Caminha, Brasil

O assunto é espinhoso e eu sei que ele suscita os ânimos e princípios mais profundos. Mas eu vou entrar no debate, e deixá-lo aberto aqui, para quem quiser opinar, qualquer que seja a opinião – é claro.

Fiquei feliz com o resultado da votação no Supremo Tribunal Federal, da liberação do aborto em casos de anencefalia. É positivo ver que as mães não serão mais obrigadas a seguir em frente numa gravidez onde o sofrimento é certo, já que a sobrevida de bebês sem cérebro é de no máximo 24 horas, na maioria dos casos. Ela poderá escolher. Isso que é o mais importante. Porque ela sempre poderá, e isso é um direito inalienável, querer ter a gravidez completa, dar à luz, viver com ele cada segundo de sua vida. Dar, nesse tempo em que estará junto a ele, todo o amor que nutriu a vida inteira por aquele que seria seu filho, e durante a gravidez. Mas a vida dele será curta, e triste. O bebê anencéfalo não desenvolve o cérebro, nem o crânio. Nesses casos, o bebê tem apenas a estrutura suficiente para manter os batimentos cardíacos e a respiração. Não existe cognição, quer dizer, ele não sente, não vê, não ouve, não reage. A nenhum estímulo, nem de prazer, nem de dor. Tudo isso é processado no cérebro, que ele não desenvolveu. Ele nasce para viver pouco, e terá uma vida difícil.

E é aí que entra o Estado, permitindo que a mulher decida se terá ou não condições psicológicas de continuar a gravidez ou se prefere interromper. É a possibilidade de escolher, de decidir. Isso é grande. Acho que o Brasil dá um passo à frente. Agora é permitido o aborto em casos de estupro, em caso risco para a vida da mãe e em casos de fetos sem cérebro. Que as pessoas tenham o discernimento de compreender que isso faculta à mulher a decisão sobre a vida dela e do bebê. Ou do feto, como preferem chamar. E antes de terminar, fico satisfeita também em ver que que esta decisão reafirma a separação entre Estado e Igreja, já que o Brasil é um país laico, ou seja, o governo não é ligado a nenhuma religião. Até porque religiões não têm mesmo um histórico positivo quando de trata de governos, maiorias e obrigações.

Caminha, Brasil.

5 responses to this post.

  1. Posted by Vitor Andrade on 12 de Abril de 2012 at 22:38

    Como sempre, suscinta, objetiva e certeira. Foi, sem dúvida, um avanço. Voltei a ter esperança no Estado democrático e laico. Não o tanto de esperança que gostaria de nutrir, visto que me sinto cada vez mais numa teocracia – e num caminho sem volta. Não é uma luta contra os grupos religiosos radicais, mas à favor do bom senso. Se estes lhes é quase sempre ausente, só me resta lamentar. Dar à mulher o poder de escolha é a grande vitória, como você foi muito clara nesse ponto. Continuarei na torcida por avanços semelhantes.

    Responder

  2. Posted by @ClaraibFonseca on 12 de Abril de 2012 at 23:21

    Brilhante!
    Como cidadã e advogada fico muito orgulhosa em saber que ouço diariamente, e nutro admiração, por uma jornalista com tal discernimento e opinião!

    Parabéns pelo texto!

    Essa decisão é Mais uma vitoria expressante e importante para o país e para as leis, que muitas vezes não acompanham a (in)”evolução” da sociedade!

    Bjss
    (Clara Isabel)

    Responder

  3. Posted by Mário Carvalho on 13 de Abril de 2012 at 0:25

    Excelente exposição do tema. Concordo com o aborto do anencefálico, mesmo temendo a possibilidade de fraude. Acompanho a brilhante percepção da autora do direito da mãe estar com seu filho e amá-lo, mesmo sabendo que logo ele morrerá. Mas o será de forma natural e não sob a violência de um procedimento de aborto. Parabéns aos ministros pela coragem de seus votis.

    Responder

  4. Curioso como alguns reagiram ao assunto sem nem sequer saber do que se tratava direito. Bastava a palavra aborto e legalizar no meio do texto para sairem falando besteiras. Assim como a maioria também tenho meus princípios e minhas crenças. Mas isso não me cega em nenhum momento ao ponto de deixar de entender que um bebê anencéfalo não tem condições de viver e é aí que se entra numa questão maior, que é a saúde física e psicológica da gestante que carrega por nove meses uma criança que está fadada a morrer. Triste mãe que se apega ao seu filho e se vê diante de uma situação como essa. Mas ainda bem que os ministros do supremo tiveram o bom senso de deixar a maior interessada e envolvida decidir. Sem culpa e sem crime por isso.

    Responder

  5. Posted by isabel on 13 de Abril de 2012 at 17:41

    Adorei a decisão do governo, pois a algum tempo atrás, eu tive uma amiga e foi obrigada a esperar o tempo normal da gestação mesmo sabendo que a criança ñ iria vingar, e foi muito triste, vc esperar por algo que ñ vai ter. com isso acaba com a agonia de muitas mães, o sofrimento é o mesmo só que com um período menor.

    Responder

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: