Archive for Maio, 2010

Advogada do diabo

Vocês também travam discussões aguerridas internamente? Ai, isso acontece tanto comigo… Eu carrego várias pessoas dentro de mim. E elas são daquele tipo “você disse que o céu é azul? Eu não gosto quando você tem esse ar de superioridade. Só pra contrariar, vou pontuar que o céu é rosa”.

– Como assim, o céu é rosa? Isso é ridículo. É consenso universal que o céu é azul.
– O céu é preto.
– É patético ver alguém que não tem argumentos e que se perde defendendo pontos de vista sem nenhuma base só porque perderam uma discussão. Há pouco o céu era rosa… Tsc.
– De que cor é o céu às 10 da noite? E de que cor é o céu na alvorada? Eu te ajudo. Preto e rosa, respectivamente. Portanto eu sempre estive certa.
– Na maior parte do tempo é azul, então o azul prevalece.
– Sim, mas ainda assim você não estava 100% certa. Só é azul na maior parte do tempo… mas pode ser rosa na menor parte do tempo. Se você omite esse detalhe eu também posso omitir. O céu é rosa.

Viu que eu disse?

É por aí. Assim eu passo o dia discutindo comigo. Outro dia eu estava no trabalho, 110% dedicada a um trabalho que exigia atenção total. Então o telefone da minha mesa tocou. Era o porteiro avisando que duas pessoas estavam querendo me ver na portaria. Ai, que saco, eu não tô no sofá esperando pra receber visitas, eu estou trabalhando, pensei, enquanto me levantava a muitíssimo custo. Ao chegar lá descobri que se tratavam de duas senhoras com uma caixa embrulhada pra presente. Eram chocolates importados, em agradecimento a todo o meu esforço em divulgar o nome da cadelinha de uma delas, que tinha sido levada por um estranho. Mel, a yorkshire, tinha sido devolvida por um ouvinte anônimo e entregue às duas ali na minha frente, que traziam o mais gentil e grato dos sorrisos. Não soube o que dizer, tinha apenas feito o meu trabalho (embora essas questões me toquem verdadeiramente, e talvez eu tenha mesmo dado atenção especial a Mel). Elas agradeceram algumas vezes e se foram, dizendo que não queriam atrapalhar, já que sabiam que eu estava trabalhando.

Imaginem em que estado voltei à minha mesa. Queria deixar de existir. Queria largar tudo ali e correr pra um retiro espiritual, onde deixaria de ser tão estúpida, egoísta e mesquinha. Onde aprenderia a dar valor ao desconhecido, mesmo que ele atrapalhasse meu trabalho no meio da manhã. Queria mais que isso, queria voltar no tempo, e simplesmente reagir de outra maneira ao toque do telefone. Mas… aí vem a outra eu que me diz:

– Calma aí, você é só um ser humano. Como ia adivinhar que era algo assim? Podia ser um chato trazendo um calhamaço de papel de um processo na Justiça que dura 30 anos e que ele quer que você resolva. Isso já aconteceu.
– Sim, poderia, e neste caso se trataria de uma pessoa que estaria precisando de minha ajuda, já que não tinha ninguém mais a recorrer… foi assim da outra vez.
– Podia ser um bêbado que ouviu sua voz na rádio e que queria saber como é sua cara.
– Bobagem. O porteiro não ia me chamar.
– Ele disfarçava bem… Ou podia ser engano, a pessoa queria falar com alguém de outro ramal, e o porteiro foi desleixado em passar pra você. Enfim, você estava se dedicando ao seu trabalho, e tem todo direito de não querer ser interrompida.
– Tem razão, sou só um ser humano, sou ridícula, egoísta, ponto.
– E não vai evoluir nunca não? Passou da hora…

E aí a discussão volta sempre pro início, vira um ciclo e eu nunca me resolvo. E eu vivo assim, no meio de brigas internas que nunca chegam a conclusões satisfatórias. Mas eu tenho algo a confessar. Curiosamente eu gosto disso. Eu fico sempre conversando comigo. O lado ruim desse meu jeito é que eu dificilmente tenho posições firmes sobre as coisas. Porque sempre, tudo na vida tem mais de um lado. Olhando de pontos de vista diferentes, as coisas ficam realmente diferentes. E eu posso ficar sempre mudando de opinião (nem é tão ruim assim, né). O lado bom é que eu quase nunca olho as coisas e as situações de um único ponto de vista. Prefiro observar de mais de ângulo, mesmo que isso me custe horas de debates internos acalorados. Não tô dizendo que isso é bom ou ruim absolutamente. É que pra mim só funciona desse jeito, acabei me adaptando. Sou minha própria “advogada do diabo”.

A velhice e a mocidade

Tem uma brincadeira que eu faço de vez em quando comigo. Pego minha pasta de músicas no computador, fecho os olhos (é, eu sei, tem o modo randômico, mas eu sou meio old-fashion), clico em qualquer uma e ouço. Hoje saiu uma que eu adoro, e é exatamente o que eu estava precisando ouvir. Não só pela mensagem, mas porque eu adoro a sonoridade, é introspectiva, é intensa, reflexiva, linda, acima de tudo linda. Los Hermanos, O Velho e o Moço.

(O Velho)

Deixo tudo assim – Não me importo em ver a idade em mim.
Ouço o que convém, eu gosto é do gasto.
Sei do incômodo, e ela tem razão quando vem dizer que eu preciso, sim, de todo o cuidado.
E se eu fosse o primeiro a voltar pra mudar o que eu fiz, quem então agora eu seria?
Ahh, tanto faz, que o que não foi não é, e eu sei que ainda vou voltar…
Mas eu – quem será?

(O Moço)

Deixo tudo assim, não me acanho em ver vaidade em mim.
Eu digo o que condiz, eu gosto é do estrago.
Sei do escândalo, e eles têm razão quando vêm dizer que eu não sei medir nem tempo e nem medo…
E se eu for o primeiro a prever e poder desistir do que for dar errado?
Ahhh…
Ora, se não sou eu, quem mais vai decidir o que é bom pra mim?
Dispenso a previsão!

Ahhh, se o que eu sou é também o que eu escolhi ser… aceito a condição.

Vou levando assim. Que o acaso é amigo do meu coração.
Quando fala comigo, quando eu sei ouvir…