A menina do espelho

(Para ler ouvindo The Augusteum)

Diante de si mesma, ela chorou. Reconheceu cada uma de suas dores e chorou profundamente. Chorou tanto que se esvaziou de tudo e dormiu. No chão, diante do espelho. Rosto borrado, maquiagem riscando a face de preto. Os olhos agora eram calmos. Ela dormia. E sonhava que acordava exatamente ali, diante do espelho, o rosto borrado. Ela levantava a cabeça, olhava a si mesma no espelho e respirava leve. Enxugou os olhos e se olhou mais de perto. Era tão bonita… fez um carinho no próprio cabelo, como se quisesse cuidar daquela menina aparentemente frágil, mas que caía e levantava sozinha. Era um carinho que dizia “estamos juntas”. Ela, chorosa e triste, e a outra, a menina linda chorando no espelho. E deu um sorriso ainda borrado, ainda triste, mas um sorriso. Ela levantou, olhou a janela. Era um sol de fim de tarde, que deixava tudo meio dourado, e chovia fino, puro ouro. Tão mágico que ela sorriu verdadeiramente, não mais para o espelho. E desceu correndo as escadas daquela casa grande e branca, numa euforia crescente pra chegar à chuva e sentir aquela água correr em seu rosto. E riu, em silêncio, riu com todo seu corpo. E disse a si mesma que era ela e só ela. Que tudo que precisava estava ali. Dentro dela, naquele sonho dourado de paz, serenidade, firmeza como a terra é firme, leveza como o ar é leve, purificador como é a água e transformador como o fogo. Era ali, naquele pequeno pedaço de mundo que ela encontrou dentro dela, que estava a casa de sua alma. Que ela sabia que podia voltar se quisesse. Só dela, só dela. E quando sentiu que era a hora, levantou, fechou os olhos e os abriu, lá em cima, já diante do espelho. Olhou para aquela menina linda, dourada, plena e gigante, sorriu e estendeu a mão para ela. No banheiro de sua casa acordou, levantou, e percebeu tudo imediatamente. O que tinha derramado suas lágrimas borradas de preto? “Tão pouco…” Ela riu de si mesma, e viu o quanto seu farol mudara de direção. Tocou os dedos da menina do espelho e fundiu-se com ela para sempre.

Agora sua alma tinha endereço.

7 responses to this post.

  1. Amiga, seus textos são preciosidades. Guardo um espelho ao lado da cama, na gavetinha do criado mudo, e todas as vezes que me perco… Bom, acho que essa menina do espelho tem muito a nos ensinar. Ou já ensinou… Te amo!

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  2. Flor, lindas palavras. Todos temos que olhar esse espelho para enxergar além do que se vê, e perceber que é tem força para superar os momentos difíceis.
    Beijoos Delinha, e muito obrigado pelas palavras que sempre inspiram e fazem refletir.

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  3. Te amo Delinha por ser minha filha, por tudo que você é, pelo que fala, escreve, ensina. Nos traz mensagens profundas onde passo a sonhar juntamente contigo.Você é maravilhosa e não me canso de falar. Peço a Deus todo momento para que continue crescendo. Um grande beijo.

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  4. adorei esse artigo, e parece que foi Deus, pois em um momento que estava precisando, dei de cara com essa foto no google o que me fez repensar sobre tudo em minha vida e o que realmente sou.. Beijos e parabens pelo texto tão lindo

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  5. Posted by Lizz on 11 de Julho de 2012 at 14:47

    Estava procurando uma imagem no google para colocar como capa provisoria de uma historia que estou escrevendo quando me deparo com a linda imagem desta menina olhando-se no espelho… abro a pagina para ver melhor a imagem e dar uma olhada no blog também… por coincidência nossas historia tinham o mesmo titulo que a que estou escrevendo (rsrsr) então pensei “porque não dar uma lida na historia”… foram os 4 minutos mais bem gastos do meu dia! Sua historia é linda e envolvente, você tem um jogo da palavras maravilhoso, não me admira ser jornalista🙂 Rsrsrs Parabéns! desejo muito sucesso para você.

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  6. Posted by Roberto Manvailer Munhoz on 25 de Julho de 2013 at 16:08

    Com licença, venho lhe contar que utilizei esta imagem em um texto meu.

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  7. […] eu voltei àquela casa à qual minha alma pertencia. Eu queria saber se eu ainda estava em casa. Queria ver aquela casa, talvez sentir o que senti […]

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