Archive for Maio, 2013

Pitaco sobre o egocentrismo alheio

Das habilidades que eu tenho, observar ainda é uma das que faço melhor (parafraseando Saramago, que diz que “das habilidades que o mundo tem, dar voltas ainda é a que faz melhor”, grande verdade). E uma coisa que venho observando nas pessoas é como muitas são personalistas. Egocêntricas, acham que o mundo gira ao redor delas. Tudo que falam é sobre elas. O que elas pensam, contam coisas pelas quais passaram, querem impôr suas opiniões pessoais como se fossem as únicas aceitáveis, acham que suas necessidades se sobrepõem às dos outros, acham que suas experiências são as mais marcantes, elas sabem de tudo, elas conseguem tudo, e se não conseguem colocam a culpa nos outros. Elas não ouvem você: simplesmente esperam você acabar de falar pra voltar a falar de si. E se frustram se você não fizer cara de “meu Deus, a sua vida é tão interessante”. São muito, muito, muito chatas pessoas assim.

Eu faço uma conexão disso com o tempo em que a gente vive hoje. É tanta exposição, tanto Facebook, tanto twitter, tanto Google+, tanta rede social, tanto reality show, que vivemos nessa era de “preciso mostrar quem eu sou, falar de mim, contar meus casos, preciso de audiência”. Freud explica. Tenho certeza que explica. Isso não passa de carência afetiva. Pode ver no Facebook, que hoje é a mais democrática das redes sociais. Dê uma olhada em sua timeline agora. Vai ver quantas pessoas estão fazendo da rede um diário. Contando seus problemas, dando indiretas, exibindo seus pontos fortes em fotos bonitas, frases de impacto, opiniões incendiárias e expondo assim, sua maior fraqueza: essa carência toda. E essa falta de habilidade de debater coisas, ideias, assuntos, sempre caindo na mesmice do “eu, eu, eu”, e sempre despejando suas opiniões formadas, inflexíveis, incapazes de refletir, processar, discutir e, quem sabe, mudar de opinião. Elas não tem opinião. Tem dogmas, verdades absolutas, tiradas não sei de onde. Uma notícia pra vocês: isso é muito chato. Comecem a pensar nisso. Saiam da pauta de vez em quando pra ver se os outros se interessam realmente em trocar ideias com vocês.

E aí, pra fechar, vou deixar o link de uma matéria muito fofa sobre um livro, indicada por minha amiga Letícia, que viu no Facebook de nosso amigo Pedro (o Facebook tem lá sua utilidade). Nesse livro, crianças dão definições sobre as coisas, como uma espécie de dicionário criado por elas. Elas dizem o que significam algumas palavras. Por exemplo (olha como calhou com o assunto do dia): “adulto: pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro dela mesma”. Hum… sábia definição.

Mas a melhor de todas é sobre Deus: “Deus é o amor com cabelo grande e poderes”. Podia ser mais certo?

Leiam, é bonito demais –> Aqui.

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Entre tarrafas, cancelas e cavalos

Ele cheirava minha cabeça, pegava em minha mão com muita firmeza, sorria pra mim com cada pedacinho de seu rosto. Lembro como se estivesse acontecendo agora: ele sentado na sala de sua casa, de frente pra janela, a tarrafa pendurada e ele lá, com sua agulha, tecendo sua rede, sério, compenetrado. Do seu bolso sempre dava pra ver a pontinha de um lápis, não um lápis qualquer. Um larguinho, geralmente já estava curto, lápis de profissional. Ele seguia pro quintal, eu ia atrás, miúda, curiosa pra saber o que ele ia fazer. Ele sabia. Seguia sem olhar pra trás, acho que com medo de me espantar. Ele abria a porta da cozinha, deixava aberta. Eu ia. Andava pelos tonéis de água lá do fundo da casa, passava pelos cágados com os quais minha avó conversava, seguia. Lá adiante abria a porta do quintal, deixava aberta. Eu entrava, olho arregalado. Lá ele arrumava um banquinho pra mim, sentava no dele, me olhava com aquela cara séria e depois abria um sorrisinho tão lindo. Começava a traçar a madeira, simples pedaços de pau que mais tarde virariam cancelas firmes e imponentes, todas já vendidas aos fazendeiros da região. A gente sentava lá com cuidado. Tinha serrote, tinha facão, prego, madeiras com farpas doidas pra achar o dedo de uma menina. Por isso ele tinha cuidado e às vezes era ríspido. “Vão brincar lá fora, que aqui não é lugar de brinquedo”. Mas isso depois de encantar a gente com todo aquele aparato. Meu avô fazia tudo isso. E quando fazia aniversário ele queria samba. Na roça, muita gente, samba varava a noite, ele era o rei. Meu avô gostava de beiju no café, pão no café, café puro. Gostava de tomar uma fresca na porta com minha avó. Os dois foram feitos um para o outro, disso nunca tive dúvida. Quando ela se foi, meu avô colocou um pano sobre o rosto e deixou lá por não sei quanto tempo. “Bem que o padre disse ‘que só a morte os separe'”. Lembro dele ter dito isso no dia da morte dela. Ainda viveu alguns anos depois disso. Faltava um mês pra completar 103 quando se foi, no dia 06 de maio deste ano. Ela tinha ido no dia 08 de maio de 2006. Sete anos os separaram. Saudade tava grande, né, vô?

