Sobre medo, anjos e o fato de sermos todos iguais

Sexta-feira, 10 de abril de 2009. Sexta-feira da paixão, plena Semana Santa. A rádio funcionaria até as 10 horas da manhã, apenas o pessoal de estúdio foi trabalhar. Chovia muito, e na hora de ir pra casa, percebi que enfrentaria um aguaceiro e, possivelmente, ruas alagadas. Eu não tinha a menor ideia do que estava por vir.

No caminho, fui me dando conta de que a situação estava bem pior do que eu tinha calculado. Visibilidade mínima, limpador de parabrisa não dava conta da quantidade de água que caía, vidro embaçando. Pra completar o cenário, muitos relâmpagos e trovões. Eu só queria chegar em casa. Até que de repente o trânsito parou. Ninguém se mexia para frente ou para trás. A água já cobria os pneus dos carros. Na via contrária, menos alagada, ônibus passavam e criavam ondas que faziam o meu carro balançar, como uma jangadinha perdida em alto mar.

A essa altura eu já estava em pânico, não chorava porque sentia que precisava me manter alerta. Quando vi que o trânsito não andaria, que meu carro não ia parar de balançar, que os trovões ficavam cada vez mais próximos e mais altos, e os relâmpagos mais claros, olhei do outro lado da rua. Um posto de gasolina, algumas pessoas olhavam para nós, os que estavam nos carros, naquela situação de pavor. “Vou sair do carro e largá-lo aqui, no meio da rua, pelo menos piso em terra firme e saio desse pânico”, foi a coisa que mais me passou pela cabeça. Desisti pelo simples fato de que do lado de fora passava uma verdadeira correnteza, e eu certamente não conseguiria me equilibrar em pé. “Vou jogar o carro por cima do canteiro, e tentar atravessar pro outro lado”. Fiz isso. O carro ficou preso depois que os pneus dianteiros passaram pelo canteiro. “Pronto, ótimo, estou meio lá, meio cá”. Se a ré não funcionasse, não trouxesse de volta o carro pro lado que eu estava no início, o que eu iria fazer? Ficar empacada lá até quando? A ré funcionou. Respirei aliviada, mas tinha apenas voltado à mesma situação de pânico de antes.

Depois de alguns minutos apenas respirando e tentando me manter calma, o trânsito começou a andar devagar. Será que o carro ainda funcionaria, depois de tanta água ter passeado por dentro dele? Funcionou. Andei um pouco, mas com extrema dificuldade. Lá na frente, embaixo de um viaduto, o galho de uma árvore enganchou no pneu da frente. O carro travou. Tive que encostar no passeio, outros carros estavam lá, “estacionados” da pior maneira possível. Quando parei, senti que o carro não estava firme, e que a correnteza só aumentava. A rua era uma leve descida. Chorando, já perto do desespero, decidi. Peguei minha bolsa, meu casaco, o celular e abri a porta. A água começou a entrar. Saí rápido, fechei a porta, travei. Chovia muito forte ainda. Do outro lado, como eu disse, havia uma cobertura, o viaduto estava logo acima. Várias pessoas estavam embaixo dele, olhando a minha manobra desesperada.

No meio do caminho, ao atravessar a rua, travei. Usava um salto fino, não tinha equilíbrio nenhum. Devia estar descalça, mas era tarde. A sensação que eu tive foi que se eu desse mais um passo a força da lama ia me derrubar e eu não conseguiria mais me levantar. Lá embaixo havia um córrego. Eu tinha que chegar do outro lado. A essa altura eu estava completamente em pânico. “Alguém me ajude, por favor!”, eu estava paralisada, congelada de medo. O rapaz do outro lado só me pediu que não entrasse em pânico, porque seria pior. “Too late”, eu teria pensado se tivesse espaço para o mínimo de humor, mas não havia. “Pelo amor de Deus, eu estou em pânico, me ajude”. Foi aí que o rapaz, baixinho, magrinho, entrou na água, devagar e chegou até mim com esforço. “Te peguei, venha com cuidado, tem umas pedras logo ali”.

Fomos andando devagar, até que fui sentido a altura da água baixar. Estava segura. Nunca poderei agradecê-lo suficientemente. Um chinelo dele foi com a água, ele acabou descalço. Fiquei ali umas duas horas, em pé, completamente molhada, me sentindo só, com frio, com medo, triste, impotente. Na minha bolsa, havia um lenço de seda, que eu tinha comprado em Paris. Ao meu lado, um morador de rua se encolhia dentro de um carrinho de supermercado. Todos nós, igualmente assustados e ameaçados. Quando senti a força da chuva diminuir, pensei em largar o carro ali, ir andando pra casa. Foi o rapaz magrinho que me convenceu a esperar um pouco mais, o carro não estaria seguro, era um patrimônio, “tenha calma, vai ficar tudo bem”.

