Duas palavrinhas sobre o fracasso dos outros

Você, alguém sem filhos, que sabe tudo sobre ser uma boa mãe, a mãe que educa e impõe limites carinhosamente, tá lá sentada numa praça de shopping. Aí chega uma mãe com uma criança birrenta no colo. A mãe, visivelmente sem paciência e mal humorada, coloca a chupeta no boca da criança. Ela silencia e a mãe respira fundo. “Grande mãe. É por isso que a criança é birrenta. Basta ensaiar um choro que a mãe dá chupeta. Tsc.”

Cena mais do que comum, julgamento imediato. Mas deixa eu contar pra vocês essa mesma cena de outro ponto de vista: o da mãe.

Ela não tem babá. Divide os cuidados da filha com o pai, que trabalha pela manhã enquanto ela trabalha à tarde. Naquele dia ela precisou sair pela manhã pra resolver um problema burocrático urgente, e precisou levar a filha, bem na hora em que ela tiraria sua soneca, tranquila, em seu quarto com ar condicionado. Mas não naquele dia de calor. Naquele dia sua mãe chegou em seu quarto, a chamou pra passear, toda sorridente e carinhosa. Sabia que a tarefa seria difícil, e quis que sua filha não se chateasse tanto por ter que trocar a soneca pela rua calorenta e cheia de gente desconhecida.

A mãe a trocou, ela não gostou. A mãe escolheu dois brinquedos que a filha gostava e colocou na mochila, junto com suco, e o biscoito preferido. A filha só chorava. A mãe compreendeu. Era chato mesmo. Teve que pegar no colo, a burocracia na rua precisava ser resolvida. Colocou a filha no carro e lá foram elas. 

A mãe ouviu no caminho, pela milionésima vez, as músicas que sua filha gostava. Ouviu e cantou, e bateu palmas. O trânsito era ruim. O horário estava apertado, ainda ia trabalhar naquele dia. Sua filha, quietinha, parecia se entregar ao sono. Bem quando elas chegaram ao shopping. A mãe tirou da cadeirinha com todo cuidado, talvez ela continuasse dormindo em seu colo. Não deu certo. Sua filha acordou, e compreensivelmente, chorou, chateada. A mãe tentou coloca-la no chão, mas a menina estava sonolenta e irritada. Pegou no colo, pegou a mochila e ainda uma pasta de documentos, equilibrou tudo em dois braços. Foi à agência bancária. Enfrentou alguma fila, mesmo de prioridade. O caixa a disse que faltava um documento. Não resolveria o problema naquele dia. Naquele dia difícil. Não.

A mãe, cansada, frustrada, pensou que poderia estar em casa, enquanto sua filha dormia tranquila em seu quarto, com ar condicionado, e teve uma vontade enorme de chorar. Não era a primeira vez que se via sozinha numa situação complicada, tendo que resolver muitos problemas com sua filha no colo. Estava quase atrasada, mas morta de cansada. Achou um banco vazio no shopping e se sentou um pouco. Sua filha, também cansada, com sono e muito chateada, chorava. Sua mãe, como um último recurso, resolveu ignorar o “bubu é só pra mimir”, e deu a chupeta à filha, pra ter dois minutos de silêncio.

Havia uma mulher ao lado dela. Sem filhos, sabia tudo sobre ser uma boa mãe. “Grande mãe”, ela pensou.

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13 responses to this post.

  1. Posted by René Cortizo Schwab on 23 de Janeiro de 2017 at 10:42

    Nardele, não à toa chupeta em inglês se chama “pacifier”, existem momentos em que realmente fazem a trégua entre a tentativa inócua de driblar o chôro e o descanso merecido de todos, inclusive aqueles ao redor. Seria bem mais fácil o ato de empatia perante a algo que não se conhece, seja pela inexperiência de nunca ter sido mãe, seja pelo simples ato de reconhecer que não é da sua conta. Mas no mundo atual onde participar, opinar e esculhambar o outro, sem sequer fazer parte do seu mundo, é uma das melhores diversões e passatempos, não é de se admirar que fatos como esse sejam corriqueiros. Sou um pai, que muitas vezes sou “pãe” e não mais me surpreendo com a capacidade “criativa” e absolutamente sem noção de alguns seres que infelizmente nos encontram por aí. O bom mesmo é ligar aquela chave, que começa com f…. e dar aquele suspiro, meia volta e seguir nosso caminho.

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    • Posted by nardele on 23 de Janeiro de 2017 at 14:18

      Sim, a gente primeiro se admira com a total falta de empatia e solidariedade. Depois desiste e liga o tal botão, mas não sem desejar que um dia as pessoas possam ser diferentes. Mas o exercício é pra todos, julgar é uma coisa que todos nós fazemos algum dia. Por isso que os filhos nos tornam melhores, eles nos trazem experiências assim, que acabam nos fortalecendo e nos enriquecendo. Beijo, querido!

