Entre tarrafas, cancelas e cavalos

Ele cheirava minha cabeça, pegava em minha mão com muita firmeza, sorria pra mim com cada pedacinho de seu rosto. Lembro como se estivesse acontecendo agora: ele sentado na sala de sua casa, de frente pra janela, a tarrafa pendurada e ele lá, com sua agulha, tecendo sua rede, sério, compenetrado. Do seu bolso sempre dava pra ver a pontinha de um lápis, não um lápis qualquer. Um larguinho, geralmente já estava curto, lápis de profissional. Ele seguia pro quintal, eu ia atrás, miúda, curiosa pra saber o que ele ia fazer. Ele sabia. Seguia sem olhar pra trás, acho que com medo de me espantar. Ele abria a porta da cozinha, deixava aberta. Eu ia. Andava pelos tonéis de água lá do fundo da casa, passava pelos cágados com os quais minha avó conversava, seguia. Lá adiante abria a porta do quintal, deixava aberta. Eu entrava, olho arregalado. Lá ele arrumava um banquinho pra mim, sentava no dele, me olhava com aquela cara séria e depois abria um sorrisinho tão lindo. Começava a traçar a madeira, simples pedaços de pau que mais tarde virariam cancelas firmes e imponentes, todas já vendidas aos fazendeiros da região. A gente sentava lá com cuidado. Tinha serrote, tinha facão, prego, madeiras com farpas doidas pra achar o dedo de uma menina. Por isso ele tinha cuidado e às vezes era ríspido. “Vão brincar lá fora, que aqui não é lugar de brinquedo”. Mas isso depois de encantar a gente com todo aquele aparato. Meu avô fazia tudo isso. E quando fazia aniversário ele queria samba. Na roça, muita gente, samba varava a noite, ele era o rei. Meu avô gostava de beiju no café, pão no café, café puro. Gostava de tomar uma fresca na porta com minha avó. Os dois foram feitos um para o outro, disso nunca tive dúvida. Quando ela se foi, meu avô colocou um pano sobre o rosto e deixou lá por não sei quanto tempo. “Bem que o padre disse ‘que só a morte os separe'”. Lembro dele ter dito isso no dia da morte dela. Ainda viveu alguns anos depois disso. Faltava um mês pra completar 103 quando se foi, no dia 06 de maio deste ano. Ela tinha ido no dia 08 de maio de 2006. Sete anos os separaram. Saudade tava grande, né, vô?

Se houver merecimento envolvido no que quer que haja depois da morte, se algo houver, no que eu acredito, ele está no melhor lugar que eles tem lá. E lá foi bem recebido por ela.

Era um homem de sua roça, de sua casa, gostava de fazer as coisas sozinho. Quando vinha a Salvador por algum motivo, dava dó vê-lo no sofá de casa, olhando pra janela feito passarinho preso na gaiola. Nunca ficava mais do que o tempo necessário pra resolver tudo, já queria voltar pra sua vida. Amava sua família, adorava as pessoas, confiava nelas mais do que todo mundo. De quem a gente desconfiava, ele dava ainda mais uns três votos de confiança. Há quem diga que ele era ingênuo. Ele preferia pensar que as pessoas mereciam sua fé, vai saber. Quem quer que o tenha conhecido, se encantou por ele. Colecionou afeto de muita gente em cima desse mundo. E admiração. Dizem (e eu acredito em quem me disse, né, meu pai!) que quem o viu montado em seu cavalo “Osado” nunca mais viu nada igual na história desse sertão. Acho que não existem muitas pessoas no mundo com tanta retidão de caráter, tanta consciência de suas responsabilidades, tanto cumprimento de suas missões, e tanta, mas tanta doçura naquele olhar. Meu avô não era deste mundo.

Não era não.

Ele, em seu reino.

Ele, em seu reino.

21 responses to this post.

  1. Seu “Olavo”, conterrâneo e amigo de meu avô, que continue em paz. Riachão do Jacuípe fica saudoso com sua partida. Fiquei feliz em saber que uma grande admirável repórter tem raízes lá em Riachão.

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    • Posted by nardele on 16 de Maio de 2013 at 18:31

      Oh Maurício, obrigada. Era Seu Otávio. Ele recebeu muito carinho de Riachão em sua despedida. E não seria diferente, né? Um beijo pra você.

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      • Seu Otavio…
        No dia de seu velório eu tava ouvindo a metrópole e estranhei Camila apresentando o jornal da manhã e, de repente, ela informou que vc estava ausente em razão do falecimento de seuvô… Daí falou que o sepultamento era em Riachão. Ai peguei o cel liguei pra meu pai, que me disse quem era… Enfim… Ele esta ao lado de sua avó…
        E vc, muito parabéns pelo trabalho que exerce. Feliz por saber que vc tem raízes lá em Riachão, que é minha terá natal.

      • Posted by wodson luis on 17 de Maio de 2013 at 23:10

        Boa cidade, bom Homem, sem comentários.

