Só mais um sonho louco

Tive um sonho muito estranho essa noite. De repente eu estava numa despedida com amigas aqui de Salvador, postando fotos nossas no Instagram. E logo depois eu estava desembarcando em Londres, numa viagem que eu faria sozinha. Eu saía do avião e entrava num trem. Começava a fotografar as paisagens do caminho, e já postava algumas no Instagram com legendas do tipo “Há muito tempo eu queria estar aqui. É como se agora finalmente eu pudesse respirar”, e colocava uma foto da paisagem verde e fria europeia. Pouco depois eu me dava conta de que chegaria de surpresa à casa de minha irmã, na França. Eu não tinha dito a ela o dia exato em que viajaria, embora ela soubesse que estava pra ir a qualquer momento.

Mas a surpresa maior foi minha, porque percebi que eu tinha feito uma mochilinha tão simples e básica, que tinha esquecido os casacos de frio, aliás, tudo de frio, e a neve caía em flocos enormes de gelo. E a surpresa não parava aí: eu tinha dinheiro na conta, mas na conta no Brasil, e não levava nenhum cartão de crédito. Ou seja: eu não tinha um euro furado, nehuma libra, nada. Eu que tinha pensando em fazer compras, passear bastante, não poderia fazer nada que quisesse. Ainda assim dei umas voltas em Londres andando, até pegar o outro trem ara a França, e de Paris à Rouen. Eu chegava lá sozinha de noite e apertava a campainha dela. “Surpresa!”

Eu, hein? Eu tenho os sonhos mais loucos…

O país onde os fracos não tem vez

Nesse mundo louco e insano em que a gente vive, somos obrigados a lidar com sentimentos extremamente conflitantes todos os dias. De repente tudo aquilo em que a gente acredita muda de dimensão e nos vemos do lado oposto do que imaginamos ser o certo. Estou dizendo isso porque os últimos fatos e os últimos posts aqui do blog se referem a coisas assim. E hoje tenho uma outra história pra contar, que vai dentro do mesmo raciocínio. Indo trabalhar hoje, ouvi no rádio uma história que me chocou e me fez refletir um bocado.

Na segunda-feira um grupo de manifestantes resolveu fechar uma rodovia em São Paulo. Não vou entrar no assunto das causas do protesto porque aqui isso não é o mais importante. Mas era um grupo de manifestantes daqueles agressivos, muito mais vândalos, até terroristas, do que manifestantes na verdade. Eles tocaram fogo em objetos na rodovia (uma das mais importantes do estado) e depois tocaram fogo em caminhões. Destruíram, simplesmente, o patrimônio de cidadãos que estavam ali a trabalho. Pois bem. Um destes cidadãos escreveu para Ricardo Boechat (BandNews) emocionado. Segundo ele, ele foi o último caminhoneiro que conseguiu passar antes que o grupo bloqueasse completamente a estrada.

A situação é a seguinte: ele tem um caminhão que vale 100 mil reais. E este é o único bem que ele possui. É o caminhão que, embora o faça passar muito tempo longe de sua família, o possibilita ganhar o sustento desta família. É o caminhão que permite que ele ganhe dinheiro para pagar o financiamento de sua casa, há dez anos. É o caminhão que permite que ele pague a faculdade de sua filha, única forma que eles têm de oferecer estudo e uma promessa de futuro para ela e para toda a família. É o caminhão que permite que ele mantenha as contas de sua família em dia. Comprar comida. Pagar impostos. Viver com dignidade. Seu caminhão, que vale 100 mil, não tem seguro. Não há como ele pagar um valor tão alto. Ele aposta tudo e a própria vida na estrada, dias e dias longe de sua casa, para viver. E de repente ele se viu diante de um grupo violento de ‘manifestantes’ que, munidos de paus e tochas, tentavam fazê-lo encostar seu caminhão, seu único e tão precioso patrimônio, para que eles o queimassem, para chamar atenção da mídia ou do governo, para uma causa, qualquer que seja. Outros caminhões já estavam pegando fogo, pouco à frente. Chorando, o motorista desse caminhão disse que pensou no impensável. Ele ia passar com seu caminhão por cima daquelas pessoas. Ou ele entregava seu caminhão, talvez sua vida, e o sustento de toda sua família, ou ele cometeria o ato insano de jogar o caminhão em cima do grupo e torcer para que eles conseguissem escapar a tempo. Ele conta que realmente chorou nessa pequena fração de tempo que teve pra pensar em tudo isso, e seguiu em frente. Por sorte, ou pela providência divina, ele não atingiu ninguém.

