Capitulina, Otávio e a desconhecida D. Enedina

Eu costumo comentar muito sobre propagandas irritantes, gastas, mentirosas e afins. Mas tem um comercial do governo que me toca especialmente: o de D. Enedina. Ela tem 100 anos e é aluna do Topa (Todos Pela Alfabetização, Governo da Bahia). Deixo claro antes de mais nada que este comentário nada tem a ver com o governo. O que me toca é D. Enedina.

Uma senhora de 100 anos, que está estudando, aprendendo a ler, nem que seja “pra reconhecer e letra” do ônibus que ela pega. Ela tem 100 anos e anda de ônibus. Como uma verdadeira cidadã, exercendo seu pleno direito de ir e vir, “sem ter que perguntar a um e outro que ônibus vem ali”. Ela valoriza o reconhecimento de que percurso aquele ônibus faz, se é “Tiotônio Vilela”, se é “Centro”.

Ói, évem ali Tiotônio Vilela. Pegar e vim mimbora. Isso é bonito pra mim, depois de velha. Muderna não achei… Vim achar depois de 100 anos.”

É lindo, D. Enedina. É muito lindo. D. Enedina me lembra minha avó Capitulina. Minha vozinha. Acho que é isso que mais me emociona em D. Enedina, além da força de vontade. É que são histórias que se cruzam, histórias semelhantes. Mulheres da roça, fortes, determinadas, corajosas, um pouco castigadas pela vida. Mas que não desistiram. E esse modo de falar de gente sábia, muito sábia, muito mais sábia que muito intelectual que por anos e anos “alisou os bancos da ciência”. A sabedoria vem da vida. Da experiência. A beleza de D. Enedina é essa. Minha avó Capitulina morreu faz dois anos. Meu avô Otávio, tão sábio quanto, e doce, extremamente doce, comemorou esse ano 99 anos. Teve samba durante dois dias. Ele batucou, sambou, cantou. É samba de homem da roça, não é samba de boteco nem pagode. Tá vivo, forte, ainda trabalha. Faz “tarrafa”, rede de pesca, e “cancela”, aquelas portas de fazenda, de madeira cruzada. Mora no interior, vai à missa todo domingo, vai à feira. Quando minha avó morreu, ele pôs um pano cobrindo a cabeça e só tirou dois dias depois. E dizia: “Bem que o padre disse que só a morte ia separar a gente.” Foi o que ocorreu, mais de 70 anos depois do casamento.

Não sei porque estou com esta nostalgia. Acho que foi D. Enedina que me despertou pra essas lembranças. Queridas lembranças de infância. Minha avó pegava a gente no colo, e dizia:

Uia, uma fulô!

Ela sabia que era flor, e gostava que a gente a consertasse. “Corta uma fatilha desse bolo”. Ela me chamava de Delita, e tinha um chamego muito especial comigo. Ela era muito linda. E é um exemplo a ser seguido por mim. Tô com uma saudade de vó Capitulina…

boanoite

Florzinha que tem na frente da casa de meus avós.

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12 responses to this post.

  1. Posted by paulabarouchel on 10 de Novembro de 2009 at 20:53

    Oi Nard,
    Que delicia ler seu post… engraçado porque no meu de hoje falo sobre vida vivida… cada um vive de uma forma e nos toca de formas singulares… também me emociono de ver esse comercial!
    Um bjo!

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  2. Lindo lindo post, emocionante! Me fez viajar no tempo de lembrar de Vo Capitulina, linda vovo!
    “Vai querer comer com “gaufo” ou com cuié” hahaha mais umas das frases q ela dizia doida pra q a gente consertasse ela…
    Saudades eternas de vovo querida!

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  3. Posted by nardele on 11 de Novembro de 2009 at 10:20

    Pyl, e “escoromeno”? Significava “pelo menos”!!!!

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  4. hahahahahaha lembro dessa!!!

