Conversa comprida.

As discussões no Twitter podem ser bem interessantes. Dá pra saber um quase-nada sobre quase-tudo, de quase-todo-mundo. Só que tem assuntos que começam lá mas pedem uma reflexão maior do que é possível ter no Twitter. Por isso resolvi ter uma conversa comprida aqui no blog mesmo. E como conversa comprida faz quem quer, como diz meu pai, fiquem à vontade pra interagir aí, porque são alguns assuntos e eu adoro debates.

Eu nem sei por onde começar, mas vamos lá. A “entrevista” de uma “jornalista” da Band a um acusado de assalto e estupro. E de antemão já adianto que esse vídeo é uma ondinha dentro do mar de lama em que vive a programação de TV aberta na cidade de Salvador e, infelizmente, neste país. Então nem dá pra dizer que aquilo ali foi um grande choque, porque é muito parecido com o que a audiência desses programas está acostumada a ver (eu poupo meu cérebro, graças a Deus). Mas este em especial mexeu com muita gente. E eu acho que mexeu porque em algum momento era preciso mexer. Não dá pra engolir todo dia o mesmo sapo sem dar uma engasgada em algum momento.

Muita gente já falou mais e melhor do que eu poderia/gostaria sobre esse vídeo, então quem quiser dê uma lida aqui, ou aqui.

Essa “jornalista” (que Deus tenha misericórdia da minha classe), passou de todo e qualquer limite ético, moral, profissional, constitucional, penal, pessoal e foi parar no fundo do poço. Humilhando a si mesma, à sua profissão (e à minha), o acusado, a emissora em que trabalha, humilhou a polícia, a Justiça… Mas atenção: ela cumpriu o papel de bode expiatório desse “sistema bruto” em que vivemos hoje. De saber que existe na televisão, no horário de meio-dia, corpos dilacerados, estupradores, traficantes xingando a mãe, mulher bêbada arrancando os cabelos de outra bêbada por causa de um cara bêbado que provavelmente bate nas duas, mulher nua sambando sentada na câmera e outras belezas do tipo. Então, mundo cão é aí. E a “entrevista” de hoje, repito, é uma partícula.

Numa realidade um pouco melhor, nem precisa ser ideal, só melhor, a televisão passaria programas inteligentes nesse horário, em que as pessoas estão em casa, TV ligada enquanto se faz almoço, toma banho, conversa rapidamente, discute alguma coisa trivial. Não precisa ser programa cabeção não, um humorístico, um noticiário, um filme, um infantil, um documentário, um musical. Porque tiveram que escolher o pior do ser humano pra lotear a televisão? Depois querem um país decente. Peraí, até o politicamente incorreto (bendito seja) tem limite. E ele tá perdido em algum lugar atrás da ignorância do ser humano.

Aliás, a Band tem trazido uns programas interessantes na sua grade nacional, o CQC, A Liga, Agora é Tarde, eu não lembro todos, mas tenho gostado da programação. Já em Salvador temos gente como essa “jornalista” e uma outra criatura que apresenta um programa no começo da tarde, aquela que tem um carro cujo pneu custa 100 mil reais segundo a própria. Parem o mundo, quero descer.

Do outro lado da história, vem o outro assunto. Escolas públicas em greve há mais de um mês. Quarenta e tantos dias, e contando. Categoria reivindica, governo faz que não ouve, mais de um milhão de alunos da rede sem aulas. O ensino público, que já tem que peitar um milhão de leões por dia, peita mais esse. O leão do descaso. O leão do silêncio. Do nosso silêncio, inclusive. Nosso, da sociedade. Afinal, uma sociedade bem educada, consciente, cidadã, é boa pra todo mundo, certo? Mas a greve nas escolas públicas só diz respeito a quem estuda / ensina nelas? Hum, curioso. Cadê a comunidade exigindo diálogo entre governo e professores? Negociação? Volta às aulas? Por que os “artistas” muito famosos não fazem uso de seu poder agregador pra gerar debate nesse sentido? Não vejo. Ou vejo muito pouco. Não há mobilização.

Mas nós somos brasileiros e não desistimos nunca. Amanhã estaremos todos procurando um novo assunto que gere uma mega polêmica. A gente vive disso, afinal.

E essa chuva hein? (Vamos falar do tempo?)

15 responses to this post.

