Conflitos “medianos”

Diante de uma grande felicidade, ou de uma grande tristeza, tudo que é mediano fica tão insignificante. A vida tem essa capacidade infinita e incansável de se redimensionar. Bastam cinco minutos de um mergulho nas imagens de uma tragédia como a do Rio de Janeiro e vem o pensamento: o que estamos todos fazendo no twitter? Por que estamos aqui comentando a novela? A pizza? A piada interna? Enquanto milhares de famílias estão lidando com o fato recém consumado de que seus filhos morreram, seus pais morreram, suas casas não existem, seus bairros, suas cidades não existem, e agora? Por que estamos tomando sol bêbados na praia enquanto o mundo desaba não muito longe de nós? Simples. Porque é assim que a vida é. Porque a vida precisa continuar. Porque metade do mundo precisa se manter sã enquanto a outra enlouquece.

Da mesma forma eu sinto que também vale para o oposto. Em momentos de intensa felicidade, todo o resto perde totalmente o sentido. Como assim, as pessoas comentam a novela das oito enquanto eu estou chorando de emoção diante da Torre Eiffell? Enquanto eu bato os olhos pela primeira vez no meu sobrinho mais novo e mais uma vez no mais velho? Por que estão lá publicando no facebook que sentem raiva quando ligam pra alguém e dá ocupado enquanto alguém no mundo é pedido em casamento pelo grande amor da sua vida? Enquanto um bebê nasce, a mãe chora e o pai treme de emoção com a câmera nas mãos sem conseguir registrar um só segundo de imagem de tanta felicidade? Não dá pra entender. Pra quem vive uma emoção extrema, seja ela boa ou má, tudo o mais vira água, perde o significado, é nada, nada, nadinha. Mas para todo o resto do mundo não.

A minha conclusão? Vivemos todos na mais mediana das emoções quase todos os dias. Mesmo as alegrias do cotidiano (e o que seria de nós sem elas?), os telefonemas inesperados, o brinde da sexta à noite, o filme inédito na tv, tudo isso é mediano. Talvez eu esteja influenciada pelo pesar e pela incapacidade de reverter o desespero dessas famílias que perderam tudo nas enchentes no Rio. Ou pela lembrança de que, na minha viagem de férias, eu tive dias tão intensamente felizes que, ao abrir o twitter eu pensava “não tenho vontade de escrever nada, eu estou em outra dimensão, nós nem mesmo estamos falando a mesma língua”. Mas o fato é que, como eu disse logo no início, isso tudo é um retrato da capacidade que a vida tem de se redimensionar. Porque hoje é sexta-feira, e fez um dia lindo de sol na minha cidade, e vem aí um fim de semana animado, e hoje é o último capítulo da novela, e eu matei o desejo de comer pizza de pepperoni e gorgonzola, e eu estou feliz, mediana ou intensamente, porque essa é a minha dimensão agora. Não dá pra viver na queda livre da montanha russa 24 horas por dia, 7 dias por semana. Eu sofro, eu choro, e eu penso em uma forma de ajudar “a metade do mundo que enlouquece”. Mas deve ser lícito tentar ser feliz, mesmo enquanto o mundo se acaba.

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11 responses to this post.

  1. Belo texto, como sempre.

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  2. Posted by andrea on 15 de Janeiro de 2011 at 13:29

    Não poderia deixar de registrar o quanto me emocionei com seu texto, Lindo,inteligente,intenso sem palavras. Parabéns!!!

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  3. Posted by Debora on 15 de Janeiro de 2011 at 20:42

    Poxa, que bonito!

    Da mesma forma que você disse ter ficado “sem ter o que escrever” diante do Twitter, também me vejo sem ter o que escrever diante do seu texto.

    Mas temos motivos diferentes. È que ser texto foi feito para deleitar, não para comentar.

    Parabéns!

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  4. Que lindo post, Nardele.

    Eu vivo minha queda pessoal desde dezembro e estou incapaz de assistir ao noticiário por esses dias. Eu estou sabendo, mas não estou vendo, nem acompanhando, porque nem consigo dimensionar, mesmo tendo acabado de me despedir de alguém que amo infinitamente, não consigo dimensionar a dor de perder toda a família de uma vez de forma tão estúpida. Eu estou covardemente me permitindo sentir apenas a minha dor porque agora não posso dar muito a ninguém. E isso é um pequeno retrato da loucura que é o mundo e que você descreveu tão bem em seu post.

    Beijos
    Rita

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  5. Esse mundo é mesmo estranho… E uma bela comparação com a montanha-russa enquanto uns tão na subida, outros na descida a toda velocidade, e a gente vivendo de doses de felicidade, os momentos da vida… que saibamos aproveita-los integrlamente, pois o carrinho uma hora desce….

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  6. Simplimente lindo!

    É difícil ver coisas boas, ou coisas positivas, em situações tristes como essa. Mas, lendo seu post, pude perceber que ainda existem pontos positivos, mesmo que seja estranho reconhecer. Mas, é incrível como as pessoas se sensibilizam, se aproximam, se convencem, se reconhecem, se ajudam, estejam elas envolvidas ou não com palavras e gestos comoventes. Tais como as palavras maravilhosas de que você abriu mão!

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  7. onde é que eu assino?

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  8. Posted by Rejane on 19 de Janeiro de 2011 at 10:59

    É isso mesmo, Nardele.
    Hoje já se contam 716 vidas perdidas no Rio.
    Triste.
    Como você sabe, eu já atendi vítimas de deslizamentos e enchentes por causa de chuvas. O nó vem na garganta.
    Mas não podemos ficar presos ao sofrimento. Aliás há duas coisas que muito me emocionam: o sofrimento alheio e música.
    Não é à toa que escolhi a profissão que escolhi. Tenho gana de ajudar os outros.
    Bem, continuamos vivendo e podemos ser felizes, sem vergonha.
    Hoje, cada vez mais, penso que devemos viver bem, da melhor maneira possível, sem conflitos bestas, pois a vida é cheia de surpresas e o tempo “ruge”. rsrs
    Beijo

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  9. Posted by paula on 19 de Janeiro de 2011 at 20:38

    Nard!
    Iss o é REAL!
    Amei o texto!

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  10. Posted by nardele on 20 de Janeiro de 2011 at 19:31

    Iris, adoro que você sempre venha aqui. Feliz que tenha gostado!

    Andrea e Debora, muito obrigada pelas palavras. Que bom que emocionou e deleitou, é a melhor coisa que eu poderia ler sobre este post. 😉

    Rita, minha linda, nem respondi seu comentário aqui, mas já nos falamos lá no “Estrada”. Estou por aqui mandando energias. É longe, mas energia boa voa longe, e chega rápido! =)

    Jadilson, verdade. Às vezes a gente precisa de um período de calmaria, aquele que vem antes (ou depois) de uma subida em velocidade. Ou descida, né? Mas depois a gente volta sempre pro lugar. Ainda bem!

    Jardel, muito obrigada. Sempre há algo bom em tudo, né? Por mais que às vezes seja difícil de enxergar.

    Pa! Já assinou. rs Você é associada!

    Rejane, o jeito que você descreveu lá na rádio a situação das pessoas, molhadas, trêmulas, assustadas, me comoveu muito. Pobre ser humano. Tão frágil…

    E Paulinha, é sim, é real. E verdadeiro. O instinto da busca pela felicidade está dentro de nós, não importa em que situação.

    Obrigada a todos, beijos!

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  11. É estranho pensar que tanta coisa acontece a todo momento, tristes ou felizes, elas acontecem. E que não é egoísmo sorrir enquanto metade do mundo enlouquece.

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