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  5. Posted by Laís on 11 de Novembro de 2009 at 13:17

    É muito lindo! Participei de um programa social, trabalhava com alfabetização de adultos e foi uma experiência incrível! Era maravilhoso, as pessoas tinham muita vontade de aprender, ficavam orgulhosas a cada etapa vencida, era a descoberta de um novo mundo e elas provavam para todos (e para si mesmos) que eram capazes, mesmo “depois de velhos”, como cosumavam dizer. Os idosos eram os que mais tinham força de vontade, apesar de todas as dificuldades, não faltavam uma aula, queriam sempre aprender mais. D. Enedina me faz lembrar dos que continuaram, muitos conseguiram ir além da alfabetização . Sim, é muito emocionante e bonito de ver!

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  6. Posted by Andréa on 11 de Novembro de 2009 at 20:52

    Vi outro dia e também me emocionei com o comercial, lembro D.Enedina falando: ”Quando era mais moderna…” rs, rs lindo mesmo Nardele, vê a felicidade estampada no rosto dela, felicidade em estar aprendendo a ler e escrever muito lindo mesmo.

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  7. Ná, a primeira vez que vi D. Enedina me emocionei!
    minha avó também se chama Enedina, mas, infelizmente, não se parece tanto com essa… mas, cada um com seu cada um!!! kkkkkkkkkk

    a matéria sobre “a queda” (do muro) está no podcast? perdi! 😦

    Responder

  8. Posted by Nardele on 12 de Novembro de 2009 at 8:49

    Laís, que legal essa experiência, também quero participar de algo assim. Você e Andréa, voltem sempre, viu!

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  9. Nardele, que texto primoroso. Tão gostoso de ler quanto ver o depoimento de D. Enedina. Quando eu vi a primeira vez, deu uma vontade horrorosa de chorar. Digo horrorosa porque tinha gente do lado e eu não ia chorar na frente de um comercial no youtube.
    Mas, D. Enedina é um daqueles links, cada vez mais raros, que temos com a pureza do passado. Como possivelmente diria ela: “é coisa que não se vê mais, né não, minha fia?”.
    Vida longa a D. Enedina.
    Parabéns pelo texto, Nardele. Muito bom mesmo.

    Beijo!

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  10. Posted by Maria Tereza on 16 de Novembro de 2009 at 22:14

    Olá Nardele,
    Que bom poder te acompanhar aqui também. Fiquei tão emocionada quanto você, ao ver o comercial com Dª Enedina. Já tinha lido no Jornal A Tarde uma matéria sobre ela e fiquei impressionada pela garra e força de vontade. Quando vi o comercial me emocionei mais ainda. Pois a mesma fisicamente é parecida com a minha bisavó Maria Etelvina, que faleceu com 124 anos em consequência de um AVC. Enquanto esteve entre nós, aprendemos muito com ela, dávamos muitas risadas dos “causos” que ela contava da sua vida lá em São Francisco do Conde. Ainda guardo fotos e algumas reportagens publicadas no Jornal A Tarde com ela. Um luxo só! Muito legal. Aproveite bastante a convivência com seu avô. Grande abraço. Tereza.

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  11. Posted by Carine Gomes on 23 de Novembro de 2009 at 18:20

    Delita!!!!
    Ela sempre procurava colocar na gente um nome no qual so ela mesmo saberia chamar, ou que ficasse exatamente marcado que so ela nos chamava daquela forma como: Delita (vc) , Patinha (Paty), Tango (Miltinho) e muitos outros…
    Ai Delle, vc nao imagina o quanto me emocionou e me deixou saudosa. Saudade é pouco pela falta que Vó nos faz, mas de outro lado é sempre importante lembrar da forma que vc lembrou, carinhosamente o que nao nos deixa sem chorar e sofrer um pouquinho mas faz parte…
    O melhor de tudo é que Deus foi Generoso conosco e nos colocou na mesma familia, nos deu a maravilha de termos a mesma Vo e o mesmo Vovô e assim aprender o de mais puro e sublime que nos ensinaram diante dessa vida, sou verdadeiramente grata a Deus por isso…

    Quanto D. Enedina é incrivel mas lembro de minha Vó tambem todas as vezes que vejo o comercial.

    Mas quero mesmo é te dizer que amei o seu post, alem de te amar muito tambem

    Bjos em Tia e Tio

    TE AMOOOO

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