Dureza, hein? O Brasil é um país para reflexões complexas, meus caros.

caminhao

A incansável polícia do pensamento

Antes de mais nada quero pedir desculpas pelo tom de desabafo do que vou escrever. Mas é que a única conclusão óbvia depois da repercussão do meu texto anterior é: “estamos fechados à reflexão”. Sinto que as pessoas não se dão “ao luxo” de refletir sobre as coisas, como se parar e pensar a respeito delas fosse amolecer, enfraquecer, ou até “tirar onda de superior com a desgraça dos outros”, como li aqui. Sei que quando escrevo textos como esse abaixo estou sujeita a reações contrárias (graças a Deus, viva a liberdade de pensamento), e vi até respostas interessantes, muito embora nenhuma delas me tenha feito mudar de opinião. Porque mesmo quando alguém diz que a médica precisa pagar pelo seu crime, e que ninguém relativizou a atitude do motorista de ônibus que jogou o veículo sobre um homem e sua irmã e está preso até hoje, eu concordo e não vou de encontro a isso no que escrevi. Fato, ninguém relativizou a atitude do motorista de ônibus. Eu não vou entrar no mérito jornalístico da diferença da cobertura dos dois acontecimentos, critérios de noticiabilidade, teorias da comunicação, nada disso. Nem cabe, não quero “tirar onda de superior”, embora a faculdade de Jornalismo consiga explicar essa diferença, mas não fui eu que criei o jornalismo vigente.

Acontece que eu parei pra pensar sobre o momento que a médica teve, como cidadã, não como jornalista. Ninguém é obrigado a refletir, mas deixem os outros fazerem isso, sem a polícia do pensamento. E lamento muito sempre que vejo alguém reagir a textos como o meu com o mau e velho “queria ver se fosse da sua família”. Você não queria ver. Você não deve ser tão ruim assim. E eu vi o vídeo com atenção, várias vezes. E eu não disse que ela não causou a morte dos dois irmãos, eu disse exatamente, literalmente, o contrário. Minha reflexão é “o que teria levado aquela mulher a ter uma reação tão desenfreada numa briga de trânsito que acabou levando-a a atirar o carro contra uma moto com dois jovens e causar a morte deles”. Será que ela pensou “vou matar esses dois porque eles me irritaram muito”? E por fim, seja qual for a verdade sobre o que aconteceu, nada tira sua responsabilidade, ela deve pagar por isso. Não sei se posso me fazer mais clara, e não me responsabilizo pelo que todos entendem do que eu falo. Me responsabilizo apenas pelo que eu falo.

Por fim, que tristeza e que vergonha pelo que ocorreu em Cachoeira, na Flica, quando cancelaram a mesa de discussão de Demétrio Magnoli e a de Luís Felipe Pondé, porque alguns “manifestantes” acham que eles são reacionários, ou racistas, ou ‘fascistas’, ou bobos, ou feios, ou chatos. Pra mim parece tudo o mesmo tipo idiota e infantil de reação. Então é assim? “Não concordo com o que você diz, e por isso você não tem o direito de dizer”? Em que mundo essas pessoas vivem? As pessoas tem direito a opinião. E tem direito de justificar seus pensamentos. Você pode discordar delas, é legítimo, mas também é legítimo que elas falem. Eles foram convidados pelos organizadores para defender seus pontos de vista, e debater com pontos de vista discordantes, e vieram fazer isso. E aí os policiais do pensamento (com todo respeito aos verdadeiros Policiais) vieram dizer “não, você não pensa como eu, então não pense”. Que vergonha isso ter acontecido na Bahia. Que vergonha e que frustração saber que isso ainda existe. As discussões foram canceladas porque a organização não poderia garantir a integridade física dos convidados, que podiam ser atacados pelos “manifestantes”. Estamos andando pra trás, ou na melhor das hipóteses pros lados, feito um siri perdido no meio de uma partida de futevôlei na praia. Não sabe pra onde vai, com medo do que vem, anda de um lado pro outro, não avança, não sai da ameaça, e no fim acaba enfiado no mesmo buraco de onde saiu.

