Archive for Abril, 2011

Tomara, meu Deus, tomara.

Tomara, meu Deus
Que o medo nunca me encontre,
que meu coração se fortaleça,
Que minha fé não se perca,
que meu olho brilhe.

Tomara, meu Deus,
que as confusões se dissipem,
que as pessoas tenham paz,
que a vida seja mais simples,
pra que o mundo seja também.

Tomara, meu Deus
que os segredos não machuquem,
que as palavras sejam doces,
que os corações se abracem,
que se houver dor, que se vá e não volte.

Tomara, meu Deus
que o carrossel não seja montanha russa,
que ninguém mais se iluda tão fácil,
que os amores sejam bem vividos,
e que a vida seja um pouco mais leve.

Tomara, meu Deus
que a gente continue amando,
que o vazio não nos alcance,
que se for verdade, se viva,
e mais nada nos envergonhe.

Tomara meu Deus, tomara.

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Ufa.

Queria ser cantora. Nem que fosse só por um dia. Nem que fosse pra cantar só uma música. Seria precisamente essa.

Porque ninguém precisa dizer mais nada.

Tá na hora de brincar

Brincar um pouquinho. Sem medo nenhum de nada. Deixar a chuva entrar em casa, ou sair de casa na chuva. Sair da barraca na chuva. Ou entrar na barraca com chuva. Ouvir um velho dizer coisas lindas, antigas e absurdas. Tomar uma cachaça com ele e rir do seu riso sem dentes. Olhar o céu e sentir que lá vem temporal. E se enganar com o sol de rachar esquentando o moletom. Conversar com uma florzinha amarela e fugir da abelha. Abraçar a árvore e rir do ridículo. Pegar a mochila e procurar o que fazer. Se pintar só pra ver como fica. Pintar um quadro horrível e se apaixonar por ele. Se apaixonar por um horrível e pintar um quadro. Pintar uma paixão e ficar horrível. Adorar o vermelho só porque é vivo e tem personalidade. Tirar foto de grama, sair correndo, viajar e voltar. Fazer coisas loucas, ser muito feliz com pouco, sonhar com o impossível, dançar e cair de tanto rir.

O dia em que eu procurei um sorriso pra dar

(Para ler ouvindo Fake Plastic Trees, Radiohead)

Angústia. Sinto vontade de dizer tantas coisas e não sei por onde começar. O dia foi tomado logo de manhã pela tragédia no Rio de Janeiro. Um louco escreve uma carta insana falando em Deus, depois entra armado numa escola, atira a esmo contra crianças, mata dez meninas e dois meninos e depois se mata. O horror daquele momento é claro que a gente não pode imaginar. O que as crianças que sobreviveram estão sentindo agora tampouco. Os pais dos que morreram… inútil tentar. O choque de um país inteiro, esse eu consigo mensurar. Eu mensuro por mim. Hoje foi um dia em que eu procurei um sorriso pra dar ao mundo e não achei.

Hoje meu coração bateu tenso. Algo me anestesiou e eu respirei fundo o dia inteiro. Como se não soubesse o que estava acontecendo. Hoje, no dia do Jornalista, percebi o quanto minha profissão é ingrata. Vi quase toda a timeline no meu twitter se desligar por opção das notícias no Rio. Eu teria feito o mesmo se pudesse. Mas sou eu, e todos os colegas jornalistas, que temos que fazer a notícia atravessar a distância entre o fato e as pessoas. E pra ser essa ponte, a gente tem que acompanhar, lidar com as imagens, ouvir e falar no assunto. Na televisão, o que mais me chocou foram as imagens das mães de alunos mortos. Enquanto uma esmurrava um carro da PM, a outra dizia coisas sem sentido, olhos opacos, distantes, como se ela não tivesse qualquer ideia de onde estava, nem porque, e nem porque estava viva. Era ela que deveria ter morrido, não sua filha. Tenho certeza de que ela pensou assim quando conseguiu pensar em algo.

E aí eu entro numa crise que me assusta. E isso aconteceu depois de assistir meus colegas jornalistas, e os fotógrafos, disputando um milímetro de espaço pra fotografar um saco preto. Dentro havia uma criança morta. Os Bombeiros tentavam agilizar o fim do martírio, mas os jornalistas queriam aquela imagem. Nas redações dos jornais, rádios e tvs eu posso apostar o que quiserem que teve quem tratasse os mortos como mera estatística. “Quanto mais, mais choca a sociedade. Quanto mais, mais quente é a notícia”. Não se horrorizem, meus caros. É também assim o jornalismo. Aquele que faz cara feia quando apura notícias policiais e ninguém morreu. Quando checa o trânsito e não houve nenhum acidente. Aquele que cola a máquina fotográfica ao cadáver pra conseguir a foto mais “viva” do morto. Eu não consigo, e nem vou, e nem quero compreender isso.

