Cenas de consultórios

E então eu cheguei à sala de espera do médico, entreguei carteirinha, identidade, e a moça me mandou sentar pra esperar ser chamada. Ok. Me virei para as cadeiras da sala de espera, tinha umas quatro pessoas sentadas. Todas com aquelas caras de tédio que a gente fica quando vai ao médico. Geralmente tem uma pessoa mais idosa que adora conversar, uma mulher com uma criança pentelha que corre pra lá e pra cá o tempo todo e mexe em tudo que não pode, um cara faltando o trabalho que olha pro relógio a cada cinco minutos, e alguma outra criatura esparramada na cadeira, com cara de zumbi, assistindo a televisão que sempre, sempre, sempre está em algum canal ruim, com imagem chuviscada e som ou muito alto ou muito baixo.

Sentei do lado da esparramada. Era a que menos me oferecia risco de querer puxar assunto. Que tipo de papo pode ser interessante num contexto como esses, no consultório de um cardiologista? “Você teve dor no coração mesmo ou foi formigamento?” “Não, eu tive pontada.” “Ah, pontada é mau sinal, você tem que ver isso”. “Foi pra isso que eu vim”, “Ah, ok”. Isso não pode ser interessante, não tem nenhuma chance. Ninguém conversa sobre o filme de Woody Allen que está em pré-produção, nem sobre quem tuíta coisas mais engraçadas, nem nada. Então o mais seguro a fazer é evitar as pessoas que aparentam disposição para interações repentinas.

Pois bem. Estou bem lá sentada olhando o guri que não para quieto e a mãe dele que já tentou de tudo pra que ele se sente, sem conseguir, e eis que entra um cara diferente no recinto. Todo mundo se volta pra ele por alguns segundos até que ele deixa de ser novidade e todos voltam às suas rotinas. A mãe do guri se vê obrigada a conversar com a velhinha que insistia em puxar assunto, o apressado já levantou e foi tomar cafezinho três vezes, e a esparramada escorregava cada vez mais em sua cadeira. Mas o novato me chamou a atenção. Ele vestia uma roupa tão friamente calculada que não pude deixar de reparar. Bermuda branca – com detalhes vermelhos – sobre os joelhos (acho isso tão coroinha), camisa branca sem manga com frisos vermelhos, tênis branco e vermelho. Até uma fita vermelha do Senhor do Bonfim ele tinha amarrada ao pulso. As meias estavam dobradinhas com dois dedos de altura, iguais. Era metódico até a alma. Cabelos milimetricamente cortados. Chegou e foi falar com a atendente. Magrinho, coitado, parecia que ia quebrar. A impressão era reforçada pelo estilo frágil de falar e questionar todo o procedimento que estava prestes a fazer com o médico. A voz mal se ouvia. Eu observava o super certinho até que enfim consegui ler o título do livro que ele segurava: Loucos por Aventuras Radicais. Um cara malhado e bronzeado saltando de páraquedas era a imagem na capa. Achei tanta graça do paradoxo que dei risada sozinha. A esparramada olhou, se aprumou na cadeira, a velhinha se voltou pra mim e quase queria saber o motivo do riso, o guri não viu nada e continuou correndo e se batendo nas coisas. E a vida continuou seu rumo.

Agora há pouco meu amigo Rafael contava no twitter que estava na sala de espera de um médico e tinha um guri inquieto usando um short igual ao de Serginho do BBB. Uma vez eu estava em outro médico e na TV passava só o Menu do DVD de Vanessa da Mata, com aqueles trechinhos de música que duram 30 segundos e se repetem infinitamente. Ninguém apertava play. Eu tive que pedir pelo amor de Deus pra alguém fazer isso, sob o risco de ficar maluca. Sala de espera de consultório médico é mesmo um lugar insalubre.

7 responses to this post.

  1. Pois é.

    Acho sala de espera de médico um verdadeiro campo de observação. Para estudo e análise.

    Morro de medo de que alguém puxe papo. A arma? Celular. Fico vendo coisa na web e, quando não tinha pacote de dados, ficava nos joguinhos mesmo – por mais chato que a maioria desses jogos seja, é melhor que enfrentar as conversas desagradáveis de gente tentando ser agradável.

    Outro tipo que sempre tem é aquele que começa a querer criar confusão por ‘ainda não ter sido atendido’. Poxa, por mais que os médicos estejam errados por não cumprir o horário, não acho que um consultório seja lugar de ‘baixaria’. Eu também reclamo, mas faço isso com os recepcionistas e com o médico, quando entro. Mas nunca fico falando alto na tentativa de contagiar a sala. Nunca dessas brigas, alguém que vai investigar o que tem no coração se exaltaa ponto de enfartar. Aí já era!