cerebro-acorrentado

A fúria à espreita

furia

Tenho acompanhado as notícias e pensado muito sobre a tragédia que se abateu sobre Salvador na sexta, dia 11. Uma discussão de trânsito, dois irmãos numa moto, uma mulher num carro. O que se sabe é que ele bateu com as mãos na janela dela pra dizer alguma coisa (ele teria tomado uma fechada dela pouco antes), e o que se vê a seguir é uma perseguição em alta velocidade numa via de baixa velocidade, repleta de carros e pedestres, por volta das 8 da manhã. O carro bate na moto, que voa com os irmãos pro acostamento. O carro perde o controle, bate no gradil. Os irmãos morrem, a mulher, médica, sai ferida.

A partir daí tenho visto e ouvido todo tipo de opinião sobre o assunto. A que mais se repete é a que já julgou e condenou a médica, oftalmologista. É o mais fácil a se fazer. É o mais aliviador. Pelo que dá pra ver nas imagens ela foi atrás, correndo. Mas pra tornar a coisa ainda mais angustiante, as imagens são muito claras, exceto pelo exato momento em que o carro bateria na moto. Há árvores na frente deste pedaço mínimo de espaço, e há quem se pergunte se ela não teria dado um susto, passado perto, e eles teriam perdido o controle da moto. Não creio que isso mude muita coisa, já que o susto acabaria fatal do mesmo jeito. Mas não está claro, não há a evidência definitiva.

Me pergunto o que teria acontecido antes do que se vê nas imagens. Talvez um descuido, desses em que a gente vai mudar de estação e desvia o olhar por uma fração de segundo, fechando os irmãos na moto. Eles, com o susto, teriam ido reclamar da imprudência da motorista. E o que vem depois a gente já sabe. Mas antes ainda do descuido com o rádio, pelo que teria passado essa mulher pra estar em estado tão desesperado de nervos, a ponto de causar um acidente fatal envolvendo dois jovens? Ela que é mãe, mulher, médica, e o que alguns ainda não sabem, voluntária num abrigo para crianças órfãs? Ela esteve nesta casa de caridade regularmente para atender pessoas que não podiam pagar a consulta. Quando não podia mais frequentar ofereceu uma cota de atendimentos gratuitos em sua clínica. Não parece o tipo de pessoa que deliberadamente joga o carro numa manhã com o propósito de matar duas pessoas.

Vejam bem, eu nem de longe quero defender a médica. Não a conheço, nem aos irmãos, não tenho qualquer ligação com qualquer um dos envolvidos. Sei que ela tem culpa, vi o vídeo, não há dúvida de qual foi o desfecho. Mas ao mesmo tempo eu tenho medo dessa simplificação dos fatos, “ela é assassina, vai pra cadeia e estaremos livres dessa louca na nossa sociedade limpinha”. Não, nossa sociedade não é limpinha nem vai ficar livre de nada. Há uma espécie de fúria rondando esse mundo. Parece coisa de TV, Walking Dead, estamos todos infectados por uma doença que nos torna irracionais, e as condições pra que ela domine alguém estão aí todos os dias. Medo, violência, pressa, dinheiro, competição desenfreada, injustiça. Estamos atentos a tudo o tempo inteiro, mais do que isso, estamos neuróticos. Prontos pra reagir a qualquer estímulo.

Eu não consigo simplificar este caso. Não posso sequer tentar imaginar a dor dessa família que perdeu os dois jovens. Nem a dos filhos dessa mulher que não acredito que saia impune desse ato enfurecido e criminoso do qual ela já deve estar desesperadamente arrependida. Que dor generalizada.