Tenho certeza que existe uma maneira de tratar a notícia com mais respeito. Deve haver, tem que haver. Crise.

Prefiro ficar com a frase que disse na primeira aula, do primeiro dia de faculdade, quando a professora perguntou a cada um dos alunos “por que você decidiu estudar Jornalismo?” e eu respondi: “porque eu quero mudar o mundo”.

Eu não estou lá.

Me tocou tanto que gostaria de compartilhar.

Este poema foi escrito por Mary Elizabeth Frye, em 1932. Ela não era poeta, era florista. O que acaba resultando na mesma arte de cultivar beleza. Ela vivia em Ohio, Estados Unidos, e se compadeceu da dor de uma jovem judia cuja mãe estava muito doente, na Alemanha. A jovem, Margaret, havia sido advertida a não voltar à Alemanha naqueles tempos duros de antissemitismo. Quando sua mãe morreu, a jovem disse a Elizabeth: “Nunca tive a chance de chorar no túmulo da minha mãe.” Elizabeth pegou então o papel que tinha em mãos, escreveu este poema e a entregou.

Don’t Stand At My Grave And Weep

“Do not stand at my grave and weep,
I am not there, I do not sleep.
I am in a thousand winds that blow,
I am the softly falling snow.
I am the gentle showers of rain,
I am the fields of ripening grain.
I am in the morning hush,
I am in the graceful rush
Of beautiful birds in circling flight,
I am the starshine of the night.
I am in the flowers that bloom,
I am in a quiet room.
I am in the birds that sing,
I am in each lovely thing.
Do not stand at my grave bereft
I am not there. I have not left.”

Coloquei em inglês pra preservar a beleza e a musicalidade do poema. Mas acrescento a melhor versão que encontrei em português:

Não Chore À Beira do Meu Túmulo

“Não chore à beira do meu túmulo,
eu não estou lá… eu não dormi.
Estou em mil ventos que sopram,
E a neve macia que cai.
Nos chuviscos suaves,
Nos campos de colheita de grãos.
Eu estou no silêncio da manhã.
Na algazarra graciosa,
De pássaros a esvoaçar em círculos.
No brilho das estrelas à noite,
Nas flores que desabrocham.
Em uma sala silenciosa.
No cantar dos pássaros,
Em cada coisa que lhe encantar.
Não chore à beira do meu túmulo desolado,
Eu não estou lá – eu não parti.”

A estrada nebulosa do futuro

Já entrou o mês de abril. Ninguém mais usa folhinha hoje em dia, mas se usássemos teríamos arrancado 93 páginas. Mais de 3 meses já se foram. E aí? O que você já fez? Será que a maioria das pessoas sabe quantificar o tempo? Ou vai administrando de outra forma? Ou vai sendo levado pelos dias, como se eles fossem ser sempre os mesmos, como se começássemos tudo de novo ao acordar? Na verdade não começamos tudo de novo ao acordar. A gente continua o que parou no dia anterior. A vida é uma sequência, e não existe nada mais óbvio do que isso, mas às vezes é preciso estar atento pra não cair na armadilha de acreditar que se vive pra sempre. Hoje fui a uma consulta médica (garganta, seja educada, diga “oi” às pessoas – Oi!), do jeito que não se vê mais hoje em dia. A consulta durou bem mais de uma hora, com direito a bate papo, filosofia e muitas risadas ao ler o meu prontuário de quando eu tinha 10 anos de idade, que ele resgatou do arquivo. Em dado momento meu médico querido escrevia a receita e quando colocou a data suspirou: “Puxa, 4 de abril… eu tenho tantas atividades que sou consumido pelo trabalho e não vejo o tempo passar. Tenho um trabalho grande para apresentar em junho. Vai dar, vai dar…” E assim vamos, a humanidade caminhando, a maioria a passos lentos, em direção a algo que não conhecemos, que geralmente não planejamos e que vai se apresentar pra nós ali na frente.

Estive pensando outro dia: as pessoas que você conhece hoje, com quem você convive, onde estarão elas daqui a uns anos? Será que atingirão seus planos? Será que permanecerão unidas? Será que você vai saber? E você, onde estará? Fazendo o que e com quem? Vai estar feliz? Vai se sentir realizado (a)? Vai ter colocado aquele sonho antigo em prática ou vai ficar satisfeito em ter o que lhe veio com o tempo? Será que vai ter saído da inércia? Será que arriscou algo? Será que deu tudo errado? Será que deu tudo certo, mais do que você imagina?

Hoje estou me sentindo reflexiva sobre o passar do tempo. Dos três meses desse ano, dos dois últimos anos, dos dois próximos. Que limbo é esse que a gente vive e que não decide nada? Ou quase nada?