, ainda inspiro alguém a fazer algo parecido?

Garanto que só a tentativa já vai valer a pena.

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Sobre medo, anjos e o fato de sermos todos iguais

Sexta-feira, 10 de abril de 2009. Sexta-feira da paixão, plena Semana Santa. A rádio funcionaria até as 10 horas da manhã, apenas o pessoal de estúdio foi trabalhar. Chovia muito, e na hora de ir pra casa, percebi que enfrentaria um aguaceiro e, possivelmente, ruas alagadas. Eu não tinha a menor ideia do que estava por vir.

No caminho, fui me dando conta de que a situação estava bem pior do que eu tinha calculado. Visibilidade mínima, limpador de parabrisa não dava conta da quantidade de água que caía, vidro embaçando. Pra completar o cenário, muitos relâmpagos e trovões. Eu só queria chegar em casa. Até que de repente o trânsito parou. Ninguém se mexia para frente ou para trás. A água já cobria os pneus dos carros. Na via contrária, menos alagada, ônibus passavam e criavam ondas que faziam o meu carro balançar, como uma jangadinha perdida em alto mar.

A essa altura eu já estava em pânico, não chorava porque sentia que precisava me manter alerta. Quando vi que o trânsito não andaria, que meu carro não ia parar de balançar, que os trovões ficavam cada vez mais próximos e mais altos, e os relâmpagos mais claros, olhei do outro lado da rua. Um posto de gasolina, algumas pessoas olhavam para nós, os que estavam nos carros, naquela situação de pavor. “Vou sair do carro e largá-lo aqui, no meio da rua, pelo menos piso em terra firme e saio desse pânico”, foi a coisa que mais me passou pela cabeça. Desisti pelo simples fato de que do lado de fora passava uma verdadeira correnteza, e eu certamente não conseguiria me equilibrar em pé. “Vou jogar o carro por cima do canteiro, e tentar atravessar pro outro lado”. Fiz isso. O carro ficou preso depois que os pneus dianteiros passaram pelo canteiro. “Pronto, ótimo, estou meio lá, meio cá”. Se a ré não funcionasse, não trouxesse de volta o carro pro lado que eu estava no início, o que eu iria fazer? Ficar empacada lá até quando? A ré funcionou. Respirei aliviada, mas tinha apenas voltado à mesma situação de pânico de antes.

Depois de alguns minutos apenas respirando e tentando me manter calma, o trânsito começou a andar devagar. Será que o carro ainda funcionaria, depois de tanta água ter passeado por dentro dele? Funcionou. Andei um pouco, mas com extrema dificuldade. Lá na frente, embaixo de um viaduto, o galho de uma árvore enganchou no pneu da frente. O carro travou. Tive que encostar no passeio, outros carros estavam lá, “estacionados” da pior maneira possível. Quando parei, senti que o carro não estava firme, e que a correnteza só aumentava. A rua era uma leve descida. Chorando, já perto do desespero, decidi. Peguei minha bolsa, meu casaco, o celular e abri a porta. A água começou a entrar. Saí rápido, fechei a porta, travei. Chovia muito forte ainda. Do outro lado, como eu disse, havia uma cobertura, o viaduto estava logo acima. Várias pessoas estavam embaixo dele, olhando a minha manobra desesperada.

No meio do caminho, ao atravessar a rua, travei. Usava um salto fino, não tinha equilíbrio nenhum. Devia estar descalça, mas era tarde. A sensação que eu tive foi que se eu desse mais um passo a força da lama ia me derrubar e eu não conseguiria mais me levantar. Lá embaixo havia um córrego. Eu tinha que chegar do outro lado. A essa altura eu estava completamente em pânico. “Alguém me ajude, por favor!”, eu estava paralisada, congelada de medo. O rapaz do outro lado só me pediu que não entrasse em pânico, porque seria pior. “Too late”, eu teria pensado se tivesse espaço para o mínimo de humor, mas não havia. “Pelo amor de Deus, eu estou em pânico, me ajude”. Foi aí que o rapaz, baixinho, magrinho, entrou na água, devagar e chegou até mim com esforço. “Te peguei, venha com cuidado, tem umas pedras logo ali”.

Fomos andando devagar, até que fui sentido a altura da água baixar. Estava segura. Nunca poderei agradecê-lo suficientemente. Um chinelo dele foi com a água, ele acabou descalço. Fiquei ali umas duas horas, em pé, completamente molhada, me sentindo só, com frio, com medo, triste, impotente. Na minha bolsa, havia um lenço de seda, que eu tinha comprado em Paris. Ao meu lado, um morador de rua se encolhia dentro de um carrinho de supermercado. Todos nós, igualmente assustados e ameaçados. Quando senti a força da chuva diminuir, pensei em largar o carro ali, ir andando pra casa. Foi o rapaz magrinho que me convenceu a esperar um pouco mais, o carro não estaria seguro, era um patrimônio, “tenha calma, vai ficar tudo bem”.