  2. Por seu relato eu já gosto do seu avô como se tivesse visto ao vivo e batido um longo papo com ele. =)

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  3. Posted by Tiago tico on 16 de Maio de 2013 at 19:05

    Lembrei do meu vô agora. Sinto tantas saudades. Te amo, Ná!

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  4. Posted by Clara Isabel on 16 de Maio de 2013 at 19:27

    Lindo texto, lindo avô!
    Feliz de quem conhece os que te antecedem e podem conviver com eles!
    Que esteja em paz com sua vó, guardando todos vocês por aqui!

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  5. Que preciosidade!!!
    Lendo seu texto, senti muita saudade do que não tive oportunidade de viver… só conheci minhas avós, porém, não tive convivência.
    Flor, tenha certeza que agora ele está em um caminho de luz e paz.
    Parabéns pelo belo texto!

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  6. Posted by José Pinto on 16 de Maio de 2013 at 20:23

    O seu texto tem o mesmo viés do de seu pai, Nardele. Parabéns!

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  7. Posted by Ana Paula on 16 de Maio de 2013 at 20:55

    Eu o conheci, e era assim mesmo como vc escreveu. Saudades. Ele com certeza está em paz e bem acompanhado com D.Capitulina e Carmozina.

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  8. Posted by Joselito Crispim dos Santos de Assis on 16 de Maio de 2013 at 21:00

    Parabéns por ter sido abençoada e recebida neste mundo por uma pessoa tão boa, viva a família e aos vovôs rsrs, eu também sou um e quero tanto que minha neta se orgulhe disso.

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  9. Lindo amiga. Emocionante. Quase consigo ver seu avô através de você. Ele foi pra o outro lado encontrar sua vó orgulhoso. Os dois devem tá comentando: Olhe que netinha danada a gente deixou pra cumprir nossa missão. Correta, firme e doce. Aposto que ele dizendo isso! =*

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  10. Posted by Marlene Gomes on 16 de Maio de 2013 at 21:31

    Ponho-me a meditar o que diz Nardele sobre seu avô, meu Pai. Sei, perfeitamente, que tudo isso inda diz pouco. Deus foi sempre tão generoso comigo que, depois de uma longa vivência na companhia de Papai é que ele o convidou para sua beira. As meninas amam ele porque foram por ele amadas. Como, aliás, acontece com todas as netas. Não sei se os Espíritas permitem, mas acho que papai adorou esse texto de Nardele. Eu me segurei pra não molhar o teclado, confesso…coisas de filho que perde o que perdi, recente. Quanto comentário lindo!
    Oh, Senhor! …”Será que eu deliro ou é verdade” (Raimundo)

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  11. Posted by Marlene Gomes on 16 de Maio de 2013 at 21:59

    Oi Delinha,
    Não me surpreendi em nada sobre o que escreveu, a verdade foi dita por quem conheceu, seu vô filha, era isso mesmo, essa pessoa do bem, meiga, carismática, alegre e muito mais. continuo o amando para sempre. Papai do Céu o recebeu pra fazer companhia a sua vó como você mesma disse, ela estava saudosa, outra pessoa fantástica, assim como ele. Um beijão.

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  12. Posted by Fernanda on 16 de Maio de 2013 at 22:49

    Nardele, não conheci o meu avô materno e tenho pouquíssimas oportunidades de estar com o meu avô paterno. Com isso, nunca soube o que era ter um avô. Mas confesso, meus olhos se encheram de lágrimas ao ler o seu texto. Foi como se eu os tivesse, foi como se eu tivesse parecidas lembranças (do que jamais vivi). Obrigada por me proporcionar este sentimento. Por bons minutos senti o que é realmente ter um avô. Da sua ouvinte de todas as manhãs, Fernanda.

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  13. Posted by Maní on 17 de Maio de 2013 at 9:35

    Linda homenagem!!

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  14. Posted by Marlene Gomes on 17 de Maio de 2013 at 14:31

    Oh, como tenho pena quando morre um sambador, um amansador de brabo, um valente vaqueiro, um destemido tropeiro, um tocador de viola, um caçador de Onça comedeira de burrego, um trovador de alpendre fazendo tiranas flechando políticos de caráter “meia coronha”. Isso só se pode encontrar –Nas brenhas da caatinga!
    (Rdo.)

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  15. Posted by Luciane Gomes on 17 de Maio de 2013 at 14:33

    Déle, realmente vô era td isso. Lembro uma vez na porta da casa de tia Maria Luiza, quando descansava na sombra de uma arvore com um pensamento longe, ele chegou ao meu lado cheirou meu cabelo e me perguntou “precisa de alguma coisa”? . Me senti tão feliz com esse gesto que respondi, desse cheiro gostoso.rsrsrsrsrsr
    Muitas saudades dele, mas com a certeza que um dia nos encontraremos.
    Bjim e parabéns pela homenagem a este HOMEM que com certeza é a base da nossa familia.

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  16. Posted by wodson luis on 17 de Maio de 2013 at 23:11

    Muito sentimento, coisas do sertão.

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