A fúria à espreita

furia

Tenho acompanhado as notícias e pensado muito sobre a tragédia que se abateu sobre Salvador na sexta, dia 11. Uma discussão de trânsito, dois irmãos numa moto, uma mulher num carro. O que se sabe é que ele bateu com as mãos na janela dela pra dizer alguma coisa (ele teria tomado uma fechada dela pouco antes), e o que se vê a seguir é uma perseguição em alta velocidade numa via de baixa velocidade, repleta de carros e pedestres, por volta das 8 da manhã. O carro bate na moto, que voa com os irmãos pro acostamento. O carro perde o controle, bate no gradil. Os irmãos morrem, a mulher, médica, sai ferida.

A partir daí tenho visto e ouvido todo tipo de opinião sobre o assunto. A que mais se repete é a que já julgou e condenou a médica, oftalmologista. É o mais fácil a se fazer. É o mais aliviador. Pelo que dá pra ver nas imagens ela foi atrás, correndo. Mas pra tornar a coisa ainda mais angustiante, as imagens são muito claras, exceto pelo exato momento em que o carro bateria na moto. Há árvores na frente deste pedaço mínimo de espaço, e há quem se pergunte se ela não teria dado um susto, passado perto, e eles teriam perdido o controle da moto. Não creio que isso mude muita coisa, já que o susto acabaria fatal do mesmo jeito. Mas não está claro, não há a evidência definitiva.

Me pergunto o que teria acontecido antes do que se vê nas imagens. Talvez um descuido, desses em que a gente vai mudar de estação e desvia o olhar por uma fração de segundo, fechando os irmãos na moto. Eles, com o susto, teriam ido reclamar da imprudência da motorista. E o que vem depois a gente já sabe. Mas antes ainda do descuido com o rádio, pelo que teria passado essa mulher pra estar em estado tão desesperado de nervos, a ponto de causar um acidente fatal envolvendo dois jovens? Ela que é mãe, mulher, médica, e o que alguns ainda não sabem, voluntária num abrigo para crianças órfãs? Ela esteve nesta casa de caridade regularmente para atender pessoas que não podiam pagar a consulta. Quando não podia mais frequentar ofereceu uma cota de atendimentos gratuitos em sua clínica. Não parece o tipo de pessoa que deliberadamente joga o carro numa manhã com o propósito de matar duas pessoas.

Vejam bem, eu nem de longe quero defender a médica. Não a conheço, nem aos irmãos, não tenho qualquer ligação com qualquer um dos envolvidos. Sei que ela tem culpa, vi o vídeo, não há dúvida de qual foi o desfecho. Mas ao mesmo tempo eu tenho medo dessa simplificação dos fatos, “ela é assassina, vai pra cadeia e estaremos livres dessa louca na nossa sociedade limpinha”. Não, nossa sociedade não é limpinha nem vai ficar livre de nada. Há uma espécie de fúria rondando esse mundo. Parece coisa de TV, Walking Dead, estamos todos infectados por uma doença que nos torna irracionais, e as condições pra que ela domine alguém estão aí todos os dias. Medo, violência, pressa, dinheiro, competição desenfreada, injustiça. Estamos atentos a tudo o tempo inteiro, mais do que isso, estamos neuróticos. Prontos pra reagir a qualquer estímulo.

Eu não consigo simplificar este caso. Não posso sequer tentar imaginar a dor dessa família que perdeu os dois jovens. Nem a dos filhos dessa mulher que não acredito que saia impune desse ato enfurecido e criminoso do qual ela já deve estar desesperadamente arrependida. Que dor generalizada.

Por fim, eu tenho tido a sensação de que as pessoas não estão atrás só de justiça. Elas querem justiça, mas querem também uma vingança. Quem já sofreu algum ato de violência quer a vingança pelo que passou e que ficou impune. Quem nunca sofreu quer aquela vingança preventiva como se a justiça fosse o puxão na orelha do bandido, que o fará desistir de ser bandido, e assim fará sumir a violência do mundo. A gente parece querer uma vingança pela dor que esse fato nos causou a todos. E pelo que toda a violência que estamos assistindo dia a dia nos causa. A médica deve pagar pelo crime que cometeu, mas ela não é a palmatória do mundo.