Se houver merecimento envolvido no que quer que haja depois da morte, se algo houver, no que eu acredito, ele está no melhor lugar que eles tem lá. E lá foi bem recebido por ela.

Era um homem de sua roça, de sua casa, gostava de fazer as coisas sozinho. Quando vinha a Salvador por algum motivo, dava dó vê-lo no sofá de casa, olhando pra janela feito passarinho preso na gaiola. Nunca ficava mais do que o tempo necessário pra resolver tudo, já queria voltar pra sua vida. Amava sua família, adorava as pessoas, confiava nelas mais do que todo mundo. De quem a gente desconfiava, ele dava ainda mais uns três votos de confiança. Há quem diga que ele era ingênuo. Ele preferia pensar que as pessoas mereciam sua fé, vai saber. Quem quer que o tenha conhecido, se encantou por ele. Colecionou afeto de muita gente em cima desse mundo. E admiração. Dizem (e eu acredito em quem me disse, né, meu pai!) que quem o viu montado em seu cavalo “Osado” nunca mais viu nada igual na história desse sertão. Acho que não existem muitas pessoas no mundo com tanta retidão de caráter, tanta consciência de suas responsabilidades, tanto cumprimento de suas missões, e tanta, mas tanta doçura naquele olhar. Meu avô não era deste mundo.

Não era não.

Ele, em seu reino.

Ele, em seu reino.

A visita da angústia (sem sopa em casa)

Peço licença aos alegres. Hoje vou escrever algo melancólico, provavelmente triste, até angustiado. É que a amargura é parte da vida, mesmo de uma vida doce. É da vida ser instável, múltipla, e variar as sensações, talvez até pra nos ensinar coisas. E hoje eu recebi a visita da angústia em meu coração. E eu quase posso dizer que gosto quando ela vem. É minha antiga conhecida. Ela chega, senta do meu lado, vestida de tristeza. Tira meu prazer no trabalho, coloca preocupações em minha cabeça. Me diz que tudo isso só acontece comigo, tenta me convencer que hoje é um dia pesado, difícil. E ela é convincente. Me ocupa demais, me cansa demais, me suga até que eu concorde que quando abro uma porta de armário e algo cai em cima de mim, é porque o mundo me odeia, porque minha vida é um caos, sinal de que nada dará certo num raio de kilômetros ao meu redor. Me faz crer que eu causo problemas para os outros. Faz a tarde acabar sem cor, em silêncio, melancólica. Faz a solidão parecer sombria, e não serena. Faz o ‘não’ parecer ‘nunca’. Faz todos os dias bons parecerem mentira.

O antídoto pra ela, sopa quente, abraço e TV, às vezes não tem. Tem dias que penso que a angústia providencia que não tenha sopa quente justo no dia que ela vem, pra reinar soberana em meu coração apertado. Às vezes eu acho que a angústia só precisa de um pouco de atenção. Dou a ela o que ela quer e a deixo ir embora. Feito visita inconveniente. Estou aqui, na sala, oferecendo refresco à angústia. Amanhã coloco a vassoura atrás da porta.

sopa_cura