  1. Posted by Jarbas Rocha on 22 de Maio de 2012 at 22:14

    Estou realmente perplexo com que eu vir e o que vem ocorrendo,neste notíciário,é de uma extrema e absuda vergonha este jornalismo,a forma como foi trasmitida para o telespectador,ela não teve em nenhum momento um pouco de bom senso,e é claro como jornalista,nem tampouco seriedade pelo o trabalho que vem desempenhando,fiquei…sei lá muita coisa veio a tona,estou envergonhado e pelo fato de ser na Bahia e principalmente umas das emissora de maior audência do Brasil e no mundo.A Band.,a Bahia é tão descrimidada ridiculalizada quando emigrando e imigrando informação da Bahia tampouco com isso pior ainda,realmente.
    O fato é que ninguém não gostou e nem graça pelo noticiário,até porque haja vista que é muito comum nos horário de maior audência,e que a maior parte deste telespectador é jovem de cuja faixa etária é 14 a 26,e é claro que tem audiência senão teríamos no ar.É muito revoltante saber que pelo fato de ser preso sejas lá o que for,que é torturado verbalmente e debocham como se tudo que foi consumado é natural,e que não tem nada fazer etcs.
    Rapaz sinceramente,quando eu fui ver,não estava acreditando eu achava que era uma peça de teatro.
    Aí vem a questão,como fica agora isso?será que adianta alguma coisa colocar tudo isso?
    Será que não é preciso rever esta grade de prgramação,como por exemplo este que ultrapassou dos limites do bom senso do telespectador.Afinal de contas,é notícia de importância para sociedade ou é formador de teatro de notícia?
    Mais uma vez CHEGA DE NOTÍCIA POLICIAL.temos assunto tão importantes…

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  2. “eu poupo meu cérebro, graças a Deus.”
    O triste é que tem gente que gosta.

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  3. Posted by Leandro G Silva on 23 de Maio de 2012 at 8:21

    Isso é um absurdo. Me senti triste ao ver aquele rapaz naquela situação. Gostaria muito de vê-lo pagando pelos seus erros e tendo a oportunidade de reconstruir sua vida. O engraçado é que no twitter do apresentador (que é até uma pessoa que eu gostava), tem vários posts defendendo a pseudo-jornalista e não reconhecendo seu erro.
    Um absurdo.

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  4. Posted by Bruna (Priminha ;) on 23 de Maio de 2012 at 9:01

    Áh, sim. A chuva… A chuva é um glória (ou não) comparada a todos esses assuntos.

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  5. Com relação à educação, falta interesse de mobilização de todo e qualquer cidadão, porque direta ou indiretamente é assunto de todos. Querer pronunciamento de quem tem “mais voz” é até interessante e criticamente apropriado, Nardele, mas infelizmente, indo mais pro fundo, a má educação do povo interessa aos “artistas” do axé, afinal, ao que tudo indica, manobrar néscios através letras e discursos debilóides é mais fácil e rende audiência. Estão ai os brutos do sistema que não me deixam duvidar disso.

    E ainda, se pode ficar pior, vivemos tempos em que nem ela, a educação, tem garantido pessoas elevadas, vide o “case” jornalistas da Band (do CQC ao Bahia Urgente etc.), “psicanalista” racista de Brasília, agressores classe alta de SP etc. Então, alguma coisa está fora da ordem. Neste caso, oxalá todo o caos que estamos a testemunhar sirva pra que o esquema seja repensado em todas suas etapas.

    Enquanto o mundo não para, talvez um freio brusco possa dar uma arrumadinha.

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  6. Posted by ROSANI SANTANA on 23 de Maio de 2012 at 15:04

    A maioria desses jornalista aproveita da falta de informação dos entrevistados (bandidos),muitos deles vive à margem dessa sociedade q’muitas vezes não teve nenhuma oportunidade de educação.É uma exploração da miséria humana,mães jogada em cima dos corpos dos filhos mortos,ou tendo que se expor ao e ver filhos pressos,e “jornalistas”em cima explorando o sofrimento humano.Tendo formas diferentes para se obter audiência,colocando programas com informação educativas.

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  7. Posted by rafabota on 23 de Maio de 2012 at 15:32

    É minha cara Nardele, por essas e outras que eu deixei de assistir televisão no ditos canais abertos.

    Hoje o que eu assisto são as séries e filmes que passam nos canais fechados e meu programa preferido, o Animal Planet. Este sim não abusa em nada da ignorância das pessoas. Pelo contrário, nos informa, nos educa e nos mostra situações que vivemos no cotidianos e muitas vezes não sabemos como proceder.

    Repudio veementemente a ação e o ato desta “repórter/jornalista”, que de nada sabe o que é jornalismo sério.

    Infelizmente, neste país sem lei, ou melhor, com leis apenas para os que “podem”, coisas como estas acontecem, pessoas ferem a constituição e pior, sabendo que nada irá acontecer, pois aqui é assim.