Chegou o momento. Era a hora de sair dali. Ele se ofereceu pra me ajudar a manobrar o carro até o outro lado, havia um lugar seguro. Eu deixaria estacionado lá e voltaria para buscar depois. Fiquei com um pouco de receio, era um desconhecido, dentro do carro, ainda havia espaço para esse tipo de preocupação, mas aceitei. Eu fui dirigindo e ele pedindo espaço para os outros carros. Deu certo. Estacionei e ele rapidamente disse “pronto, aqui está seguro. Está tudo bem? Eu vou indo. Espero que chegue em casa em paz”. Eu agradeci, umas dez vezes. E lá se foi ele, um pé calçado e o outro descalço. Estava lá só pra me ajudar? Não, claro que não. Ele tinha a vida dele. Mas o que ele pode fazer por mim, uma completa desconhecida, ele fez. E não pediu nada em troca. Quando acabou a missão dele ele se foi. E eu iniciei meu caminho a pé pra casa.

Ao chegar em casa encontrei meus pais, contei a história, senti o amor e a preocupação deles e chorei muito, encolhida no banho. O que eu senti naquele dia? Tensão, desespero, solidão, pequenez, impotência e uma tristeza infinita. Na TV relatos de pessoas que perderam casas. Pessoas que perderam pessoas. Eu cheguei em casa, com a ajuda de um “anjo”.

Eu mereci? Dei sorte? Não era a hora?

Vai saber.

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21 responses to this post.

  1. Definitivamente não somos especiais.

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  2. Poxa Nardele, esse post foi o que mais me tocou. Você tem o dom. Escreva um livro e eu serei a primeira da fila de autografos!

    Responder

  3. Posted by nardele on 20 de Janeiro de 2011 at 19:37

    Iris, tenho que te agradecer por sempre estar por aqui. Sério, você me estimula muito, obrigada mesmo!

    E Ludmila, vou agora lá no seu blog, pelo link que vc me mandou no twitter. Valeu!

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  4. Ai, Ná, me emocionei! Mesmo. Aliás, apesar de todos os medos, não consigo deixar de me emocionar com pessoas assim. Elas ainda existem!
    beijos!

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  5. Posted by silvinha lacerda on 20 de Janeiro de 2011 at 19:51

    NOSSAAAAAAAA!! TÔ PERPLEXA, DELE. QUE COISA , HEIN?? EU SOU ESPIRITUALISTA E ACREDITO QUE ELE TINHA UE ESTA ALI PRA TE AJUDAR. PENSA SE ELE NÃO ESTIVESSE… DEUS É BOM DEMAIS!!!
    QUE POST DE ARREPIAR!
    BJSSSSS
    PARABENS PELOS SEUS TEXTOS!!

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  6. Apesar do mundo oferecer tanto perigo e tristeza, acredito que as pessoas boas recebem de alguma forma aquilo que emitem, através da força do pensamento. E sempre terão anjos por perto para ajudar.

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  7. Posted by nardele on 20 de Janeiro de 2011 at 20:05

    Pa…! Quando eu lembro daquele dia me emociono sempre. O desprendimento dele, e sua vontade de ajudar, deveria ser uma inspiração para todos, todos os dias.

    Silvinha, que bom que ainda há lugar no mundo pra pessoas assim, né? Elas bem que poderiam se multiplicar! Bem, pra mim ele foi definitivo, sem a ajuda dele não tenho ideia do que teria acontecido…

    Amanda, é uma linda forma de enxergar isso. Tomara que seja assim mesmo.

    Obrigada, meninas. Beijos a todas.

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  8. Posted by silvinha lacerda on 20 de Janeiro de 2011 at 20:10

    O MUNDO PRECISA MTO DESSAS PESSOAS. MAS CONTINUO ESPERANÇOSA QDO O ASSUNTO É FUTURO. NOSSOS PEQUENOS SERÃO PESSOAS ASSIM, COM FÉ EM MEU DEUS!!! ALGUEM PRECISA CURAR O CORAÇAO DAS PESSOAS E O MUNDO PRECISA SER MAIS CALMO. ESSE RAPAZ É UM SALVADOR DA PATRIA!!!ESTAVA NA HORA E LUGAR CERTOS. TÔ PERPLEXA AINDA!!

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  9. Posted by Eduardo on 20 de Janeiro de 2011 at 20:24

    Nardelinda, o momento foi de desespero mas você passou por uma experiência especial. Mesmo num mundo tão corrompido ainda temos muitas pessoas dispostas a ajudar, independente da situação. Ajudando uns aos outros, vamos evoluindo. Parabéns pela sua sensibilidade em transcrever e significar um momento tão difícil.