Por fim, eu tenho tido a sensação de que as pessoas não estão atrás só de justiça. Elas querem justiça, mas querem também uma vingança. Quem já sofreu algum ato de violência quer a vingança pelo que passou e que ficou impune. Quem nunca sofreu quer aquela vingança preventiva como se a justiça fosse o puxão na orelha do bandido, que o fará desistir de ser bandido, e assim fará sumir a violência do mundo. A gente parece querer uma vingança pela dor que esse fato nos causou a todos. E pelo que toda a violência que estamos assistindo dia a dia nos causa. A médica deve pagar pelo crime que cometeu, mas ela não é a palmatória do mundo.

Nosso problema, infelizmente, não acaba aqui.

Apesar de tudo, a fé

Tenho ido todos os dias dar uma corrida no fim de tarde na orla da Barra. Aproveito o horário mais fresco, o restinho de luz do dia, o bom movimento na rua e vou lá cuidar da vida. Esta semana, numa noite chuvosa, já quando voltava pra casa, passei por um posto de gasolina. Um carro parou, som ligado, não muito alto. Já estava dando 18 horas. Segui em frente. Já ficando pra trás, o rádio ligado do carro começou a tocar a Ave Maria. Segui andando. Logo à frente, sentado num ponto de ônibus, um homem visivelmente muito pobre que parecia morar naquele abrigo, enrolado num cobertor de lã que não chegava nem a cobrir os joelhos, fez o sinal da cruz, juntou as mãos e abaixou a cabeça ao ouvir a música. Ele estava sozinho, não estava fazendo cena pra sensibilizar ninguém.

Ele não tinha nada, mas não perdeu a fé. Desde então penso nele e na sua inabalável crença em Deus. Resolvi compartilhar, talvez possa inspirar a reflexão de mais alguém.

Pitaco sobre o egocentrismo alheio

Das habilidades que eu tenho, observar ainda é uma das que faço melhor (parafraseando Saramago, que diz que “das habilidades que o mundo tem, dar voltas ainda é a que faz melhor”, grande verdade). E uma coisa que venho observando nas pessoas é como muitas são personalistas. Egocêntricas, acham que o mundo gira ao redor delas. Tudo que falam é sobre elas. O que elas pensam, contam coisas pelas quais passaram, querem impôr suas opiniões pessoais como se fossem as únicas aceitáveis, acham que suas necessidades se sobrepõem às dos outros, acham que suas experiências são as mais marcantes, elas sabem de tudo, elas conseguem tudo, e se não conseguem colocam a culpa nos outros. Elas não ouvem você: simplesmente esperam você acabar de falar pra voltar a falar de si. E se frustram se você não fizer cara de “meu Deus, a sua vida é tão interessante”. São muito, muito, muito chatas pessoas assim.

Eu faço uma conexão disso com o tempo em que a gente vive hoje. É tanta exposição, tanto Facebook, tanto twitter, tanto Google+, tanta rede social, tanto reality show, que vivemos nessa era de “preciso mostrar quem eu sou, falar de mim, contar meus casos, preciso de audiência”. Freud explica. Tenho certeza que explica. Isso não passa de carência afetiva. Pode ver no Facebook, que hoje é a mais democrática das redes sociais. Dê uma olhada em sua timeline agora. Vai ver quantas pessoas estão fazendo da rede um diário. Contando seus problemas, dando indiretas, exibindo seus pontos fortes em fotos bonitas, frases de impacto, opiniões incendiárias e expondo assim, sua maior fraqueza: essa carência toda. E essa falta de habilidade de debater coisas, ideias, assuntos, sempre caindo na mesmice do “eu, eu, eu”, e sempre despejando suas opiniões formadas, inflexíveis, incapazes de refletir, processar, discutir e, quem sabe, mudar de opinião. Elas não tem opinião. Tem dogmas, verdades absolutas, tiradas não sei de onde. Uma notícia pra vocês: isso é muito chato. Comecem a pensar nisso. Saiam da pauta de vez em quando pra ver se os outros se interessam realmente em trocar ideias com vocês.

E aí, pra fechar, vou deixar o link de uma matéria muito fofa sobre um livro, indicada por minha amiga Letícia, que viu no Facebook de nosso amigo Pedro (o Facebook tem lá sua utilidade). Nesse livro, crianças dão definições sobre as coisas, como uma espécie de dicionário criado por elas. Elas dizem o que significam algumas palavras. Por exemplo (olha como calhou com o assunto do dia): “adulto: pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro dela mesma”. Hum… sábia definição.