Nosso problema, infelizmente, não acaba aqui.

20 responses to this post.

  1. Posted by bene on 15 de Outubro de 2013 at 18:28

    Excelente reflexão , não é fácil analisar todos os porquês dessa tragédia,parabéns Nardele.

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    • Posted by Graça Macedo on 16 de Outubro de 2013 at 21:16

      No Brasil, as causas da injustiça são muitas e profundas. Nossa cultura assimilou e aceitou conviver com certo tipo de violência. Nossa cultura assimilou e aceitou conviver com certo tipo de violência. Todos querem justiça, mas nem todos a buscam. Sofro todos os dias nesse trânsito infernal, mas acredito que essa médica tem que pagar pelo seu erro. Vamos dá um basta na violência que vem acontecendo todos os dias sem solução, impunidade virou moda no Brasil pague sua fiança e responda em liberdade sou contra essa modalidade ela tem que ir pra cadeia como qualquer ser humano de classe A.

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  2. Posted by Iris on 15 de Outubro de 2013 at 18:35

    Belíssimo texto. Tudo que eu vi até agora são as pessoas julgando a mulher. Não que ela seja a vítima, mas… “A médica deve pagar pelo crime que cometeu, mas ela não é a palmatória do mundo.” isso resumiu tudo que eu penso.

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  3. Posted by Marta on 15 de Outubro de 2013 at 19:59

    Perfeita reflexão, parabéns

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  4. Posted by Marta on 15 de Outubro de 2013 at 21:40

    É disso que se precisa: reflexão de pessoa equilibrada.

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  5. Seu texto é pura reflexão. As pessoas estão precisando de Deus!Precisamos amar uns aos outros e dar valor à vida.

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  6. Posted by Flávia Pinheiro on 16 de Outubro de 2013 at 9:24

    Maravilha, Na. Você é uma pessoa sensata. Reflexão maravilhoso!

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  7. Posted by Andrei Mendes on 16 de Outubro de 2013 at 9:57

    Quando a sociedade é omissa somos culpados, se exigimos justiça somo julgadores! Vejo muitos tentando atenuar a gravidade dos fatos! Até uma baboseira de hipervigilância inventaram, sic!, é de dar nojo…

    “descuido, desses em que a gente vai mudar de estação e desvia o olhar por uma fração de segundo, fechando os irmãos na moto”…Não cola!!! Ela acelerou o carro, quem vem naquele pique não para pra mudar radio não! Ou ela queria convidar eles pra dançar?? Quem joga um carro em cima dos outros, mesmo que para assustar, está assumindo o risco, ponto! É doloso sim! Talvez o sentimento de vingança ao que o texto refere, deve ser pelo fato de sabermos que de fato ela não será punida, quem tem grana não fica na cadeia no nosso país!

    Estamos cansados de impunidade! Tenho lido textos sobre o assunto e muitos se dizem imparciais mas não acho que são, acho até que o seu é! Temos é que estimular a nossa sociedade a cobrar mais e mais, até que todos transgressores e não só os pobres paguem o pato nesse país de merda!

    Salvador anda atolada em violência, todo dia e em todo lugar, o ator e os violentados é que saíram da periferia e infelizmente só assim a “sociedade refinada” (classe media e ricos) abriram os olhos! Acho valido se criticar o porque da mesma sociedade não se indignar do mesmo modo quando morre um pobre, a parcialidade do clamor por justiça que me incomoda e não o clamor em si! Não vi textos relativizando as ações errôneas do motorista de ônibus que atropelou o medico e sua família há algum tempo e nem deveriam ter, assim como os para medica também não…

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    • Posted by fabiana on 16 de Outubro de 2013 at 10:32

      o que sera que ele disse para ela ao bater violentamente no vidro de seu carro para que ela saisse correndo atras deles…se ele nao tivesse ido atras dela nada teria acontecido e se la nao tivesse ido atras deles tambem nao…fatalidade.