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  10. Posted by andrea on 20 de Janeiro de 2011 at 20:39

    Nardele você sabe disso e pode ser que esteja cansade de saber em como escreve bem e em como articula tão bem as palavras mas vou salientar novamente,Parabéns você nasceu com esse dom que é para poucos!!! Estou muito emotiva esses dias, tive minha filha na segunda(17) e tudo ou quase me faz parar,choras as vezes e pensar(em como somos tão frágeis diante de determinadas situações). Um beijo!!!!

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  11. Posted by Leno Assis on 20 de Janeiro de 2011 at 21:13

    Ouço vc todos os dias e sempre me surpreendo com a coerência e a ousadia de seus comentários. Mas foi lendo esse texto que percebi que vc fala e escreve com a alma e o coração. Sou seu fã!

    Responder

  12. Posted by Juliana on 21 de Janeiro de 2011 at 7:33

    Dele, não se esuqeça que fomos, somos ou seremos anjo, algum dia, para alguém.
    Beijos e fica com Deus.

    Responder

  13. Ai, que agonia.. li seu post com os nervos na mão.
    Bj
    Rita

    Responder

  14. Posted by Rejane on 21 de Janeiro de 2011 at 17:45

    Menina, que aventura!
    Na adversidade o ser humano tende a ser mais humano e a solidariedade domina.
    Acho que o baiano é mais solidário ainda.
    Passei por uma parecida nos Dois Leões. A rua se transformou em um rio, com correnteza e tudo. As duas vias, separadas pelo canal virou uma só. Meu medo era ser levada pela correnteza e cair no canal. Graças a Deus consegui prosseguir com o carro. Mas foi punk!
    Bom final de semana!
    Ah, assisti “127 horas”, de Danny Boyle (Quem quer ser um milionário) e adorei. Ótima direção! Vem aí em março.
    🙂

    Responder

  15. Posted by Laís on 21 de Janeiro de 2011 at 22:07

    Nardele, que emocionante esse relato. Em situações como essa é que percemos o quanto nós somos frágeis e precisamos da ajuda do outro. Ainda bem que existem pessoas como esse rapaz que ajudou você. São pessoas assim que fazem com que eu ainda tenha esperança na humanidade. Que bom que estava lá para ajudar você. Talvez ele seja um anjo mesmo.Que bom que deu tudo certo. E que sirva de exemplo para todas as pessoas.

    Um beijo.

    Responder

  16. Olá Nardele,
    A vida nos ensina sempre que a esperança sempre deve ser renovada, pois nos momentos de descida do carrinho é que aparecem anjos de carne e osso para resgata-nos de estados que demonstram que somos muito menores do que pensamos e temos apenas um pseudocontrole dos nossos espaços…

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  17. Posted by Cleiton on 26 de Janeiro de 2011 at 18:42

    Lendo esse post eu lembrei de um filme muito bom que fala um pouco disso. Essa capacidade que o ser humano tem de ser tão solidário e ao mesmo tempo tão monstruoso e cruel. O filme não trata disso de forma explicita, mas confesso que foi como pude entende-lo e acho um dos melhores que já pude assistir. O nome dele é Crash, No limite. Foi uma zebra ao ganhar o oscar de melhor filme do ano de 2004 se não me engano. Há sim, já ia me esquecendo, é muito EMOCIONANTE, assim como sua história que da vontade de estar lá só para te socorrer. Rsrssss

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  18. Posted by nardele on 2 de Fevereiro de 2011 at 17:37

    Oi minha linda menina, você é mesmo especial e por ser, encontrou um anjo tão especial como, que ajudou a sair de uma situação tão difícil. Tudo isso porque merece. Quando me lembro daquele dia, vendo toda molhada e corando ainda me abala, tomara Deus que nunca mais passe por isso. Um grande beijo, te amo maior que a mim mesma.
    Marlene Gomes.

    Responder

  19. Posted by nardele on 21 de Fevereiro de 2011 at 19:03

    Que lindo, mãe… só hoje vi seu comentário aqui…

    Ela é demais, nunca me disse que tinha entrado em meu blog.

    Te amo “maior que a mim mesma”.

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  20. Posted by Gustavo on 23 de Fevereiro de 2011 at 11:05

    Olá Nardele!! Dia tenso esse hein? Pois é, nessas horas de desespero a gente tem certeza que todos somos iguais mesmo! Que bom que tudo acabou bem! Ah! ótimo texto!Beijao

    Responder

  21. Posted by Emerson Gouveia on 25 de Maio de 2011 at 15:26

    Sensacional Nardele !! Lendo seu texto fico a pensar como somos privilegiados !!! Na hora certa, no lugar sempre tem alguém disposto a nos ajudar !! E vc reencontrou essa pessoa ?? Não cai uma folha antes da hora !! Parabéns…Bjs

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