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  2. Posted by Laís on 23 de Janeiro de 2017 at 12:18

    Nardele, texto maravilhoso! As pessoas aindam não aprenderam a se colocar no lugar do outro, de não julgar (não necessariamente com palavras, afinal um olhar vale mais que mil) o outro, especialmente quando esse outro tem ou está passando por uma dificuldade. Mulheres que são mães fazem muito isso, mesmo sabendo que na prática o negócio é bem mais embaixo. Eu não compreendo como algumas podem ser tão cruéis a ponto de tecer alguns comentários, mesmo conhecendo o mundo materno. Ser compreensivo e solidário não custa nada. Ficar quieto também não. Seria mil vezes melhor, inclusive. Você não sabe o que eu tô passando, fica na tua. Tipo isso.
    Sou mãe sozinha, meu filho tem 1 ano e 8 meses, ele está há quase 1 mês na casa dos avós, foi passar uns dias até que eu arrumasse a vida (estou desempregada e provavelmente terei que fazer uma mudança) e ter um bebê no meio de uma bagunça dessas não é nada agradável e nem fácil. Preferi deixar ele lá, pra que eu pudesse ‘fazer uns bicos’ e ajeitar a vida. Sei que está bem cuidado e que é importante a convivência com a família, já que ele só vai lá uma ou duas vezes no ano. Tá fazendo um bem enorme pra ele e pra avós, tios e primos. A saudade é grande demais, mas priorizei o bem estar dele. E você acha que as pessoas acham isso normal? Não! Moro numa cidade pequena do interior da Bahia, eu nem tinha voltado de viagem e já sabia que era a pior mãe do mundo por estar entregando meu filho. Sem saber as pessoas julgam, se intrometem e fazem questão de serem desagradáveis.
    A gente tem que fechar os ouvidos pra certos comentários sobre o que é ser uma mãe de verdade. Cada um age de acordo com a sua realidade e cada mãe faz o que pode pra ser a melhor que seu filho pode ter. Com ou sem chupetas, com agrados ou não.
    Ignorar é melhor pra saúde, descobri.
    Você e sua filha, que duplinha mais linda! Fico encantada a cada postagem, muito amor pra vocês, Nardele.

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    • Posted by nardele on 23 de Janeiro de 2017 at 14:21

      Laís, sua luta não será em vão. Como a minha também não é. Cada uma em sua dimensão, com suas dificuldades, suas dores e alegrias! Te compreendo e me solidarizo! Que as pessoas possam agir mais assim. Ou que pelo menos não julguem, não se intrometam, cuidem de seus problemas. Um beijo, querida, obrigada por responder e compartilhar sua história! Eles vão entender tudo um dia!

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  3. Posted by Silvio Carvalho on 23 de Janeiro de 2017 at 13:02

    É isso aí, queridíssima. O julgamento é a forma mais comum para o julgador fugir das suas fraquezas e incompetências. Basta reconhecer isso. Reconhecendo, pode dar a chupeta no hora que você quiser e achar conveniente. O “inconveniente” que se mude. Beijos

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    • Posted by nardele on 23 de Janeiro de 2017 at 14:21

      A gente aprende essa liberdade aos poucos! Tenho aprendido bastante. A chupeta foi só um exemplo, existem tantos. Beijo, meu sogro querido!!

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  4. Posted by Ludmila on 23 de Janeiro de 2017 at 13:45

    Muito bom! Também sou mãe sem babá e me viro diariamente para trabalhar, cuidar dele, deixá-lo na escola e tantas outras coisas. Na nossa sociedade falta se colocar no lugar do outro! Parabéns!

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  5. Posted by Marlene on 23 de Janeiro de 2017 at 14:47

    Excelente texto, disse tudo. Ótimos comentários. Parabéns pra vocês. Beijos..

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  6. Posted by Leandra Venas on 23 de Janeiro de 2017 at 15:41

    Sempre tem uma mãe ou futura pra achar que faria tudo diferente.

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  7. Posted by Rose on 23 de Janeiro de 2017 at 16:41

    Não é fácil ser uma mãe que trabalha e ter jornada dupla. Sempre nos julgam mais no seu fazemos o melhor por nossos pequenos, sempre!! Bjo

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  8. Posted by Marlene on 24 de Janeiro de 2017 at 8:10

    Vejo como as mães de hoje são tão bravas e inteligentes, no sentido de saber administrar suas dificuldades, que, em cada história contada a gente se encanta a ponto de fazermos profundas reflexões.No mundo moderno isso passou a ser algo do dia a dia. Feliz é o filho cuja mãe empreende em si essas lutas. Deus está, provavelmente, muito mais triste com as que não procedem assim. Essas mães, os educadores, os de consciências limpas e todos bem nascidos sabem encarar as adversidades. Se tornam grandes a partir delas. Vão escrevendo sua história na “estrada longa da vida”. Lembro, peço licença para relatar, de minha mãe quando tinha que fazer uma mudança para acompanhar Papai num projeto de vida em outra região em busca de sustento para sua família. Vi isso acontecer por algumas vezes. Oitos filhos. O mais velho tinha a idade de 16 anos.Ela chorando dizia – “tenho que ajudar meu marido”. Nós, os pequenos, não tínhamos a verdadeira consciência da situação, vibrávamos de alegria. Certamente achando que aquilo era ótimo. São os extremos na histórias da vida. Parabéns pelo texto e aos comentários firmes e bem centrados. Como disse o poeta: —(poeminha chato) “Filhos, melhor não tê-los”… (Raimundo)

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  9. Amei o texto, até porque sou aquela “que não tem filhos e entende tudo de ser uma boa mãe”, sendo apenas boa tia!! Mas cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é!!! Belo texto!!!

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