Um café meio amargo

Esse será um texto sobre coragem. Especialmente sobre a minha em escrevê-lo. Passei muito tempo pensando em dizer essas coisas, mas só agora veio a determinação. Essas coisas a gente não pode ignorar. Vamos lá.

Por motivos óbvios, não dá pra falar sobre todas as mudanças que acontecem na vida de uma mulher que engravida. Nem vocês dispõem do tempo suficiente pra ler, nem eu pra escrever. Mas hoje eu preciso falar de mudanças que não aconteceram no meu corpo, hormônios, diâmetro da cintura, humor. O assunto hoje são os meus amigos. E este é assunto delicado, e eu preciso pedir licença àqueles que eu não conheço, pra tratar de um assunto pessoal, e que sei que não gera interesse em todos. Desculpem.

Amigos, onde vocês andam se reunindo ultimamente? Olhem que loucura, eu engravidei! Lembram de todas as vezes que sonhávamos em quando tivéssemos filhos? Quem seria o padrinho do filho de quem, quem ensinaria o que a quem? Eu engravidei. E passei os nove meses mais loucos e mágicos da minha vida sem muitos de vocês. Quem diria, eu consegui. Claro que eu não consegui sozinha. Havia muita gente ao meu lado, o que seria de mim sem todos eles (eles sabem quem são!). Mas vocês não estavam. Não me viram enjoar com cheiro de hidratante, nem com o balanço do carro uma da tarde. Não ouviram meu mau humor quando minhas costelas pareciam ter quebrado todas no sexto mês, uma a uma, e eu não conseguia entrar no carro, ficar sentada, deitada ou em pé e não dormi duas noites seguidas de tanto chorar de dor. Não furaram filas comigo – descobri que as pessoas são gentis com grávidas (e porque temos prioridades mil durante a gravidez). Não souberam como eu superei toda a minha vida de medo do parto (e se eu desmaiar?) e fui a mulher mais corajosa do mundo enquanto passavam uma faca em sete camadas da minha pele. E meu bebê saiu de lá de dentro. Meu estômago queimava horrores. Lembro de cada segundo…

Vejam, isto não é uma briga, embora pareça. Eu apenas estava reorganizando umas coisas na minha cabeça que anda carente de organização (falta tempo) e decidi que precisava falar sobre isso, pra guardar o que precisa ser guardado e abrir espaço.

Quando minha filha nasceu, eu recebi algumas visitas. Eu me preparei pra muitas visitas sem noção, que viriam em horas erradas, que ficariam mais tempo do que o desejado. Não lembro de ter tido nenhuma dessas, ainda bem. Aliás, “esperava mais de você, Batman”. Aproveito pra deixar uma dica: quando forem visitar bebê e pais recém-nascidos, lavem os pratos deles. Se a pia estiver limpa, ofereça ajuda com a casa. Mas chegue de mangas arregaçadas. Eles vão precisar mais disso do que de bibelôs.

Eu nunca fui a amiga mais presente. Aquela que liga toda semana pra bater papo, rir das mesmas piadas. Confesso até que conversar ao telefone é algo que eu evito. Não gosto. Também não sou a que mais aparece nas festas. Mas tento estar à disposição dos amigos quando precisam. Dou minhas mancadas de vez em quando, quem não. Mas eu engravidei. Eu pari. Vocês se chocariam se soubessem como é minha rotina. Se soubessem as coisas que aprendi a fazer. Como eu chorei nos primeiros meses de minha filha. Rios.

Hoje eu peguei uma chave de fenda e abaixei o estrado do berço dela. Sozinha. Não é muito, mas pra mim foi a liberação de um alvará. “Eu posso fazer tudo”. E eu continuo fazendo coisas que só Deus sabe, porque só pode ser intervenção Dele o tanto de coisa que uma mãe consegue fazer. Toda a preguiça que sempre tomou conta de meu corpo e pensamento precisou arrumar outro endereço, porque (hoje eu te entendo, mãe) eu simplesmente aproveito o tempo de uma forma quase ninja.

Enquanto isso, eu acompanho de longe as vidas de vocês. De longe mesmo, parecem estar em outro planeta. São tão distantes as nossas realidades… Poderiam ser mais próximas, ainda que bem diferentes. Eu sinto falta. Senti mais, acho que me adaptei, como acontece com tudo.

No fim das contas, acho que romanceamos demais a vida. E quando ela, a vida, acontece, receba. O que parece um texto amargurado, não é. Na verdade estou sentindo uma coisa boa, um alívio. Não é raiva, muito menos rancor – Deus me livre, nunca sofri desse mal. É alívio. Hoje eu vivo um milagre a cada dia (tinha que ter pieguice nessa história). Minha filha me expandiu de uma forma absurda. Eu não sabia de nada. Hoje eu sou maior do que jamais imaginei, e tenho a impressão de que sou mãe de todo mundo.

Essa é uma conversa longa… Mas parece que esse café ficou pra depois. Quem sabe um dia. Vamos marcar.

4 responses to this post.

  1. Delinha, belíssimo texto! Ah, você ainda vai se surpreender com o tanto de coisas novas que fará. as vezes não será da forma como planejamos, mas tudo faz parte do nosso aprendizado como mãe e como ser humano!. Beijo grande no seu coração.

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  2. Posted by Tiago on 14 de Março de 2016 at 17:50

    Belo texto, Ná! Fiquei me perguntando onde eu estive que não pude separar um tempinho pra passar e te ver! Logo você que foi a única grávida que me fez chorar no momento que eu descobri!
    De qualquer forma, valeu demais ler suas palavras! Você é puro amor!
    Te amo!

    Responder

  3. O texto foi ótimo, mas eu sou obrigado a perguntar: vai ficar mais de um ano sem postar novamente?

    Responder

  4. Te entendo! E muito! Beijos

    Responder

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