Mas a melhor de todas é sobre Deus: “Deus é o amor com cabelo grande e poderes”. Podia ser mais certo?

Leiam, é bonito demais –> Aqui.

Entre tarrafas, cancelas e cavalos

Ele cheirava minha cabeça, pegava em minha mão com muita firmeza, sorria pra mim com cada pedacinho de seu rosto. Lembro como se estivesse acontecendo agora: ele sentado na sala de sua casa, de frente pra janela, a tarrafa pendurada e ele lá, com sua agulha, tecendo sua rede, sério, compenetrado. Do seu bolso sempre dava pra ver a pontinha de um lápis, não um lápis qualquer. Um larguinho, geralmente já estava curto, lápis de profissional. Ele seguia pro quintal, eu ia atrás, miúda, curiosa pra saber o que ele ia fazer. Ele sabia. Seguia sem olhar pra trás, acho que com medo de me espantar. Ele abria a porta da cozinha, deixava aberta. Eu ia. Andava pelos tonéis de água lá do fundo da casa, passava pelos cágados com os quais minha avó conversava, seguia. Lá adiante abria a porta do quintal, deixava aberta. Eu entrava, olho arregalado. Lá ele arrumava um banquinho pra mim, sentava no dele, me olhava com aquela cara séria e depois abria um sorrisinho tão lindo. Começava a traçar a madeira, simples pedaços de pau que mais tarde virariam cancelas firmes e imponentes, todas já vendidas aos fazendeiros da região. A gente sentava lá com cuidado. Tinha serrote, tinha facão, prego, madeiras com farpas doidas pra achar o dedo de uma menina. Por isso ele tinha cuidado e às vezes era ríspido. “Vão brincar lá fora, que aqui não é lugar de brinquedo”. Mas isso depois de encantar a gente com todo aquele aparato. Meu avô fazia tudo isso. E quando fazia aniversário ele queria samba. Na roça, muita gente, samba varava a noite, ele era o rei. Meu avô gostava de beiju no café, pão no café, café puro. Gostava de tomar uma fresca na porta com minha avó. Os dois foram feitos um para o outro, disso nunca tive dúvida. Quando ela se foi, meu avô colocou um pano sobre o rosto e deixou lá por não sei quanto tempo. “Bem que o padre disse ‘que só a morte os separe’”. Lembro dele ter dito isso no dia da morte dela. Ainda viveu alguns anos depois disso. Faltava um mês pra completar 103 quando se foi, no dia 06 de maio deste ano. Ela tinha ido no dia 08 de maio de 2006. Sete anos os separaram. Saudade tava grande, né, vô?

Se houver merecimento envolvido no que quer que haja depois da morte, se algo houver, no que eu acredito, ele está no melhor lugar que eles tem lá. E lá foi bem recebido por ela.

Era um homem de sua roça, de sua casa, gostava de fazer as coisas sozinho. Quando vinha a Salvador por algum motivo, dava dó vê-lo no sofá de casa, olhando pra janela feito passarinho preso na gaiola. Nunca ficava mais do que o tempo necessário pra resolver tudo, já queria voltar pra sua vida. Amava sua família, adorava as pessoas, confiava nelas mais do que todo mundo. De quem a gente desconfiava, ele dava ainda mais uns três votos de confiança. Há quem diga que ele era ingênuo. Ele preferia pensar que as pessoas mereciam sua fé, vai saber. Quem quer que o tenha conhecido, se encantou por ele. Colecionou afeto de muita gente em cima desse mundo. E admiração. Dizem (e eu acredito em quem me disse, né, meu pai!) que quem o viu montado em seu cavalo “Osado” nunca mais viu nada igual na história desse sertão. Acho que não existem muitas pessoas no mundo com tanta retidão de caráter, tanta consciência de suas responsabilidades, tanto cumprimento de suas missões, e tanta, mas tanta doçura naquele olhar. Meu avô não era deste mundo.

Não era não.

Ele, em seu reino.

Ele, em seu reino.

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