    Pra nos distrair, colocam revistas e ligam a TV. Revistas, velhas, amassadas, faltando páginas. E a TV é desse jeito mesmo, pelo menos a maioria… Imagem chuviscando, num canal normalmente desinteressante e volume baixo (comigo, sempre baixo). Menos distrai e mais irrita!

    Sobre o menino de uns 4 anos, que era o clone de Serginho, do Big Brother, confesso que tomei um susto quando vi. Entrei e fui à recepção – nem tinha visto ainda. Quando virei procurando um lugar pra sentar, eis que vejo. Em pé numa cadeira ao lado da mãe. Camisa polo listrada e um short micro, curtíssimo, daqueles que viraram ‘marca registrda’ do cara no BBB. Sentei entre um senhor – que assistia ao jogo África do Sul X Uruguai – e uma senhora – com cara de cansada e que parecia não querer conversa. Foi só eu sentar pro menino descer da cadeira e começar a correr. Quando peguei o celular, ele veio pro meu lado, parou e olhou. Como olhei com cara de poucos amigos, ele foi procurar outra vítima. Mas ele não parava quieto desfilando com seu uniforme engraçado.

    É isso… Atores que querem ‘tipos’ para seus próximos personagens devem passar por lá e observar.

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  2. hahaha. eu também sempre reparo nesses tipos estranhos. um que me chama atenção (e me irrita BASTANTE) é o que acha que vai te dar a solução/cura/diagnóstico pro seu problema. e, tipo, ele sabe bem mais do que o médico. outro dia eu estava na sala de espera da minha dermatologista (com quem faço tratamentos pra acne há uns… uns.. três ou quatro anos) e puxa conversa comigo uma senhora que insiste muuuito em diagnosticar meu caso. ela dizia: “menina, são os ovários! vc tem que ver isso! são os ovários!!” tipo, vc gasta anos de sua vida com um tratamento, tem o acompanhamento de um médico, mas nãoooo, a pessoa acha que vc ainda não está fazendo nada direitoo…

    humpf!

    rsrs

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  3. ah, sim, e claro, eu leio sempre todo o acervo de revistas existentes (desde caras a contigo – eca, eca) pra suportar as loooongas horas de espera. e, também, o ar condicionado invariavelmente está quebrado e, normalmente, estou lá na hora em que está passando video show ou vale a pena ver de novo, o que faz a sobrevivência ainda mais árdua! hehe

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  4. Hahahahaha! Que tééédio essa foto, cruzes! E que ótima sua descrição. Eu sempre levo um livro comigo, para não morrer. A não ser quando eu sou aquela mãe, do menino que mexe em tudo.

    Beijão, ótimo post!
    Rita

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  5. Posted by Vanderson Carvalho on 20 de Junho de 2010 at 1:37

    Sempre achei um tédio tb. Até q um dia que conheci uma garota legal. A mais linda q já vi ns vida. Acabou não dando certo mas enfim….Pode teralgo além do tédio nas salas de espera.srssrrs

    Quem sabe o seu não é esse carinha do “look style”??

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  6. Posted by Joyce on 21 de Junho de 2010 at 22:09

    Ameeei!!! lendo me sinto como se tivesse lendo uma crônica de Veríssimo!! vc tá escrevendo muito bem, Dele!! beijocas!

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  7. Posted by Debora on 29 de Setembro de 2010 at 23:22

    Verdade Nardele, muito parecido com crônicas de Veríssimo!!!
    Claro que com sua identidade própria, a comparação é somente para incluir numa categoria e ficar mais didático hehehehe

    Gente, muito cômicas essas cenas descritas.
    Eu fico muito mais aflita que vocês quando tenho consulta no oftalmolagista e tenho que ir sem lentes e estou sem óculos reserva. Nossa……… tenho 8,5 de miopia, e fico alí, naquele recinto, com as pupilas dilatadas, pálpebras anestesiadas sem enxergar um palmo na minha frente.. e fica essa senhora puxando conversa comigo… Só a aflição de nao estar vendo a cara da criatura e saber que qualquer dia, ela pode me encontrar na rua, e querer puxar papo… nao vou fazer idéia de quem ela é e ela vai ficar querendo explicar… Ó Jesus!!! E o guri que fica derrubando tudo? Não consigo visualizar qual a traquinagem dele, nem prever se serei a próxima vítima e já preparar minha defesa…

    Oh Céus, como sofro!

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