    Como eu disse, deixa eu ficar só no meu “Planeta Animal” pois, ganho mais e aprendo muito mais.

    Parabéns pelo texto, pela crítica ética e coesa. E, mais ainda, por ser esta excelente profissional.

    Desejo-lhe muito sucesso.

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  8. Posted by Erika de Angelis on 23 de Maio de 2012 at 15:33

    Embora esse seja uma partícula do que tem por aí, acho que só tomou essa proporção pq foi parar nas redes sociais… eu mesma nunca tinha visto nenhum programa do gênero, e embora soubesse que o que é transmitido é puro lixo, não tinha noção que chegava a esse ponto. Isso deve acontecer com algumas das pessoas que, assim como nós, “poupam seu cérebro”.

    Responder

  9. Posted by Alexandre on 23 de Maio de 2012 at 18:34

    Excelente texto realmente a educação é sempre colocada em último grau de importância principalmente quando se refere as escolas públicas. Parabéns!

    Responder

  10. Posted by mjlelis on 23 de Maio de 2012 at 19:21

    Televisão aberta no Brasil possui qualidade como excessão. Lamentável é que vão punir apenas a dita “jornalista”; o diretor e o âncora lá continuarã a prestar o mesmo desserviço.

    Nação que historicamente não entende a educação como a alavanca motriz para as mudanças de longo prazo, que valoriza o braçal ao invés do intelectual; e povo que não consegue compreender o valor do pensar a longo prazo, sem memória, e assim, sem futuro (deseja resolver tudo agora, esquece-se de quem votou, não é previdente, etc.), não pode mesmo reivindicar o fim da greve de professores com a valorização dos professores, não com sua cucificação e desmoralização.

    Responder

  11. Posted by Adriele Rocha (@adrielers) on 23 de Maio de 2012 at 23:49

    Da chuva não precisamos falar, ela fala por si só. É a cidade chorando, lamentando tudo isso que vem acontecendo.
    triste realidade.

    Responder

  12. Olá Nardele e sintonizados no “agoramesmo”.
    Certa feita, estava eu reunido a um grupo numeroso de pessoas no refeitório da Instituição na qual trabalho, quando eu fiz a seguinte colocação: “Pessoal, vivemos em um mundo que precisa mudar, precisamos estimular coisas boas. Será que temos de almoçar vendo sangue? Será que no breve instante de confraternização temos de ficar presos a toda essa violência?”. Reinou o silêncio! Então, mudei a minha rotina, passei a ir almoçar em casa, ao lado de minha princesinha, revezando com ela entre Discovery kids e a resenha do esporte. Passei a gastar mais combustível, mas ganhei em momentos divertidos.
    Quando não tem como ir em casa, mudo o horário de almoço para um período onde não precise compartilhar de desagradáveis momentos.
    Isso não é uma fuga da realidade, as notícias ruins tem de ser transmitidas, mas a maneira jocosa e sensacionalista é demasiadamente irritante.

    Quanto a esse caso específico, não foi algo que me surpreendeu, pois o rumo no qual certos programas seguem, isso era questão de tempo. Para nossa sorte, e azar dela, esse fato que foi concebido para ser uma comégia, acabou se tornando tragédia.

    E ai fica a pergunta: As mudanças vão acontecer a partir de agora, ou apenas a punição da repórter será uma ação pontual para pacificar as massas e “preservar” a imagem da Band Bahia?

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  13. Quanto a questão da educação, infelizmente grande parte da sociedade só se manifesta em coisas nas quais julgam como sendo suas, esquecendo que ao viver em sociedade, coisas que “não tem haver” conosco de forma direta, nos causam danos indiretamente. Somos como uma máquina, e quando peças estão fora do lugar, a engrenagem não funciona corretamente e os danos ferem, e as cicatrizes podem ser permanentes…

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  14. Confesso que estou confuso. Não sei o que dizer a respeito desse e de outros papéis que estamos desempenhando ultimamente. Nossa sociedade não tem mais ideais, não tem mais direita e esquerda, não há mais debate, não há mais confrontos intelectuais a fim de entender, compreender e/ou tentar resolver nossos conflitos diários. É só circo. Deboche. Gargalhamos de nós mesmos. Olhamos perplexos para a nossa desgraça e fingimos não fazer parte de tudo isso. Nos excluímos sabidamente como se essa violência não tivesse nossa contribuição. O pior de tudo é que enquanto essa platéia não entender que faz parte do número, nada vai mudar. Muito pelo contrário, o show de horrores avança ao clímax desse grande espetáculo que é a desgraça da sociedade baiana. Tão nova e tão prostituída.

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