Verde, vermelho e sépia.

Então o “homem de vidro” abre o armário e mostra a Amelie as cópias que faz do quadro “O Almoço dos Barqueiros”, de Renoir.

O Almoço dos Barqueiros

“- Faço um por ano. Há 20 anos. O mais difícil são os olhares. Às vezes tenho a impressão de que mudam de propósito de humor assim que viro as costas.

– Agora parecem felizes da vida…

– E devem! Esse ano comeram coelho com cogumelos. E teve bolinho com geléia para as crianças.”

É tão lindo, é brilhante. É um mundo onde as pessoas no quadro mudam de humor a cada dia, onde as crianças comem bolinho com geléia no almoço. Onde um homem pode dizer isso a uma jovem que mal conhece e ela não o acha um esquizofrênico. E ele não a acha metida demais que não possa ver os seus preciosos quadros. É um mundo verde e vermelho, às vezes meio sépia, esse de Amelie Poulain. Onde fazer valer a vida de pessoas desconhecidas é um fabuloso destino.

Outro dia li no blog de Pedro Neschling um texto lindo, que falava sobre o fim do romantismo. Romantismo não no sentido de relacionamentos amorosos, mas um jeito delicado de encarar a vida. Esse, que sobra em “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”. O texto é maravilhoso, vale a pena ler.

E como Neschling diz em seu texto, eu também não tô achando esse nosso mundo legal. Me incomoda especificamente o modo como as pessoas esqueceram como se faz pra respeitar umas às outras. E não sabem como é interessante e rica a experiência de conhecer alguém. Com todas as suas características próprias, com toda a infinidade de nuances que aquela pessoa carrega consigo. E como às vezes a gente quer que elas sejam algo que a gente moldou pra encaixá-las dentro. É a nossa velha mania de idealizar as pessoas e as coisas.

Escrevi bastante sobre o motivo exato que me levou a escrever tudo isso mas apaguei, porque percebi que pouco importa, porque sempre me pego pensando sobre como as pessoas deixaram de respeitar as outras. Perderam a capacidade de se encantar, e compreender. Exigem. Cobram. Querem. Julgam por tão pouco. Mas o fato é que ninguém pode exigir que você seja deste ou daquele jeito. Ninguém tem o direito de dizer o que você pode falar ou pensar. Ninguém pode cercear uma liberdade que é sua, ninguém tira.

Eu me incomodo demais com isso. Outras pessoas dizem “por que você se irrita? Por que se incomoda? Esquece!” e tá certo, seria o melhor a fazer. Mas me incomoda sim, profundamente, constatar que é assim que as coisas são. E enquanto isso me incomodar vou saber que não passei a ser igual. As pessoas não se respeitam, e, como remédio, a gente não dá a mínima? Não. Meu jeito de protestar é me incomodando. Porque não dá pra ignorar que o mundo tá ficando cada vez mais cinza.

Eu prefiro o mundo verde-vermelho-sépia de Amelie Poulain.

Anúncios

10 responses to this post.

  1. Posted by Taty on 26 de Agosto de 2010 at 20:29

    Amiga,

    Sem palavras. Posso compartilhar com você esse sentimento?
    Já falei que sou sua fã? Que tenho o maior orgulho do mundo de ter sua amizade?
    Mas, o principal é ter certeza absoluta que tem alguém no mundo tão especial, profunda e verdadeira: você, ou seja, que existe uma Amelie no mundo bem pertinho de mim! =)

    Obrigada!

    beijos

    Responder

  2. Num mundo que anda calcado por modismos e falsas aparências, as pessoas estranham quando se deparam com outras que não seguem esse perfil. Pessoas como eu, você e outras sensatas que existem por ai, que estão sujeitas às alterações de percepções, afinal, humanos somos e nas veias corre sangue e não fluídos de máquinas.
    Como sempre digo em momentos de “cobranças e especilações alheias”, Não há de ser nada!
    Abraços e parabéns pelo ótimo desempenho perante a Metrópole e por ser uma pessoa normal em meio ao mundo louco que vivemos.

    Responder

  3. Oi, Nardele

    Semear respeito, derrubar preconceitos, vigiar a nós mesmos para não cairmos nas armadilhas da ignorância fácil (aquela que nos faz virar a cara ao diferente, ao invés de ir ali prestar um pouquinho mais de atenção). É disso que precisamos e é assim que podemos ajudar a melhorar as coisas. Mas é um exercício diário e muito mais difícil do que parece. Ainda assim, indispensável. E depois que a gente toma gosto, hum… a vida fica muito mais colorida.

    Beijo, querida, lindo post.

    Rita

    Responder

  4. Lindo post mesmo.
    Eu me importo, eu me mobilizo. Às vezes sofro, mas também tiro felicidade de pequenas coisas!
    “Vamos pedir piedade, Senhor, piedade pra essa gente careta e covarde!”

    beijooo

    Responder

  5. Posted by nardele on 31 de Agosto de 2010 at 19:56

    Oi Aloisio! Obrigada pelo seu comentário. Tem razão, as pessoas acabam estranhando esse jeito de ser despreocupado com “o que vão achar se eu disser bobagem”. Eu digo bobagem o tempo todo. E me divirto com isso. rs Beijo!

