A incansável polícia do pensamento

Antes de mais nada quero pedir desculpas pelo tom de desabafo do que vou escrever. Mas é que a única conclusão óbvia depois da repercussão do meu texto anterior é: “estamos fechados à reflexão”. Sinto que as pessoas não se dão “ao luxo” de refletir sobre as coisas, como se parar e pensar a respeito delas fosse amolecer, enfraquecer, ou até “tirar onda de superior com a desgraça dos outros”, como li aqui. Sei que quando escrevo textos como esse abaixo estou sujeita a reações contrárias (graças a Deus, viva a liberdade de pensamento), e vi até respostas interessantes, muito embora nenhuma delas me tenha feito mudar de opinião. Porque mesmo quando alguém diz que a médica precisa pagar pelo seu crime, e que ninguém relativizou a atitude do motorista de ônibus que jogou o veículo sobre um homem e sua irmã e está preso até hoje, eu concordo e não vou de encontro a isso no que escrevi. Fato, ninguém relativizou a atitude do motorista de ônibus. Eu não vou entrar no mérito jornalístico da diferença da cobertura dos dois acontecimentos, critérios de noticiabilidade, teorias da comunicação, nada disso. Nem cabe, não quero “tirar onda de superior”, embora a faculdade de Jornalismo consiga explicar essa diferença, mas não fui eu que criei o jornalismo vigente.

Acontece que eu parei pra pensar sobre o momento que a médica teve, como cidadã, não como jornalista. Ninguém é obrigado a refletir, mas deixem os outros fazerem isso, sem a polícia do pensamento. E lamento muito sempre que vejo alguém reagir a textos como o meu com o mau e velho “queria ver se fosse da sua família”. Você não queria ver. Você não deve ser tão ruim assim. E eu vi o vídeo com atenção, várias vezes. E eu não disse que ela não causou a morte dos dois irmãos, eu disse exatamente, literalmente, o contrário. Minha reflexão é “o que teria levado aquela mulher a ter uma reação tão desenfreada numa briga de trânsito que acabou levando-a a atirar o carro contra uma moto com dois jovens e causar a morte deles”. Será que ela pensou “vou matar esses dois porque eles me irritaram muito”? E por fim, seja qual for a verdade sobre o que aconteceu, nada tira sua responsabilidade, ela deve pagar por isso. Não sei se posso me fazer mais clara, e não me responsabilizo pelo que todos entendem do que eu falo. Me responsabilizo apenas pelo que eu falo.

Por fim, que tristeza e que vergonha pelo que ocorreu em Cachoeira, na Flica, quando cancelaram a mesa de discussão de Demétrio Magnoli e a de Luís Felipe Pondé, porque alguns “manifestantes” acham que eles são reacionários, ou racistas, ou ‘fascistas’, ou bobos, ou feios, ou chatos. Pra mim parece tudo o mesmo tipo idiota e infantil de reação. Então é assim? “Não concordo com o que você diz, e por isso você não tem o direito de dizer”? Em que mundo essas pessoas vivem? As pessoas tem direito a opinião. E tem direito de justificar seus pensamentos. Você pode discordar delas, é legítimo, mas também é legítimo que elas falem. Eles foram convidados pelos organizadores para defender seus pontos de vista, e debater com pontos de vista discordantes, e vieram fazer isso. E aí os policiais do pensamento (com todo respeito aos verdadeiros Policiais) vieram dizer “não, você não pensa como eu, então não pense”. Que vergonha isso ter acontecido na Bahia. Que vergonha e que frustração saber que isso ainda existe. As discussões foram canceladas porque a organização não poderia garantir a integridade física dos convidados, que podiam ser atacados pelos “manifestantes”. Estamos andando pra trás, ou na melhor das hipóteses pros lados, feito um siri perdido no meio de uma partida de futevôlei na praia. Não sabe pra onde vai, com medo do que vem, anda de um lado pro outro, não avança, não sai da ameaça, e no fim acaba enfiado no mesmo buraco de onde saiu.

cerebro-acorrentado

4 responses to this post.

  1. Posted by marcio bacellar on 28 de Outubro de 2013 at 19:39

    PARABENS MAIS UMA VEZ PELO TEXTO, FICA MINHA ADMIRAÇÃO…

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  2. Posted by Eduardo on 28 de Outubro de 2013 at 20:11

    Cabe uma reflexão! Acho que hoje, a maioria das pessoas que utilizam a rede social, devido a velocidade da informação, não mais estão lendo um texto completo. Leem o cabeçalho, um pouco do começo, tiram suas conclusões e comentam nada com nada! Estamos no mundo da síntese! E muito mal feita quase sempre!

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  3. Posted by Adson Pires on 28 de Outubro de 2013 at 21:24

    Entendo exatamente o que você diz. Coaduno com sua reflexão. Sei o que a ira pode fazer no trânsito, faço um exercício diário de tolerância, gentileza e racionabilidade para chegar sempre ao meu destino sem sofrer ou causar dano a outrem.
    E que vergonha do acontecido na Flica.

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  4. Posted by Raimundo gomes on 31 de Outubro de 2013 at 11:17

    Contam que o ditador alemão Hitler costumava reagir quando um general voltava de uma batalha em fora derrotado: –“Quantos homens você levou?- Respondia o tal general (exemplo), cento e oitenta, comandante!–“Volte levando trezentos e sessenta!e salientava: –vencer, é repetir”. Portanto, diante de matérias tão bonitas sugiro que: —multiplique-as.
    O que aconteceu na Flica em Cachoeira foi igual ao que fizeram com a Jornalista Cubana em Feira de Santana.
    …Simplesmente… ridículo!

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