Chegou o momento. Era a hora de sair dali. Ele se ofereceu pra me ajudar a manobrar o carro até o outro lado, havia um lugar seguro. Eu deixaria estacionado lá e voltaria para buscar depois. Fiquei com um pouco de receio, era um desconhecido, dentro do carro, ainda havia espaço para esse tipo de preocupação, mas aceitei. Eu fui dirigindo e ele pedindo espaço para os outros carros. Deu certo. Estacionei e ele rapidamente disse “pronto, aqui está seguro. Está tudo bem? Eu vou indo. Espero que chegue em casa em paz”. Eu agradeci, umas dez vezes. E lá se foi ele, um pé calçado e o outro descalço. Estava lá só pra me ajudar? Não, claro que não. Ele tinha a vida dele. Mas o que ele pode fazer por mim, uma completa desconhecida, ele fez. E não pediu nada em troca. Quando acabou a missão dele ele se foi. E eu iniciei meu caminho a pé pra casa.

Ao chegar em casa encontrei meus pais, contei a história, senti o amor e a preocupação deles e chorei muito, encolhida no banho. O que eu senti naquele dia? Tensão, desespero, solidão, pequenez, impotência e uma tristeza infinita. Na TV relatos de pessoas que perderam casas. Pessoas que perderam pessoas. Eu cheguei em casa, com a ajuda de um “anjo”.

Eu mereci? Dei sorte? Não era a hora?

Vai saber.

Guerras

Um papo absolutamente corriqueiro com minha amiga Maslowa:

Ela: “Minha rinite é tão punk que que eu não consigo terminar uma frase sem dar uns três espirros no meio”.

Eu: “Minha rinite é tão punk que eu ela e ela somos uma pessoa só”.

Ela: “Minha rinite é tão punk que quando eu chego na balada nenhum cara chega junto. Eles dizem: ela já tá acompanhada, ela namora o Claritin”.*

Eu não pude evitar. Fiquei imaginando minha amiga no balcão de um bar, toda maquiada, meio borrada, lenço de papel na mão, sozinha, com uma caixinha de Claritin na bolsa. Espirrando, naturalmente. E dizendo “guerras!”. Ela diz “guerras” toda hora.

* Mas na boa, a minha é pior.

Conflitos “medianos”

Diante de uma grande felicidade, ou de uma grande tristeza, tudo que é mediano fica tão insignificante. A vida tem essa capacidade infinita e incansável de se redimensionar. Bastam cinco minutos de um mergulho nas imagens de uma tragédia como a do Rio de Janeiro e vem o pensamento: o que estamos todos fazendo no twitter? Por que estamos aqui comentando a novela? A pizza? A piada interna? Enquanto milhares de famílias estão lidando com o fato recém consumado de que seus filhos morreram, seus pais morreram, suas casas não existem, seus bairros, suas cidades não existem, e agora? Por que estamos tomando sol bêbados na praia enquanto o mundo desaba não muito longe de nós? Simples. Porque é assim que a vida é. Porque a vida precisa continuar. Porque metade do mundo precisa se manter sã enquanto a outra enlouquece.

Da mesma forma eu sinto que também vale para o oposto. Em momentos de intensa felicidade, todo o resto perde totalmente o sentido. Como assim, as pessoas comentam a novela das oito enquanto eu estou chorando de emoção diante da Torre Eiffell? Enquanto eu bato os olhos pela primeira vez no meu sobrinho mais novo e mais uma vez no mais velho? Por que estão lá publicando no facebook que sentem raiva quando ligam pra alguém e dá ocupado enquanto alguém no mundo é pedido em casamento pelo grande amor da sua vida? Enquanto um bebê nasce, a mãe chora e o pai treme de emoção com a câmera nas mãos sem conseguir registrar um só segundo de imagem de tanta felicidade? Não dá pra entender. Pra quem vive uma emoção extrema, seja ela boa ou má, tudo o mais vira água, perde o significado, é nada, nada, nadinha. Mas para todo o resto do mundo não.

A minha conclusão? Vivemos todos na mais mediana das emoções quase todos os dias. Mesmo as alegrias do cotidiano (e o que seria de nós sem elas?), os telefonemas inesperados, o brinde da sexta à noite, o filme inédito na tv, tudo isso é mediano. Talvez eu esteja influenciada pelo pesar e pela incapacidade de reverter o desespero dessas famílias que perderam tudo nas enchentes no Rio. Ou pela lembrança de que, na minha viagem de férias, eu tive dias tão intensamente felizes que, ao abrir o twitter eu pensava “não tenho vontade de escrever nada, eu estou em outra dimensão, nós nem mesmo estamos falando a mesma língua”. Mas o fato é que, como eu disse logo no início, isso tudo é um retrato da capacidade que a vida tem de se redimensionar. Porque hoje é sexta-feira, e fez um dia lindo de sol na minha cidade, e vem aí um fim de semana animado, e hoje é o último capítulo da novela, e eu matei o desejo de comer pizza de pepperoni e gorgonzola, e eu estou feliz, mediana ou intensamente, porque essa é a minha dimensão agora. Não dá pra viver na queda livre da montanha russa 24 horas por dia, 7 dias por semana. Eu sofro, eu choro, e eu penso em uma forma de ajudar “a metade do mundo que enlouquece”. Mas deve ser lícito tentar ser feliz, mesmo enquanto o mundo se acaba.

Help, blog.

Em algum momento o ano vai ter que começar aqui no meu blog. Esse post é só pra que eu perca a sensação de “medo” que tô sentindo de fazer um primeiro post ruim depois da viagem, depois da virada do ano, e neste momento. Pronto, já foi. Depois desse é só atualizar. Não é?