    Rita, foi engraçado isso, porque depois que eu escrevi é que eu vi o lance no seu blog. O post e a discussão! E de repente, enquanto eu lia, várias sensações foram surgindo. A última, e que prevaleceu, foi de encantamento mesmo. Tipo “ainda há lugares onde as pessoas podem realmente discutir ideias”. Hoje as pessoas discutem quem argumenta melhor, quem sabe mais, quem é mais irônico ou quem fala por último! Loucura. E as ideias, ficam onde? Eu, hein?! Beijo!!

    Pa, que bom. É tão importante a gente se desapegar de expectativas e deixar que os outros se apresentem, né? E sabe o que eu acho pior? As pessoas estão cada dia mais vaidosas, querem ter sempre razão, e se você comenta a respeito, elas ficam super melindrosas, arredias. Ui. Me falta paciência pra esse povo de vez em quando. rs Valeu, beijoca!

    Responder

  6. Posted by Rejane on 5 de Setembro de 2010 at 23:30

    O filme é lindo e delicado.
    Hoje o que falta no mundo (dentre outras coisas) é delicadeza, educação.
    As pessoas estão muito mal educadas, de uma maneira geral. Sim, também estão muito vaidosas e orgulhosas, não aceitam serem contrariadas em sua opinião. Não sabem discutir ideias e muitas vezes desqualificam o outro. É uma pena. Procuro educar meus filhos para saberem discutir ideias sem ficarem irritados quando encontram uma oposição, a começar por dentro de casa. Não é fácil…
    O julgamento e o preconceito também são uma praga. Criar um conceito ANTES de conhecer a pessoa é o que mais acontece. Perde-se de conhecer pessoas interessantes por preconceito.
    Porém se fizermos nossa parte, dando algum exemplo, jé é um começo de mudança, em algum nível.
    Bj

    Responder

  7. Posted by Marcus on 7 de Setembro de 2010 at 12:10

    “Como as pessoas esqueceram como se faz pra respeitar umas às outras. E não sabem como é interessante e rica a experiência de conhecer alguém”.
    Ainda que distante, tenho aprendido muito sobre essas questões.
    Lindo post. Também adoro as bobagens que diz. Soam como singelos momentos de alegria em meu dia.
    Com sua licença, sigo bisbilhotando, e aprendendo, e admirando…
    Sucesso.

    Responder

  8. Posted by GISLANE on 10 de Janeiro de 2011 at 4:17

    COMO É BOM SABER QUE EXISTEM OUTRAS PESSOAS QUE APRECIAM AS MESMAS COISAS QUE VOCÊ. PASSEANDO PELA WEB DEPAREI COM SEU BLOG E ESTOU ENCANTADA COM SEUS TEXTOS E COM AS IMAGENS ESCOLHIDAS. ASSISTI MILHARES DE VEZES AO FILME “O FABULOSO DESTINO DE AMELIE POULAIN”. ME APAVORA A SOLIDÃO APRESENTADA ALÍ. MESMO COM ROUPA DE COMÉDIA A SOLIDÃO É GELADA. MESMO COLORIDA PELAS CORES FORTES DO FILME, A SOLIDÃO MOSTRAVA A SUA VERDADEIRA COR FÚNEBRE. MAS EIS QUE SURGE AMELIE QUESTIONANDO E SENDO QUESTIONADA, TRANSFORMANDO E SENDO TRANSFORMADA, ASSIM COMO DEVE SER A DINÂMICA DA VIDA SE AS PESSOAS SE PERMITISSEM ENCONTROS SAUDÁVEIS E POSITIVAMENTE TRANSFORMADORES. PARABÉNS POR SEU BLOG. É A PRIMEIRA VEZ QUE ESCREVO ALGO SOBRE ESSE FILME VIBRANTE. UM CORDIAL ABRAÇO. GISLANE

    Responder

  9. Posted by Fran on 21 de Agosto de 2013 at 17:18

    ao assistir Amélie (pela 4ª vez rs, dessa vez para fazer um trabalho), pensei estar “pirando” nas cores, parti, então, em busca de referências que me dissessem que não rs encontrei seu blog por acaso, e mesmo não encontrando aquilo que buscava, me deparei com esse texto ótimo e com todo esse inconformismo que nele se expressa…
    “Eu me incomodo demais com isso. Outras pessoas dizem “por que você se irrita? Por que se incomoda? Esquece!” e tá certo, seria o melhor a fazer. Mas me incomoda sim, profundamente, constatar que é assim que as coisas são. E enquanto isso me incomodar vou saber que não passei a ser igual. As pessoas não se respeitam, e, como remédio, a gente não dá a mínima? Não. Meu jeito de protestar é me incomodando. Porque não dá pra ignorar que o mundo tá ficando cada vez mais cinza.” É sempre maravilhoso ver que algumas pessoas ainda se importam, que não querem se acomodar, naturalizando o desrespeito deixando tudo como está.

    Responder

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: