Fim de tarde, liberdade e Abraçaço

Para ler ouvindo “Estou triste”, Caetano Veloso

Daqui da minha varanda dá pra ver muitos prédios. Com suas janelas abertas, luzes acesas, televisões ligadas, decorações e cortinas. Árvores de natal piscando em salas vazias. Dá pra ver as casas que assistem o mesmo canal de tv. Suas luzes ensaiadas, mudando de cor ao mesmo tempo tantos quartos. Queria ter um binóculo pra passear em silêncio pelas vidas dos outros. Saber como eles interagem em casa. Como os filhos guardam suas canetas de estudo nos armários e pegam roupas e vão tomar banho. Como as pessoas fazem jantar e sentam pra comer. Quanto tempo passam lendo na poltrona. E quando apagam as luzes e vão dormir. Desde pequena tenho curiosidade pelas casas dos outros. Esse é só um dos aspectos do meu lado observador. Acho que vem daí um desejinho profundo e guardado de ser arquiteta. Queria fazer as casas e povoá-las com vidas e famílias inventadas por mim.

Depois sentei no computador pra viver uma experiência praticamente transformadora. Hoje ouvi Abraçaço pela primeira vez. É o disco novo de Caetano Veloso. Ele tem 70 anos e nos deve explicações sobre ter uma cabeça como a dele, uma mente e uma inteligência, e um texto e uma música, e uma capacidade de encantar neste nível. Enquanto ouvia “Estou triste”, cliquei num link do amigo Vitor Andrade no Facebook. Um fotógrafo fez imagens da “realidade secreta de uma comunidade nômade com leis baseadas no amor”. E enquanto Caetano dizia “por que será que existe o que quer que seja? (…) Eu me sinto vazio, e ainda assim, farto. O lugar mais frio do Rio é o meu quarto” eu via os olhares dessas pessoas. Elas me intrigaram. São hippies, da forma deles. São livres. Livres, totalmente. Possuem poucas coisas, mas possuem a si mesmos. E olhei pras janelas dos prédios à minha frente, com árvores piscando pra ninguém, pros quadros e sofás e tvs ligadas. Iluminações cênicas. Quem estaria nessas casas? Eu sei que muitos de nós possuem muitas coisas. Mas muitos de nós não possuem a si mesmos. E sofrem de angústia todos os dias. Pensam demais, sentem medo.

Certamente os nômades também tem seus medos. O ser humano é angustiado. É a palavra dos nossos tempos. Imagino que os deuses olham pra nós lá de onde estão, e riem. Sorriem, quase com um pouco de pena. Acho que parecemos crianças de dois anos que se frustram por não conseguir montar um quebra cabeças de quatro peças. Devemos ser assim também. Mas acho que os deuses são complacentes.

“Eles vão aprender”.

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13 responses to this post.

  1. Posted by Coelho on 5 de Dezembro de 2012 at 19:09

    Sensacional Delinha…. estou sem palavras. Melhor texto seu q já li.

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  2. Posted by Joseane Seixas Bouzon on 5 de Dezembro de 2012 at 19:22

    Através dessa sua escrita tambémb pude assim como você parar para pensar em tudo que vivemos e onde estamos quando precisamos de nós mesmo. Onde estamos quando precisamos parar e observar tudo que tem ao nosso redor? Como foi duro e demorado para conseguir e a impressão que fica é de que precisamos sempre de mais, nunca dá pra brincar de verdade com o novo brinquedo porque estamos pensando no proximo e proximo e proximo e assim a vida passa, o ano passa, as luzes das arvores começam a piscar anunciando um novo ciclo, mas a sala pisca só, pois nós estamos de corpo em casa, mas a alma lá fora, num lugar em que as vezes nem nós sabemos onde . A sua leitura Nardele Gomes me fez pensar que preciso voltar pra casa, pra sala, preciso brincar com este brinquedo de agora, porque o bom da vida é ser o hoje, imaginando e não praticando o amanha, senão corremos o risco de não ver mais um ano as luzes piscarem, sendo apenas futuristicos zumbis anciosos. Beijos e parabéns pelo texto.

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  3. Eles aprenderão com certeza e eu gostaria muito de aprender também, LINDÍSSIMO!!! e que figuras, essa carinha então! e o presépio… maravilhoso!!!

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  4. Estou encantada com a pronta beleza e riqueza desse texto. É profundo.É preciso q nos conheçamos meia e melhor, para q pelo menos tentemos compreender muitas coisas.

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  5. Lindo texto pyl, vc me surpreende cada dia mais! Tenho muito orgulho de saber que tenho uma irmã tão capaz e inteligente ! Tb concordo que os deuses são bastante complacentes com a gente🙂 Beijos no coração!

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  6. Posted by juliana on 6 de Dezembro de 2012 at 7:31

    que lindo!

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  7. Posted by Gleide on 6 de Dezembro de 2012 at 13:55

    Texto profundo, talvez sem a pretensão de sê-lo. De uma singeleza desconcertante e inspiradora… parabéns, viu?

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  8. Posted by Agnaldo Eça Gomes on 6 de Dezembro de 2012 at 14:11

    Nardele Gomes. foi fundo garota! Profundamente na mente da gente. Acabei ficando triste, ficando só arrodeado de pessoas. Criaturas que amo, mas que neste instante não percebem minha melancolia interior. Talvez dure 10 segundos ou o resto da vida, só depende de mim. Parabéns, Delinha (como diria Dene d vito). Um bom texto, ótimo comentário sobre Caetano, genialidade a toda prova.

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  9. Belíssimo texto,vc como sempre nos premiando com suas palavras bem colocadas.

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  10. Posted by tatyhayne on 6 de Dezembro de 2012 at 21:42

    Seja bem vinda minha amiga. Como sempre inspirada e inspiradora… Saudades dos textos, das terapias e das horas de conversas. Te amo!

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  11. Posted by Sandra Cardoso on 7 de Dezembro de 2012 at 1:49

    Há muitos anos acompanho você na rádio Metrópole. Lembro de um dia em que ouvi uma matéria sua (acho que foi a primeira matéria que você fez) e escrevi pra Mário te elogiando, dizendo que acreditava que você, assim como Jéssica Senra, tinha um grande talento(lembro que na época fiz questão de dizer que não te conhecia – pra ele não pensar ser “missa encomendada”). Pois é, de lá pra cá você vem demonstrando ser, realmente, uma pessoa muito competente e talentosa. Esse texto me toca profundamente pois muitas vezes senti exatamente o que você descreveu. Muitas vezes fico a olhar as casas das pessoas, suas luzes acesas, suas cortinas entreabertas…e fico a pensar, a imaginar como seria a vida dessas pessoas, como elas interagem umas com as outras, o que sentem, o que fazem essas pessoas quando fecham as portas, as cortinas…como vivem as pessoas que moram sozinhas…Engraçado, nesses momentos muitas vezes elucubro sobre como seria se Deuses estivessem nos olhando, o que diriam se vissem a minha casa, o que pensariam se vissem a minha vida …Viajo nos pensamentos, assim como viajei no seu texto – muito singelo, muito profundo. Adorei!!🙂

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  12. Estou triste por ter abandonado seu blog durante tanto tempo. Por este texto percebo o quanto perdi. Também tenho uma pouco de arquiteto em mim. Porém, mais do que ter algo de arquiteta, percebo que tem muita empatia pelo ser humano, pelo cotidiano que cada um vive, pelas pequenas coisas que no fundo são as grandes e que nos preenchem.
    Abraçaço já está no meu computador para ser ouvido. Engraçado que hoje, antes de ler seu texto, eu vi um documentário sobre Caetano. Sempre fico observando tudo que diz e o quanto admiro.
    Por esse lado arquiteto, designer e decorador que aflorou em mim esse tempo afastado do jornalismo, criei um site justamente para falar desses assuntos e para mostrar minhas pinturas e artesanatos. Quero muito que passe lá e me diga o que achou. Tá no começo, mas já é um canto que gosto muito. O link é http://www.atelie-caldas-pina8.webnode.com.
    Grande beijo!

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  13. Posted by Alexandre Silva on 7 de Janeiro de 2013 at 14:53

    O texto me fez lembrar de um video que um amigo postou no facebook, falando em estarmos “on ou off”, cheio de um desejo de gritar ao mundo que, se nao nos religarmos com o que vale a pena, a vida passa diante de cada um de nós, bom seria se cada um podesse estar nesse estouro, e que os olhos que assistem a vida como boiada, não fosse o nosso. Alexandre Silva.

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