O país onde os fracos não tem vez

Nesse mundo louco e insano em que a gente vive, somos obrigados a lidar com sentimentos extremamente conflitantes todos os dias. De repente tudo aquilo em que a gente acredita muda de dimensão e nos vemos do lado oposto do que imaginamos ser o certo. Estou dizendo isso porque os últimos fatos e os últimos posts aqui do blog se referem a coisas assim. E hoje tenho uma outra história pra contar, que vai dentro do mesmo raciocínio. Indo trabalhar hoje, ouvi no rádio uma história que me chocou e me fez refletir um bocado.

Na segunda-feira um grupo de manifestantes resolveu fechar uma rodovia em São Paulo. Não vou entrar no assunto das causas do protesto porque aqui isso não é o mais importante. Mas era um grupo de manifestantes daqueles agressivos, muito mais vândalos, até terroristas, do que manifestantes na verdade. Eles tocaram fogo em objetos na rodovia (uma das mais importantes do estado) e depois tocaram fogo em caminhões. Destruíram, simplesmente, o patrimônio de cidadãos que estavam ali a trabalho. Pois bem. Um destes cidadãos escreveu para Ricardo Boechat (BandNews) emocionado. Segundo ele, ele foi o último caminhoneiro que conseguiu passar antes que o grupo bloqueasse completamente a estrada.

A situação é a seguinte: ele tem um caminhão que vale 100 mil reais. E este é o único bem que ele possui. É o caminhão que, embora o faça passar muito tempo longe de sua família, o possibilita ganhar o sustento desta família. É o caminhão que permite que ele ganhe dinheiro para pagar o financiamento de sua casa, há dez anos. É o caminhão que permite que ele pague a faculdade de sua filha, única forma que eles têm de oferecer estudo e uma promessa de futuro para ela e para toda a família. É o caminhão que permite que ele mantenha as contas de sua família em dia. Comprar comida. Pagar impostos. Viver com dignidade. Seu caminhão, que vale 100 mil, não tem seguro. Não há como ele pagar um valor tão alto. Ele aposta tudo e a própria vida na estrada, dias e dias longe de sua casa, para viver. E de repente ele se viu diante de um grupo violento de ‘manifestantes’ que, munidos de paus e tochas, tentavam fazê-lo encostar seu caminhão, seu único e tão precioso patrimônio, para que eles o queimassem, para chamar atenção da mídia ou do governo, para uma causa, qualquer que seja. Outros caminhões já estavam pegando fogo, pouco à frente. Chorando, o motorista desse caminhão disse que pensou no impensável. Ele ia passar com seu caminhão por cima daquelas pessoas. Ou ele entregava seu caminhão, talvez sua vida, e o sustento de toda sua família, ou ele cometeria o ato insano de jogar o caminhão em cima do grupo e torcer para que eles conseguissem escapar a tempo. Ele conta que realmente chorou nessa pequena fração de tempo que teve pra pensar em tudo isso, e seguiu em frente. Por sorte, ou pela providência divina, ele não atingiu ninguém.

Dureza, hein? O Brasil é um país para reflexões complexas, meus caros.

caminhao

One response to this post.

  1. Posted by Raimundo gomes on 30 de Outubro de 2013 at 19:36

    É, senhores! Atentemos bem para o que foi falado acima!
    E olhe que não foi dito como matéria jornalística. Foi um chamamento para reflexões profundas. Ainda há quem diga que a voz do povo é a voz de Deus!
    Seria a hora de plagiar o mestre Castro Alves: –“Senhor Deus dos desgraçados, dizei-me vós, senhor Deus. Se eu deliro ou se é verdade – tanto horror perante os Céus!!!

    Responder

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