Observando…

Desde criança eu aprendi com meus pais que caridade não é quando você tem dois e dá um. Caridade é quando você só tem um e dá a metade.

Há dias venho ouvindo pessoas dizendo por aí, por ali, que (e sempre começa assim): “Tudo bem que o Haiti está passando por problemas, mas peraí, todo mundo manda dinheiro pro Haiti, fala do Haiti, se preocupa com o Haiti, mas e eu? Meu salário está atrasado”, ou então (e bem mais aceitável) “tem criança órfã no Haiti, tudo bem, mas aqui também tem. Por que a gente tem que ajudar as de lá se aqui também tem?”, e outras manifestações do tipo.

Pode parecer impopular o que vou dizer, mas embora revestidas de indignação, essas manifestações – mesmo as que reivindicam ajuda para nossos pobres em detrimento dos pobres dos outros – me cheiram a egoísmo. A essas alturas, eu já acho até desnecessário descrever o que aconteceu com o Haiti, e tentar descrever o quão infeliz e desgraçado já era aquele povo, mesmo antes do terremoto. A gente acha que imagina como é, mas de repente somos bombardeados com imagens que deixam até o menos sentimental dos seres humanos abalado. E fazem pensar: Meu Deus, tamanha tristeza existe? É possível?

Mas se a desgraça lá é inimaginável, a nossa aqui é conhecida. E será que esses que reclamam da solidariedade de quem se mexeu para ajudar quem precisa também se mexem pra ajudar quem precisa e está por perto? É porque eu sofro que não posso ajudar quem sofre? É porque tem uma criança chorando aqui que não posso tentar ajudar também a que chora lá? É porque meu salário está atrasado que o Haiti não merece uma mão estendida pra tentar levantar?

Hoje eu li na internet que John Travolta, um ano depois de perder seu filho de 16 anos para uma doença rara, voou em seu avião particular para o Haiti, levando 50 médicos e também mantimentos para aquele país. Na volta ajudou haitianos-americanos a voltar pra casa, trazendo-os em seu avião. Países e pessoas doam dinheiro, levam médicos, levam esperança. O Brasil é um dos mais ativos nessa ajuda. Todos esses países tem problemas, certamente. Mesmo os mais ricos, em maior ou menor escala. E se todos resolvessem cuidar de seus problemas primeiro, o Haiti estaria fadado a permanecer sob as ruínas. Os sobreviventes morreriam de inanição, e de doenças, e de horror.

Lembro de uma frase atribuída a Gandhi, não lembro exatamente as palavras. Mas era mais ou menos assim: “Quando um homem se levanta para fazer o bem, toda a humanidade se torna mais digna junto com ele”. Acho que precisamos de mais desses homens para ajudar a levantar a nossa “humanidade”.

8 responses to this post.

  1. Ah, pois é. É sempre muito mais fácil criticar do que agir. Muuuuito mais.

    Tem uma musiquinha do Jack Johnson que fala assim:

    “If you have two, give one to your friend
    If you have three, give one to your friend and me (hehehehe)
    If you have one
    Here is something you can learn
    You can still share
    Just by taking turns”

    Meu filhote adora essa música e eu vivo falando do que se trata pra ele…

    E com palavras menos brincalhonas nosso presidente Estadista Global escreveu em seu liiiiindo discurso para Davos algo como o Brasil não quer ser grande em um mundo onde a África é esquecida, por exemplo. É preciso mudar o mundo para nos sentirmos grandes de verdade… É bem por aí. Pensar global.