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  8. Dele, Vc escreveu exatamente o que penso sobre esta história todo e, além disso, me coloco no lugar deles, com todas as angústias da vida moderna, e se recebesse algum ato de violência no trânsito e não estivesse com a presença de espírito de simplesmente relevar. Fico com medo de morar num lugar que me traz tantas inseguranças. E, acima de tudo, concordo, ela não é a palmatória do mundo. Beijos e obrigada pela sua lucidez e sanidade🙂

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  9. Duas famílias destruídas, a dos garotos bem mais do que a da médica, mas realmente me coloco no lugar de todos, e vejo que viver pilhado como estamos não é saudável…
    Também me atrevi a falar sobre…
    http://www.mamaevaifazer.com.br/mamaevaifazer/?p=2406
    Beijos e parabéns como sempre! Lika.

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  10. Posted by Sergio Franco on 17 de Outubro de 2013 at 1:47

    Se fosse um pobre motorista de ônibus, estariam pedindo pena de morte

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  11. Posted by Patrícia on 17 de Outubro de 2013 at 14:48

    E o que vc tem a dizer do motorista de ônibus que jogou o veículo em direção a um médico e nem o matou, porém está preso. Ele também não é a palmatória do mundo!! E se fossem seu filhos, irmãos, sobrinhos… fácil redigir palavras “equilibradas” quando não é conosco. Ela realmente não é a palmatória do mundo, mas precisa pagar pelo seu “dia de fúria”, afinal somos uma nação onde só quem é pobre tem que pagar. E diante do seu “equilibrado pensamento” todos nós teríamos o direito de matar pq todos temos problemas e alguma vez já discutimos no trânsito e nem por isso perseguimos até a morte.

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    • Posted by André on 19 de Outubro de 2013 at 8:38

      É isso aí, Patrícia. Se ela não fosse branca, loira e médica, ninguém estaria tentando justificar. Pessoas “boas” também fazem coisas ruins, e no fim o que resta são várias pessoas mortas, porque não morreram apenas os dois jovens, “morreram” também seus pais.

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      • Posted by Paloma on 21 de Outubro de 2013 at 11:47

        Vocês leram o texto? Não vi nenhuma justificativa aqui. Apenas uma reflexão. A própria autora diz que ela deve pagar pelo crime que cometeu. O comentário de Patrícia me pareceu meio furioso…

  12. Posted by Olivia on 17 de Outubro de 2013 at 23:31

    A moto foi jogada para cima, qq pericia pode comprovar que houve uma colisão, veja o vídeo com mais atenção!

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  13. Posted by Sandra Cardoso on 19 de Outubro de 2013 at 0:33

    Concordo, plenamente, com seus comentários Nardele! O problema é bem maior do que parece. O que faz uma pessoa que se habilita a cuidar do outro, a ser voluntária para ajudar os mais necessitados, agir de forma primitiva( no pior dos sentidos)? Que sentimento foi esse que dominou essa mulher a ponto de torná-la uma assassina???Será que ela não tinha a intensão de matar??? E, se a intenção era assustar, que sentimento será que a invadiu de tal forma que ela não mediu as consequência??? Seja lá o que aconteceu não podemos permitir que sentimentos como esse norteiem as nossas vidas. Não podemos crucificar essa mulher como se ela fosse a palmatória do mundo mas temos todo direito de nos indignar, de ficarmos chocados e lutarmos para que a justiça seja feita; afinal, não podemos esquecer que ela ceifou a vida de duas pessoas(sem contar a vida dos seus próprios filhos, marido, pais dos garotos, etc) e deve pagar por isso;

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  14. Posted by marcos antonio on 19 de Outubro de 2013 at 0:54

    Ridiculo! Queria ver se fosse alguem da sua familia ou amigo . Mas refletir sobre a desgraça alheia é muito facil.

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    • Posted by André on 19 de Outubro de 2013 at 8:39

      Pois é, se fosse com ele, ele teria sangue nos olhos e desejaria vingança. Odeio quando as pessoas tentam “tirar onda” de superior.

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  15. Posted by Virginia on 19 de Outubro de 2013 at 19:45

    daqui a pouco vão querer comparar a ‘coitadinha’ a Madre Tereza de Cacultá…me poupe!!!!

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