Somos todos café-com-leite

“O Nordeste é uma bosta”, “por que nordestino é engraçado?”, “estamos jogando numa selva”. Bastou Eduardo Bueno dizer a primeira frase, um repórter esportivo perguntar a Hulk a segunda e um jogador inglês que estava em Manaus dizer a terceira e de repente os exércitos se formaram. Quem são esses caras que disseram isso? Como foi o contexto dessas falas? O que foi, realmente, que eles quiseram dizer? Os exércitos desconhecem qualquer uma das respostas a essas perguntas. Eles nem sequer se perguntam nada disso.

O primeiro é Eduardo Bueno, Peninha. Jornalista e escritor, autor de mais de 30 livros, inclusive – e principalmente – sobre a história do Brasil. Ele participa do programa “Extraordinários”, do canal SporTV, juto com Paulo Miklos, Xico Sá, Claudio Manoel e outros. Um programa opinativo, com toque de humor ácido.

Separaram um vídeo de 20 SE-GUN-DOS em que ele fala dos holandeses, do refino do açúcar no Brasil “na área rica do Brasil, aquela bosta do Nordeste”, diz que é uma piada, que ama o Nordeste e que o Rio Grande do Sul – estado onde nasceu – é no “sul do mundo”. Bastou. A fúria do exército se alastrou feito fogo em rastilho de pólvora. Tem petição pública pedindo instauração de processo criminal, demissão do jornalista, tem gente dizendo que a bosta é ele, que “nem devia ter nascido”, que “tem mais é que morrer”, e o que não pode faltar, o mais digno dos argumentos: “viadinho de merda”.

Numa coletiva depois de um jogo um repórter pergunta a Hulk por que os nordestinos são tão engraçados. Principalmente os cearenses. Seria o sotaque? Lá vai a polícia em cima dele. “Odeia os nordestinos! Esse povo sofrido! Quer mais que a gente morra!” Será que essa polícia não parou pra imaginar que ele talvez quisesse dizer ‘divertido’, em vez de engraçado? “Ah, mas ele disse engraçado.” Verdade. Inadmissível. Esquece Chico Anysio, Renato Aragão e Tom Cavalcanti e chama o carrasco pra matar logo esse cabra.

O goleiro da seleção inglesa, Joe Hart, nascido no Reino Unido, disse também em entrevista: “Vamos jogar no meio da selva. É tudo muito diferente, interessante.” Selva??? Como assim? Chamou os brasileiros de selvagens! Chama o carrasco!

Sempre fomos assim tão melindrosos e reacionários com as falas alheias ou adquirimos essa bobagem recentemente? Me pergunto quando é que nos tornamos gente tão café-com-leite que não consegue ouvir um palavrão, ou opinião diferente direcionada a nós. Tive a oportunidade de entrevistar Peninha ontem na Rádio Metrópole e só confirmei o que já achava: existe um contexto por trás dos 20 segundos que aparecem no tal vídeo. Isso deveria ser óbvio, mas o exército precisa se organizar, não tem tempo pra “procurar saber”.

“O Nordeste é uma bosta porque o Brasil é uma bosta. O Brasil é uma bosta porque o mundo é uma bosta, porque a humanidade é uma bosta. O Nordeste é uma bosta sim, por uma série de razões históricas, econômicas e sociais que a gente tem que lutar pra mudar. Especialmente aqueles que nem eu, que amam e conhecem o Nordeste”, foi o que o grande monstro comedor de criança disse. Alguém aí acha que o mundo é só uma maravilha? Existem coisas maravilhosas no mundo. Na humanidade. No Brasil e no Nordeste. Mas existe toda uma grande merda em tudo isso também. A humanidade quando quer é egoísta, violenta, ignorante, burra. O mundo também. Assim como o Brasil e no Nordeste há miséria, injustiça, uma corrupção crônica, inclusive do pequeno corrupto que nunca enxerga seu próprio desvio. Assim como no Norte, Sul, Leste e Oeste. Escola pra todo mundo: tem? Remédio e médico: tem? Casa e justiça: tem? Não tem. E isto é uma grande bosta. Mas cuidado quando for dizer, é melhor usar palavras doces pra falar dessa merda toda. Ops.

O repórter teve que se desculpar publicamente e dizer o óbvio: ele não quis ofender, talvez tenha trocado engraçado por divertido, e tem muito respeito pelo Nordeste e por Hulk. O goleiro na verdade se mostrou até muito animado em conhecer a cidade de Manaus e disse estar preparado para a umidade. Aqueles que brincam com o Norte, dizendo que o Acre nem existe, esqueceram das vezes que fizeram a velha piada. Piada na nossa boca santa é refresco. Na dos outros é sacrilégio.

Esse coitadismo e vitimização me incomodam muito. “Não tem mais espaço pra esse tipo de pensamento hoje em dia, tem que ter mais cautela”. Como não tem? Tem que ter. Ou então vamos todos entrar numa máquina que nos torne todos iguais e aí ninguém mais estranha a fala do outro, o modo de vestir do outro, a cor do outro, a maluquice do outro. O pensamento é livre. E os argumentos, me desculpem, estão poucos e burros demais.

cafecomleite

2 responses to this post.

  1. Excelente Nardele!

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