    Beijos
    Rita

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  2. Oi, Nardele! Nunca mais dei uma passada por aqui.
    Concordo com você, inclusive estava comentando isso hoje! Muita gente está falando do Haiti, como se a solidariedade a esse povo fosse menos importante do que doar dízimos para os pobres do nosso país. Acho que esse tipo de argumento é, como você afirma, egoísta.
    Não podemos comparar uma catástrofe que colocou o país mais pobre das Américas no chão com a má distribuição de renda do Brasil. Esse tipo de argumento me faz crer que os políticos não têm culpa no cartório e que devemos salvar os miseráveis com esmolas. Como se a doação para os nossos pobres fosse acabar com a pobreza de um dia para o outro.
    Essas mesmas pessoas que reclamam do excesso de atenção aos haitianos são hipócritas e corruptas no dia a dia, tenho certeza. Além de serem insensíveis. E tenho certeza de que a maioria quer distância da pobreza. Esse tipo de discurso me cheira a oportunismo moral.
    Bjão!!!!!!!!!!!!

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  3. Posted by nardele on 30 de Janeiro de 2010 at 9:55

    Rita! Que liiiiiindo discurso mesmo! Li seu post, depois li o discurso, só ele mesmo. Não é sem razão que ele recebeu o título de Estadista Global, né? Porque não olha apenas para o seu próprio país (como se isso fosse pouco!), mas também para outros. Eu também lamentei tanto ele não ter podido ir ler o discurso lá… Mas o recado foi dado, beautifully! Acho que não conheço essa do Jack Johnson, vou fuçar a internet! hihihi

    Sandro, que bom que você apareceu, também ando sumida no Vinil Digital, vou aparecer. Acho que acaba sendo assim: “Eu não vou mexer uma palha. Mas quem for mexer, só pode mexer depois de tirar esse miserável da minha porta”. Nossa, que horrível isso, né?

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  4. Posted by delaorden on 30 de Janeiro de 2010 at 18:29

    Belo post. Palavra de quem tem um blog visitado por 110 paises até o momento, sem nenhuma falsa ou disfarçada modestia. Blogs autoriais, aqueles onde o que prevalece é o conteudo pessoal, são os que sobrevivem. Se pudesse dar somente uma pequena recomendação seria a de colocar as imagens um pouquinho maiores, pois as vezes uma imagem fala mais que palavras ou ao menos complementam. Mas os textos são lindos. Parabens Nardelle Gomes. Keep it up !

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  5. Esclarecimentos!!! rsrsrs!
    Meus Deus, que heresia seria se eu comparasse Michael Bay (Transformers) com o genial Woody! Woody é um dos meus diretores prediletos, ao lado de Almodóvar. Talvez eu tenha me expressado muito mal! Mas o que quis dizer é que mesmo o menor dos filmes de Woody Allen (seja Tudo Pode Dar Certo ou qualquer outro, dependo da análise de cada um) sempre vai ser melhor que qualquer Transformers da vida!!! Será que consegui convercer você??? Meu Deus, tomara!
    A minha lista com meus prediletos de Woody também é extensa…Manhattan; Noivo Neurótico, Noiva Nervosa; Zelig; Match Point..etc etc!
    Bejos!!!

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  6. Olá, Nardele e todos! Concordo em gênero, número e grau com Sandro. Chega até ser patético se reecrever tudo o que ele disse em minha palavras. Parabéns Sandro, Rita e Nardele pela percepção desse fato tão doentio de nossa sociedade. Não há pra onde correr a única coisa que mudará a mente do nosso povo e da nossa sociedade é uma revolução profunda na educação desse país.

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  7. “Jesus olhou e viu os ricos colocando suas contribuições nas caixas de ofertas. Viu também uma viúva pobre colocar duas pequeninas moedas de cobre. E disse: Afirmo-lhes que esta viúva pobre colocou mais do que todos os outros. Todos esses deram do que lhes sobrava; mas ela da sua pobreza, deu tudo o que possuía pra viver”. Lucas 21. 1-4

    Parabéns, Nardele. Por suas palavras, sua nobreza de espírito e a perfeita definição de caridade que herdou de seus pais.

    Beijo.

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  8. Nardele…
    Excelente gosto musical.
    Como dise alguém aí acima (em que pesem estilos diferentes) ouça tbm Jack, o Johnson… rsrsrs

    Bj
    Fica com Deus sempre.

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