Archive for 24 de Abril, 2017

Não somos atletas da sobrevivência

Assisti hoje o capítulo final de “13 Reasons Why”. Eu estou tão impactada, que aí vão dois alertas. O óbvio spoiler sobre o final dessa história (ainda que todo mundo já saiba), e um inevitável alto teor de tristeza nas minhas palavras. Desculpem.

Eu não fui capaz de manter os olhos totalmente abertos na cena em que aquela menina corta os pulsos. Mas ouvi seu desespero ao ver que o sangue estava jorrando pra fora de seu braço esquerdo, embora fosse esse o plano. Ver é diferente. E vi que ela, ainda que chorando e muito nervosa, ainda cortou o outro. E esperou que toda a vida saísse de dentro dela, porque era melhor isso do que continuar dormindo e acordando todos os dias. Do que continuar vivendo. Do que encarar suas próprias escolhas e sua fraqueza, e a indiferença, e o medo, a angústia, a rejeição, a sua própria inabilidade. Que tristeza ainda maior foi ver sua mãe entrar no banheiro e ver a banheira cheia de sangue e sua menina inerte. E quando o pai dela chegou, achei que ia desmaiar quando ouvi sua mãe dizer “ela está bem”, só porque não dava pra conceber a morte de sua filha. Eu avisei. Há tristeza demais nesse texto. Publico porque foi o que eu senti, e eu registro aqui o que eu sinto, mas muito provavelmente ninguém nem deveria ler. É só um monte de tristeza traduzida.

Mas em algum momento nós vamos ter que falar sobre bullying. Seriamente. Bullying não é apenas ser chamado de quatro olhos, vara pau, rolha de poço, vagabunda, bizarro. Não é apenas isolar alguém, rir de alguém, maltratar alguém. Não é apenas ter um bode expiatório de estimação. É tudo isso. É mais do que isso. “Todo mundo passou por isso na infância e sobreviveu”. Não, nem todo mundo sobreviveu. Alguns não.

A minha primeira pergunta – e aí vão muitas – é: quando é que vamos amadurecer? Quando vamos acreditar que é preciso viver, e não sobreviver? Quando iremos sair do raso e dar um passo à frente em direção ao ser humano melhor que precisamos ser? Há outros no mundo, ninguém está só. Não estamos competindo uns com os outros o tempo inteiro. Não somos atletas da sobrevivência. Não há medalhas para os melhores seres humanos do mundo, mas também não há para os que conseguem provar que os outros são piores. Não há estudos provando que diminuir os outros nos faz sentir melhores.

Quando vamos aprender? E principalmente, quando vamos começar a ensinar isso ao outro? Aos nossos filhos? Aos nossos amigos, quando o vimos rebaixar alguém, ou humilhar, na presença ou na ausência? Quando vamos discordar, sob pena de parecermos sem graça, ou desmancha prazeres? Quando vamos aceitar a diferença? Melhor ainda, quando vamos entender que não temos que aceitar as diferenças, porque elas não existem para serem aceitas ou rejeitadas por ninguém? E sim para nos tornar humanos, porque humanos são diferentes? Quando vamos parar de assustar as pessoas com a maldade que está sim, dentro de nós? Quando vamos assumir essa maldade?

Desculpem. Trago muita angústia, muitas perguntas, nenhuma resposta e uma visão meio sombria de tudo isso. Eu avisei. Tem muita melancolia aqui. Estou impactada pelo que acabei de ver, achei mesmo que fosse vomitar, ou desmaiar. Confesso que a série toda é até um pouco arrastada. Mas o final foi muito doloroso de ver, assim como foi doloroso perceber, em cada cena, a indiferença construindo uma tristeza tão irreversível naquela menina, que a levou à terrível decisão final. É duro assistir a morte. Ainda mais quando alguém decide se matar. Jamais compreenderei. Nunca cheguei a uma conclusão sobre o suicídio, se seria muita covardia ou muita coragem, acho que os dois. Na medida errada de cada uma dessas duas coisas. Mas precisamos tentar enxergar nossa culpa diante do suicídio de alguém. Acho que o mundo inteiro tem culpa quando alguém resolve se matar. Não cada um de nós como indivíduos, mas nós como sociedade. Falhamos com aquela pessoa. Sei lá. Mas vamos ter que rever a forma como educamos os nossos filhos. Como interagimos uns com os outros. Não estou sonhando com o mundo ideal. Talvez eu seja sonhadora, mas não sou a única. Eu tenho uma grande oportunidade de fazer algo, minha filha. Estou acumulando clichês nesse fim de texto, já percebi também. Mas tudo bem, a essa altura só eu mesma estou acompanhando minhas próprias palavras carregadas de melancolia.

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